Número 24

São Paulo, quarta-feira, 18 de junho de 2003 

"Será sempre assim: este luar/ da memória. E este rumor/ do coração." (Ruy Espinheira Filho)
 


Paul Verlaine: música


Amigos,

"De la musique avant toute chose" a música antes de qualquer coisa. Com este verso definitivo, o francês Paul Verlaine (1844-1896) abre o poema "Art Poétique", de 1885, considerado um verdadeiro manifesto da poesia simbolista. De fato, Verlaine colocou a música acima de tudo. Ele queria um verso fluido, ritmado, solúvel no ar.

Exemplo disso é essa pequena jóia, a "Chanson d'Automne", publicada em seu livro Poèmes Saturniens (Poemas Saturninos), de 1866. A música está de tal forma entranhada nesse poema que traduzi-lo para o português parece tarefa impossível. Por isso mesmo, transcrevo aqui três versões dessa canção de outono, escritas por poetas brasileiros de diferentes gerações: Alphonsus de Guimaraens (1870-1921), Guilherme de Almeida
(1890-1969) e Onestaldo de Pennafort (1902-1987).

Vamos à leitura. Ainda que você conheça o francês apenas de orelhada, dá para perceber as artimanhas sinfônicas empregadas por Verlaine. Basta escutar a primeira estrofe. Há ali como que um violão, inicialmente executado nas cordas mais graves: sanglots longs, violons, automne. De repente, a ação se transfere para as cordas médias (coeur, langueur) e retorna à nota inicial (monotone).

A música se desenvolve aparentemente mais suave na segunda estrofe e, na terceira, se rende ao sopro do "vento mau". Ali, as palavras oscilam como uma folha ao vento (deçà, delà, pareil a la) que afinal se acomoda no chão. Bem, não sou músico, mas isso é o que meu ouvido me diz.

Agora, como traduzir (verter, recriar, transcriar etc. etc.) esse poema em português? A seguir, algumas observações sobre as traduções ao lado.

Onestaldo de Pennafort conseguiu equilibrar bem texto e música na primeira estrofe. O trio sons-violões-outono dá conta do recado. No entanto, perde-se um pouco da mudança de tom: as palavras dor e langor não fazem o mesmo papel sonoro de coeur/langueur. Outro ponto forte da versão de Pennafort é a manutenção do bailado da folha seca ao vento: de cá pra lá,/ como faz à/ folha morta. Também vale destacar que, dos três, Pennafort foi o único a manter a métrica original, ou seja, estrofes com versos de 4-4-3-4-4-3 sílabas. Os outros trabalharam com 5-5-2-5-5-2 (Guimaraens) e 4-4-2-4-4-2 (Almeida).

Em sua tradução,
Guilherme de Almeida introduziu, no início, a palavra "lamento", para corresponder ao original sanglots (soluços). Para dar o tom de corda grave, ele também optou por violões, e não violinos, como fez Guimaraens. Violino é o correspondente de violon, mas, no contexto, desafina a orquestra. Nesse item, Alphonsus de Guimaraens mostrou-se o mais fiel ao sentido das palavras (por exemplo, usou "soluços"). Em compensação, foi o que menos se aproximou da melodia verlainiana.

Guilherme de Almeida foi o único a manter o ar de desconsolo indicado pelo verso "Qui m'emporte", na última estrofe. Mas é um jogo terrível: ele ganha esse dar-de-ombros e perde a flutuação da folha ao vento.

Talvez eu esteja sendo chato com essas observações quase técnicas. No entanto, o objetivo é mostrar como é difícil chegar a uma tradução que, idealmente, traga para o idioma de destino tanto o significado direto das palavras como outros sentidos e impressões que elas podem carregar a música, por exemplo.

Deixo bem claro que não estou comparando as três traduções com o objetivo de apontar "a melhor". A idéia é, de certo modo, comprovar a lição drummondiana: não há vencedor inequívoco nessa luta com as palavras. Só é possível algum tipo de barganha: para ganhar algo aqui, o tradutor tem de abrir mão de outro detalhe acolá.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado




 

Sinfonia em versos

Paul Verlaine

 



CHANSON D'AUTOMNE

          Paul Verlaine


Les sanglots longs
Des violons
De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure.

Et je m'en vais
Au vent mauvais
Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.





CANÇÃO DO OUTONO

          Tradução: Alphonsus de Guimaraens

Os soluços graves
Dos violinos suaves
Do outono
Ferem a minh'alma
Num langor de calma
E sono.

Sufocado, em ânsia,
Ai! quando à distância
Soa a hora,
Meu peito magoado
Relembra o passado
E chora.

Daqui, dali, pelo
Vento em atropelo
Seguido,
Vou de porta em porta,
Como a folha morta
Batido...




CANÇÃO DO OUTONO

          Tradução: Onestaldo de Pennafort

Os longos sons
dos violões,
pelo outono,
me enchem de dor
e de um langor
de abandono.

E choro, quando
ouço, ofegando,
bater a hora,
lembrando os dias,
e as alegrias
e ais de outrora.

E vou-me ao vento
que, num tormento,
me transporta
de cá pra lá,
como faz à
folha morta.




CANÇÃO DE OUTONO

          Tradução: Guilherme de Almeida

Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.

E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doidos
De outrora.

E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2003

Paul Verlaine, "Chanson d'Automne"
In Poèmes Saturniens (1866)
Traduções:
•  Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)
  Guilherme de Almeida (1890-1969)
•  Onestaldo de Pennafort (1902-1987)