Número 58

São Paulo, quarta-feira, 3 de março de 2004

«O poeta é um mentiroso que sempre diz a verdade.» (Jean Cocteau)
 


Jo
sé Paulo Paes


Caros,

Ensaísta, tradutor, editor e poeta, o paulista José Paulo Paes (1926-1998) desenvolveu sua poesia de modo marcadamente pessoal. Considerava um mestre o modernista Oswald de Andrade — mas não foi apenas um oswaldista; aproximou-se das vanguardas — mas também não se pode enquadrá-lo nas hostes da poesia concreta, da poesia práxis ou qualquer outro movimento do gênero.

Um dos marcos de sua poesia é o olhar irônico e desmistificador. Formalmente, destaca-se nos poemas de Paes a busca da concisão. Poeta magro, como diria Manuel Bandeira, seus poemas quase sempre se resolvem em poucas e curtas linhas, em tom de epigrama. Os outros, ele não hesita em chamá-los de "prosas".

Assim, no conceito de Paes, o texto "Acima de Qualquer Suspeita" seria uma prosa. Nele se encontra a marca da lição oswaldiana, que é talvez um dos calcanhares-de-aquiles do poeta. O ponto vulnerável está no perigo de mergulhar na poema-piada.

Mas Paes vai muito além. Veja-se, por exemplo, os poemas "Hino ao Sono", "Ao Espelho" e "Dúvida". Eles avançam por um território mais fundo. É o espaço da reflexão madura sobre as coisas e sobre o estar-no-mundo. Em "Dúvida", destaque-se a terrível premonição do poeta. Foi escrito horas antes de sua morte.

Não seria justo terminar esta breve notícia sem falar de Paes, o tradutor. Graças ao seu trabalho, o leitor de  língua portuguesa teve a oportunidade de ler poetas dos mais diferentes quadrantes: alemães, gregos, americanos, franceses, ingleses. Também não se pode esquecer o papel de Paes como ensaísta e editor, capaz de redescobrir "gregos e baianos" — expressão que usou como título de um de seus livros de ensaios.

Portanto, se a poesia está morta — atenção, senhores do júri, detetives literários e legisladores de plantão: o poeta José Paulo Paes permanece acima de qualquer suspeita.

Um abraço,

Carlos Machado



                      •o•



MAIS JOSÉ PAULO PAES

Veja mais poemas de José Paulo Paes no boletim
- poesia.net 258

Acima de qualquer suspeita

José Paulo Paes

 


ACIMA
DE QUALQUER SUSPEITA


a poesia está morta

mas juro que não fui eu  

eu até que tentei fazer o melhor que podia para salvá-la

imitei diligentemente augusto dos anjos paulo torres car-
    los  drummond de andrade   manuel bandeira   murilo
    mendes vladimir maiakóvski  joão cabral de melo neto
    paul éluard  oswald de andrade   guillaume apollinaire
    sosígenes costa bertolt brecht augusto de campos

não adiantou nada

em desespero de causa cheguei a imitar  um  certo (ou
    incerto) josé paulo paes poeta de ribeirãozinho estrada
    de ferro araraquarense

porém ribeirãozinho mudou  de nome a estrada  de ferro
    araraquarense foi  extinta  e  josé paulo paes  parece
    nunca ter existido

nem eu
 


HINO AO SONO

sem a pequena morte
de toda noite
como sobreviver à vida
de cada dia?



AO ESPELHO

O que mais me aproveita
em nosso tão freqüente
comércio é a tua
pedagogia de avessos.
Fazem-se em nós defeitos
as virtudes que ensinas:
o brilho de superfície
a profundidade mentirosa
o existir apenas
no reflexo alheio.
No entanto, sem ti
sequer nos saberíamos
o outro de um outro
outro por sua vez
de algum outro, em infinito
corredor de espelhos.
Isso até o último
vazio de toda imagem
espelho de um si mesmo
anterior, posterior
a tudo, isto é, nada.



DÚVIDA

Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver de seu dono.

Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?

                Data da última gravação: 8/10/98, 17h09
                (o poeta faleceu em 9/10/98)

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004

Poemas extraídos de:
•  "Acima de Qualquer Suspeita"
    A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu
   
Duas Cidades, São Paulo, 1988
•  "Hino ao Sono"
    Um por Todos (Poesia Reunida)
   
Ed. Brasiliense, São Paulo, 1986
•  "Ao Espelho"
    Prosas Seguidas de Odes Mínimas
   
Cia. das Letras, São Paulo, 1992
•  "Dúvida"
    Socráticas
   
Cia. das Letras, São Paulo, 2001