Número 128 - Ano 3

São Paulo, quarta-feira, 3 de agosto de 2005

«Não é de palavra/ que o poema se faz,/ mas do que se lavra/ no verbo por trás.» (José Chagas)
 


Paul Éluard


Caros amigos,


O poeta Paul Éluard — ou, no cartório, Eugène-Émile-Paul Grindel —, nasceu no ano de 1895 em Saint-Denis, hoje um subúrbio ao norte de Paris. O "Éluard", adotado depois, era o sobrenome de sua avó materna. Com 16 anos, acometido de tuberculose, foi internado no sanatório de Clavadel, na Suíça, onde teve como colega o nosso Manuel Bandeira. Foi o primeiro encontro de Éluard com um grande artista brasileiro.

Também no sanatório de Clavadel, Éluard conheceu e se apaixonou por uma jovem russa, Helena Diakonova, a quem deu o apelido de Gala. Os dois casaram-se durante a guerra, em 1917. Viveram juntos até 1929. Gala em seguida se casaria com o pintor espanhol Salvador Dalí.

Embora o trabalho de Paul Éluard tenha conhecido várias fases — foram dezenas de títulos publicados entre 1913 e 1952, ano de sua morte —, Paul Éluard tornou-se conhecido principalmente pela sua poesia surrealista. O poeta formou-se num momento extraordinário da vida cultural francesa. Conviveu intensamente com poetas como André Breton e Louis Aragon e uma esfuziante plêiade de artistas plásticos como Picasso, De Chirico, Dalí, Magritte, Miró, Man Ray e Chagall.

Dos nomes citados, alguns, como Aragon, se tornariam companheiros de Éluard no Partido Comunista francês. O poeta aderiu ao partido durante a Resistência, nos anos 40. É dessa época o poema mais conhecido de Paul Éluard, "Liberté", publicado no livro Poésie et Verité (Poesia e Verdade), de 1942. No ano seguinte, aviões da Força Aérea Britânica lançaram milhares de cópias desse texto sobre Paris.

Para que o poema fosse impresso na Inglaterra, foi contrabandeado, desde a França ocupada, pelo pintor pernambucano Cícero Dias. Assim se deu outro encontro de Éluard com um artista brasileiro. A terceira convergência seria com Manuel Bandeira (outra vez) e Carlos Drummond de Andrade. Eles traduziram o poema "Liberté" a quatro mãos, ainda nos anos 40:

Nos meus cadernos de escola
Nesta carteira nas árvores
Nas areias e na neve
Escrevo teu nome


(...)

E ao poder de uma palavra
Recomeço minha vida
Nasci pra te conhecer
E te chamar

Liberdade

(Clique aqui para ler, no site do poesia.net, o poema completo, no original e na versão de Bandeira e Drummond.)

Há ainda outra aproximação entre Éluard e o poeta itabirano. Em 1934, o parisiense deu a público um volume chamado La Rose Publique (A Rosa Pública). Em 1945, Drummond lançou A Rosa do Povo. Vale deixar claro que, afora o parentesco do título, os dois livros não têm nada em comum.



Paul Éluard, por Picasso (1941)



Para o poeta e tradutor José Paulo Paes
(1926-1998), que traduziu uma coletânea de poemas eluardianos para o português, "é ostensivo o primado surrealista" na obra de Éluard. E esse traço perdura, mesmo quando o poeta se propõe a escrever poesia engajada. Está sempre lá o poeta que confunde nas mesmas metáforas o amor pela mulher e o amor pela liberdade.

Os poemas transcritos ao lado foram todos extraídos da coletânea traduzida por José Paulo Paes. Preferi fixar-me em poemas da fase nitidamente surrealista de Éluard, em que se destacam os livros Capitale de la Douleur (Capital da Dor), publicado em 1926, e La Vie Immédiate (A Vida Imediata), de 1932.

Os textos originais vêm da obra completa de Éluard, dois volumes que ultrapassam as 3 mil páginas. Vale destacar o luxo artístico desses livros, que são ilustrados por todos aqueles amigos do poeta: Picasso, Dalí, Man Ray... Delícia de ler e de ver.

Um abraço,


Carlos Machado

 

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A vida imediata

Paul Éluard


Tradução: José Paulo Paes



SEUS OLHOS SEMPRE PUROS

Dias de lentidão, dias de chuva,
Dias de espelhos quebrados e agulhas perdidas,
Dias de pálpebras fechadas ao horizonte
                                                 [ dos mares,
De horas em tudo semelhantes, dias de cativeiro.

Meu espírito que brilhava ainda sobre as folhas
E as flores, meu espírito é desnudo feito o amor,
A aurora que ele esquece o faz baixar a cabeça
E contemplar seu próprio corpo obediente e vão.

Vi, no entanto, os olhos mais belos do mundo,
Deuses de prata que tinham safiras nas mãos,
Deuses verdadeiros, pássaros na terra
E na água, vi-os.

Suas asas são as minhas, nada mais existe
Senão o seu vôo a sacudir minha miséria.
Seu vôo de estrela e luz,
Seu vôo de terra, seu vôo de pedra
Sobre as vagas de suas asas.

Meu pensamento sustido pela vida e pela morte.



LEURS YEUX TOUJOURS PURS

Jours de lenteur, jours de pluie,
Jours de miroirs brisés e d'aiguilles perdues,
Jours de paupières closes a l'horizon des mers,
D'heures toutes semblables, jours de captivité,

Mon esprit qui brillait encore sur les feuilles
E les fleurs, mon esprit est nu comme l'amour,
L'aurore qu'il oublie lui fait baisser la tête
Et contempler son corps obéissant et vain.

Pourtant, j'ai vu les plus beux yeaux du monde,
Dieux d'argent qui tenaient des saphirs dans
                                                 [ leurs mains,
De véritables dieux, des oiseaux dans la terre
E dans l'eau, je les ai vus.

Leus ailes sont les miennes, rien n'existe
Que leur vol qui secoue ma misère,
Leur vol d'étoile e de lumière
Leur vol de terre, leur vol de pierre
Sur les flots de leurs ailes,              

Ma pensée soutenue par la vie e la mort.

 

A NOITE

    Acaricia o horizonte da noite, busca o coração de azeviche que a aurora recobre de carne. Ele te porá nos olhos pensamentos inocentes, chamas, asas e verduras que o sol ainda não inventou.
    Não é a noite que te falta, mas o seu poder.


LA NUIT

    Caresse l'horizon de la nuit, cherche le coeur de jais que l'aube recouvre de chair. Il mettrait dans tes yeux des pensées innocentes, des flammes, des ailes et des verdures que le soleil n'inventa pas.
    Ce n'est pas la nuit qui te manque, mais sa puissance.



               De Capitale de la Douleur (Capital da Dor), 1926
 


*

Teu olhar faz a volta do meu coração,
Uma roda de dança e de doçura,
Auréola do tempo, berço noturno e seguro,
E se não sei mais o que tenho vivido
É porque teus olhos nem sempre me enxergaram.

Folhas do dia e musgo do rocio,
Caniços do vento, sorrisos perfumados,
Asas que cobrem o mundo de luz,
Barcos carregados de céu e mar,
Caçadores de ruídos e fontes de cores.

Aromas nascidos de uma ninhada de auroras
Que sempre jaz sobre a palha dos astros,
Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos puros
E o meu sangue todo flui nos olhares deles.


*

La courbe de tes yeux fait le tour de mon coeur,
Un rond de danse e de douceur
Auréole du temps, berceau nocturne et sûr,
E si je ne sais plus tout ce que j'ai vécu
C'est que tes yeux ne m'ont pas toujours vu.

Feiulles de jour e mousse de rosée,
Roseaux du vent, sourires parfumés,
Ailes couvrant le monde de lumière,
Bateaux chargés du ciel e de la mer,
Chasseurs de bruits et sources des coulers,

Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
E tout mon sang coule das leurs regards.



               De Capitale de la Douleur (Capital da Dor), 1926

 

LEMBRANÇA AFETUOSA

Houve um grande riso triste
O pêndulo parou
Um bicho do mato salvava seus filhotes.

Risos opacos em quadros de agonia
Tantas nudezes transformando em irrisão a
                                              [ sua palidez
Transformando em irrisão
Os olhos virtuosos do farol dos náufragos.


SOUVENIR AFFECTUEUX

Il y eut un grand rire triste
La pendule s'arrêta
Une bête fauve sauvait ses petits.

Rires opaques dans les cadres d'agonie
Autant de nudités tournant en dérision leur pâleur
Tournant en dérision
Les yeux vertueux du phare des naufrages.
 

               De La Vie Immédiate (A Vida Imediata), 1932
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2005

Paul Éluard
• Textos em português:
   In Poemas
   Seleção e tradução de José Paulo Paes
   Ed. Guanabara, Rio de Janeiro, 1988
• Textos originais, em francês:
   In Œuvres Complètes
   Éditions Gallimard, Paris, 1968