Número 166 - Ano 4

São Paulo, quarta-feira, 7 de junho de 2006

«Nada se edifica sobre a pedra, tudo sobre a areia. Mas nosso dever é edificar como se a areia fosse pedra.» (Borges)
 


Ascenso Ferreira


Caros,


O modernista pernambucano Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira nasceu em Palmares-PE, em 1895. Começou a colaborar em jornais e a publicar os primeiros versos ainda em Palmares, no ano de 1912. Em 1922, passou a escrever para jornais recifenses e, seis anos depois, conheceu Mário de Andrade e, logo depois, outros intelectuais paulistas, como Cassiano Ricardo, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti.

Catimbó, o livro de estréia de Ascenso Ferreira,  data de 1927. Saiu com ilustrações do também poeta Joaquim Cardozo. Nesse mesmo ano, Manuel Bandeira vai a Recife e estreita contato com Ascenso. Suas obras poéticas seguintes são Cana Caiana (1939); Poemas 1922/1951 (1951); Catimbó e Outros Poemas (1963); Poemas: Catimbó, Cana Caiana e Xenhenhém (1981); e Eu Voltarei ao Sol da Primavera (1985). Ascenso Ferreira morreu em 1965, às vésperas de completar 70 anos.

Modernista de primeira hora, o poeta palmarino alinha-se entre os escritores que empreenderam, sob a bandeira da Semana de 22, a descoberta do Brasil. A poesia de Ascenso Ferreiro é marcada pela presença de personagens do povo, costumes e festas populares.

Sobre o trabalho de Ascenso escreveu Manuel Bandeira: "Os poemas de Ascenso são verdadeiras rapsódias do Nordeste, nas quais se espelha amoravelmente a alma ora brincalhona, ora pungentemente nostálgica das populações dos engenhos e do sertão. Ascenso identificou-se de corpo e coração com o homem do povo de sua terra (...)" (In Ascenso Ferreira, Poemas, 1951)

A poesia de Ascenso também ganhou espaço na música popular. "Trem de Alagoas" foi musicado por Heitor Villa-Lobos. O cantor e compositor pernambucano Alceu Valença adaptou esse mesmo poema, em 1975, na composição "Vou Danado pra Catende". Essa música encontra-se em vários discos do compositor, entre os quais a coletânea Novo Millennium, de 2005. Outro poema musicado por Valença foi "Maracatu", cujos versos, à simples leitura, trazem à mente o ritmo afro-brasileiro que lhe dá nome. A música saiu originalmente no LP Cavalo de Pau, de 1982.

O terceiro poema reproduzido ao lado é certamente o mais conhecido do poeta. Trata-se do macunaímico "Filosofia", que muita gente pelo Brasil repete sem ter a menor idéia de quem o escreveu.

Assim como os outros dois, é um texto bem ao estilo da poesia proposta pelos modernistas de 1922.

U
m fato curioso sobre Ascenso Ferreira. O nome original do poeta era Aníbal Torres. Mas, aos 22 anos de idade, ele decidiu mudar o nome para Ascenso Carneiro Gonçalves Ferreira,  tomando o "Carneiro" do pai (Antonio Carneiro Torres) e da mãe (Maria Luiza Gonçalves Ferreira) os outros dois sobrenomes. Ascenso era o nome do avô materno.

Apenas a título de curiosidade, fiz uma pesquisa nas principais livrarias do país e não encontrei nenhum livro de Ascenso Ferreira. Lamentável.


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



 

                      •o•


A VOZ DO POETA

Um presente para vocês. Para ouvir o poeta Ascenso Ferreira lendo o poema "Trem de Alagoas", clique aqui, ou no alto-falante ao lado. O audioclipe foi extraído do livro/CD Voz Poética, que reúne poetas pernambucanos como Ascenso Ferreira, João Cabral de Melo Neto e Manuel Bandeira lendo poemas. (Voz Poética. Cia. Editora de Pernambuco / Universidade Federal de Pernambuco. Organização: Paulo Bruscky. Recife, 1997. A gravação original de Ascenso Ferreira é de 1958.)

É interessante também reler o poema "Trem de Ferro", de Manuel Bandeira, publicado em 1936 no volume Estrela da Manhã. Assim como o "Trem de Alagoas", "Trem de Ferro" foi  musicado por vários compositores, inclusive Antonio Carlos Jobim. Confira o CD Antonio Brasileiro, de Jobim (Sony Music, 1995).

[Os dois parágrafos acima foram adicionados após a circulação do boletim.]

 

Cana caiana

Ascenso Ferreira

 


TREM DE ALAGOAS



O sino bate,
o condutor apita o apito,
Solta o trem de ferro um grito,
põe-se logo a caminhar…

          — Vou danado pra Catende,
          vou danado pra Catende,
          vou danado pra Catende
          com vontade de chegar...

Mergulham mocambos,
nos mangues molhados,
moleques, mulatos,
vêm vê-lo passar.

          — Adeus!
          — Adeus!

Mangueiras, coqueiros,
cajueiros em flor,
cajueiros com frutos
já bons de chupar...

          — Adeus morena do cabelo cacheado!

Mangabas maduras,
mamões amarelos,
mamões amarelos,
que amostram molengos
as mamas macias
pra a gente mamar

          — Vou danado pra Catende,
          vou danado pra Catende,
          vou danado pra Catende
          com vontade de chegar...

Na boca da mata
há furnas incríveis
que em coisas terríveis
nos fazem pensar:

          — Ali dorme o Pai-da-Mata!
          — Ali é a casa das caiporas!

          — Vou danado pra Catende,
          vou danado pra Catende
          vou danado pra Catende
          com vontade de chegar...

Meu Deus! Já deixamos
a praia tão longe…
No entanto avistamos
bem perto outro mar...

Danou-se! Se move,
se arqueia, faz onda...
Que nada! É um partido
já bom de cortar...

          — Vou danado pra Catende,
          vou danado pra Catende
          vou danado pra Catende
          com vontade de chegar...

Cana caiana,
cana roxa,
cana fita,
cada qual a mais bonita,
todas boas de chupar...

    — Adeus morena do cabelo cacheado!

          — Ali dorme o Pai-da-Mata!
          — Ali é a casa das caiporas!

          — Vou danado pra Catende,
          vou danado pra Catende
          vou danado pra Catende
          com vontade de chegar...



FILOSOFIA

                   A José Pereira de Araújo
 – "Doutorzinho de Escada"

Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!

Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!




MARACATU

Zabumba de bombos,
Estouro de bombas,
Batuques de ingonos,
Cantigas de banzo,
Rangir de ganzás...

          — Luanda, Luanda, onde estás?
          Luanda, Luanda, onde estás?

As luas crescentes
De espelhos luzentes,
Colares e pentes,
Queixares e dentes
De maracajás...

          — Luanda, Luanda, onde estás?
          Luanda, Luanda, onde estás?

A balsa do rio
Cai no corrupio
Faz passo macio,
Mas toma desvio
Que nunca sonhou...

          — Luanda, Luanda, onde estou?
          Luanda, Luanda, onde estou?
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2006

Ascenso Ferreira
Poemas: Catimbó, Cana Caiana, Xenhenhém
Nordestal, Recife, 1981