Número 232 - Ano 5

São Paulo, quarta-feira, 24 de março de 2007 

«Para ver um mundo num grão de areia/E um céu numa flor silvestre,/Segure o infinito na palma da mão/E a eternidade numa hora.» (Blake) *
 


Júlio Machado


Caros,

Mineiro de Pouso Alegre, nascido no ano da graça de 1975, Júlio César Machado de Paula é mestre em letras pela USP e atualmente desenvolve pesquisa de doutorado na UFMG. Poeta e contista, publicou O Itinerário dos Óleos, livro de poemas premiado no Festival Xerox/Livro Aberto em 1997.

Com Mimnas, volume inédito, recebeu o Prêmio Nascente, organizado pela USP e Editora Abril, edição de 2002. Júlio Machado tem outros trabalhos premiados e também desenvolve experiência autoral na área de teatro. Os poemas mostrados ao lado são todos inéditos em livro.

Profundamente arraigada ao solo mineiro, a poesia de Júlio Machado tem a marca das meditativas paisagens das Minas Gerais. É o que se pode intuir de versos como "O viés ameno de um vento / o obrar em esculturas de esterco / seco, em alto e baixo / relevo". Ou, então, a enumeração interiorana expressa em: "folhas de lírios, /
fios de larvas, / achas de lenha, /
pedras, rios".

Outra imagem que fecha mineiramente o poema "Lassidão" é esse  sol que, ao fim da tarde, se enterra como olho de boi na paisagem. Na verdade, aqui não estamos mais nos domínios da geografia, mas num estado de espírito, vasto e contemplativo. "Minas é dentro e fundo", avisou  Drummond. Talvez também seja esse o sentimento de Júlio Machado.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado




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LANÇAMENTO


Luiz Ruffato
- De mim já nem se lembra

O escritor Luiz Ruffato lança hoje, quarta-feira, a narrativa De mim já nem se lembra, que sai pela Editora Moderna.

Data: 24/10/2007
Hora: A partir das 19h00
Local: Centro Cultural Diadema
           Teatro Clara Nunes
           Rua Graciosa, 300
           Centro - Diadema - SP
 

Olho de boi na paisagem

Júlio Machado

 



ÂNGELUS

Sob o sono dos sinos, silente,
o caminho velho,
de ferro entre os telheiros.

Telégrafos telégrafos telégrafos
de interrompidos fios, hirtos
restos de renda, sem bilros.

Moleza discreta de insetos,
frios no chão de areia
ou sob o oco da madeira:
dormentes, urupês, orelhas.

Apenas, leves, borboletas,
amarelo sobre a ausência de cabeças,
o prisco rasgo de céu azul,
sem sutilezas.

O viés ameno de um vento,
o obrar em esculturas de esterco
seco, em alto e baixo
relevo.

Muro branco de azulejos,
pele de reboco entre avenca
e fendas, resguardo do que foi,
se já não era. Heras.
Heras.

Bocejo ao longe,
parco fôlego em carvão e bronze
do último trem, que não viera.

Um resto de banco, o chicote, o colchete,
bota e esporas do estafeta,
cuja boca, que hoje escarra,
já não beija.

E um medo em mim,
que vejo, de que a vida
isso mesmo (e só)
seja.



LASSIDÃO

A couve ao sol,
o boi ao chão,
dormem o sono
lento (o inverno)
que dormiriam
folhas de lírios,
fios de larvas,
achas de lenha,
pedras, rios.

(E a couve mais,
que presa ao chão,
como nasceu,
pouco se move
em benefício
de seu verdume,
seu viço).

Mas sobre a relva,
em meio à tarde,
ou precipício
do sol, sem mais,
quando se enterra,
o olho do boi,
que se revela,
rumina
em lenta espera
o olho da cancela,
que para fora
se abre e não mais
se fecha.



ESTRABISMO

Chega à beira do poço;
mede nele o intervalo
que vai de um olho a outro.

Mede nesse intervalo
o eixo torto que faz
do esquerdo, o direito.

Vê como esse esquerdo
reconhece sem medo
o que em Narciso é feio.

Repara no direito
a lágrima em coalho,
véu de leite tão velho.

Faz do suco da lágrima
a beleza que turva,
ledo, o engano da água.

Esquece então que és caolho:
Faz do intervalo um elo,
da água turva, um espelho.

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2007

Júlio Machado
•  "Estrabismo" (inédito)
•  "Ângelus": do livro inédito Autos de Devassa
•  "Lassidão": do livro inédito Autos de Devassa
    (Publicado em Todas as Letras, n. 5, revista de língua e
    literatura da Universidade Mackenzie. São Paulo, 2003
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* William Blake (1757-1827), "Augúrios da Inocência"