Número 402 - Ano 16

São Paulo, quarta-feira, 4 de julho de 2018

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«Assim é o amor: mortal e navegável.» (Eugénio de Andrade) *

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Sophia de Mello Breyner Andresen
Sophia de Mello Breyner Andresen



Amigas e amigos,

Nesta quinzena, a foto no alto desta coluna é de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), um dos nomes mais destacados da poesia em Portugal. Natural da cidade do Porto, Sophia foi a primeira mulher portuguesa a receber, em 1999, o Prêmio Camões — a principal láurea literária do idioma.

Descendente de dinamarqueses pelo lado do pai e de nobres portugueses no lado materno, Sophia foi criada num ambiente da velha aristocracia lusa. Na Universidade de Lisboa, onde estudou filologia clássica (sem concluir), participou de movimentos universitários de católicos progressistas que se opunham à ditadura de Salazar. Após a Revolução dos Cravos, de 1974, que pôs fim ao salazarismo, elegeu-se em 1975 para a Assembleia Constituinte numa lista do Partido Socialista.

Além de ter escrito cerca de duas dezenas de livros em versos, produziu também contos para adultos, contos infantis, peças de teatro e traduções. Admiradora da literatura clássica, sempre usa em seus poemas nomes de lugares e pessoas na grafia antiga, tais como Delphos e Eurydice. Outro traço fundamental de sua poesia é a criação de uma rica mitologia em torno do mar.

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Os quatro primeiros poemas da minisseleta ao lado contêm claros sinais dessa mitologia. O primeiro deles, “[As Ondas Quebravam Uma a Uma]” — texto sem título mas, como sempre, tratado aqui pelo primeiro verso entre colchetes — introduz itens marinhos recorrentes na imaginação da poeta como ondas, espumas e areias.

“Espera-me” é o poema seguinte. Nele surge outro aspecto dessa mitologia. Como uma repetição lírica das antigas navegações portuguesas, temos aí o marinheiro que parte, deixa amores em terra e jura que um dia há de regressar.

Combinada com a influência clássica, a fixação nas coisas marinhas também está presente no “Soneto de Eurydice”. Neste poema de amor e perda, Sophia retorna ao mito grego de Orfeu e Eurídice. Poeta e músico, Orfeu casou-se com a ninfa Eurídice, que morreu após a picada de uma serpente.

Triste, Orfeu foi até o mundo dos mortos para tentar trazer a amada de volta e acabou também morto pelos dardos de um grupo de mulheres selvagens, as mênades. No soneto de Sophia, Orfeu está no mar e Eurydice o espera. Inutilmente.

O último poema da série marinha é o dístico “Inscrição”. Nele, como um lema, a poeta assume sua infinita paixão pelo oceano. Esse sentimento expresso pela poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen é reconhecidamente tão intenso que aqui no Brasil a cantora baiana Maria Bethânia chegou a gravar um álbum musical chamado Mar de Sophia (2006), em homenagem à artista portuguesa. Nesse disco, Bethânia apresenta versos marinhos de Sophia entremeados com canções populares brasileiras também ligadas ao mar.

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Os três próximos poemas são marcados por outra faceta da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen. Trata-se de sua persona política e democrática. Em “Data” ela descreve o que se supõe seja o ambiente opressivo criado pela ditadura salazarista, que sufocou a terra portuguesa por mais de 40 anos. Mas os regimes liberticidas são parecidos em toda parte: “Tempo de solidão e de incerteza / Tempo de medo e tempo de traição / Tempo de injustiça e de vileza / Tempo de negação”. Medo, traição, injustiça, vileza. São palavras aplicáveis até mesmo no Brasil de hoje, com a Constituição lançada ao lixo.

O poema “Catarina Eufémia” faz referência a uma trabalhadora rural portuguesa da região do Alentejo assassinada a tiros por um policial durante uma discussão por melhoria salarial. Isso foi em 1954, em plena ditadura. Catarina Eufémia, analfabeta, tinha 26 anos e três filhos, o mais novo de apenas oito meses. Ela transformou-se num símbolo da luta contra a ditadura. Diz a poeta: “E a terra bebeu um sangue duas vezes puro // Porque eras a mulher e não somente a fémea / Eras a inocência frontal que não recua”.

O último texto da coluna ao lado é “Nestes Últimos Tempos”, um poema escancaradamente político. O momento, conforme a data adicionada ao pé do texto, é julho de 1976, no contexto da redefinição do país recém-saído do fascismo salazarista. A autora admite eros da esquerda. “Caiu em desmandos confusões praticou injustiças”. “Mas que diremos diremos da meticulusa expedita / Degradação da vida que a direita pratica?”.

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Sophia de Mello Breyner Andresen já esteve aqui no poesia.net n. 88, em setembro de 2004, pouco após o seu falecimento. Salvo engano, não havia até agora livros dela publicados no Brasil. Este boletim foi motivado pelo lançamento de Coral e Outros Poemas (Cia. das Letras, 2018), com seleção e apresentação do poeta carioca Eucanaã Ferraz.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Sobre as ondas do mar

• Sophia de Mello Breyner Andresen


              



Jane Eccles - Girl with a mask
Jane Eccles, pintora inglesa, Moça com máscara


[AS ONDAS QUEBRAVAM UMA A UMA]

As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.


ESPERA-ME

Nas praias que são o rosto branco das amadas mortas
Deixarei que o teu nome se perca repetido

Mas espera-me:
Pois por mais longos que sejam os caminhos
Eu regresso.



Jane Eccles - The homecoming
Jane Eccles, Ida para casa


SONETO DE EURYDICE

Eurydice perdida que no cheiro
E nas vozes do mar procura Orpheu:
Ausência que povoa terra e céu
E cobre de silêncio o mundo inteiro.

Assim bebi manhãs de nevoeiro
E deixei de estar viva e de ser eu
Em procura de um rosto que era o meu
O meu rosto secreto e verdadeiro.

Porém nem nas marés nem na miragem
Eu te encontrei. Erguia-se somente
O rosto liso e puro da paisagem.

E devagar tornei-me transparente
Como morta nascida à tua imagem
E no mundo perdida esterilmente.


INSCRIÇÃO

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar



Jane Eccles - The card players
Jane Eccles, Os jogadores de cartas


DATA

   (à maneira d'Eustache Deschamps)


Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo que mata quem o denuncia
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rastro
Tempo de ameaça



Jane Eccles - To say goodbye
Jane Eccles, Dizer adeus


CATARINA EUFÉMIA

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras a mulher e não somente a fémea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
E a busca da justiça continua



Jane Eccles - The house of cards
Jane Eccles, A casa de cartas


NESTES ÚLTIMOS TEMPOS

Nestes últimos tempos é certo a esquerda fez erros
Caiu em desmandos confusões praticou injustiças

Mas que diremos da longa tenebrosa e perita
Degradação das coisas que a direita pratica?

Que diremos do lixo do seu luxo — de seu
Viscoso gozo da nata da vida — que diremos
De sua feroz ganância e fria possessão?

Que diremos de sua sábia e tácita injustiça
Que diremos de seus conluios e negócios
E do utilitário uso dos seus ócios?

Que diremos de suas máscaras álibis e pretextos
De suas fintas labirintos e contextos?

Nestes últimos tempos é certo a esquerda muita vez
Desfigurou as linhas do seu rosto

Mas que diremos da meticulosa expedita
Degradação da vida que a direita pratica?

   Julho de 1976




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



• Sophia de Mello Breyner Andresen
   in Coral e Outros Poemas
   Seleção e apresentação de Eucanaã Ferraz
   Cia. das Letras, São Paulo, 2018
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* Eugénio de Andrade, “O Amor”, in Obscuro Domínio (1971)
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* Imagens: obras de Jane Eccles, pintora inglesa