Número 414 - Ano 17

São Paulo, quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

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«Poesia é sempre assim: / Uma alquimia de fetos, / Um lento porejar / De venenos sob a pele.» (Myriam Fraga) *

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Iracema Macedo
Iracema Macedo



Amigas e amigos,

Uma semana atrás, no dia 12/12, este boletim completou 16 anos em circulação. No ano passado, na época dos 15 anos, organizei edições festivas, das quais participaram diretamente mais de uma centena de leitores. Desta vez é diferente. Dezesseis, claro, não é um número tão significativo. Depois, os tempos estão mais para preocupação do que para festas. De todo modo, fica o registro do aniversário.

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É importante destacar que, como sempre fizemos, este é o último boletim do ano. O poesia.net entra em recesso de verão. Esperamos voltar com mais poesia em fevereiro de 2019.

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Para esta edição, decidi revisitar a obra da poeta e professora universitária Iracema Macedo (Natal-RN, 1970), autora que já esteve aqui em duas outras ocasiões: no poesia.net número 321, de outubro/2014, e no número 193, de dezembro/2006.

O que me faz retornar a Iracema Macedo é uma observação pessoal: penso que a poesia dela está entre as que mais representam o universo feminino nestes primeiros anos do século XXI. Os versos de Iracema incorporam múltiplas histórias de mulheres, com suas lutas e dúvidas, conquistas e desalentos.

São de fato numerosas as figuras femininas que visitam seus poemas, desde nomes da mitologia grega e personagens históricas até poessoas completamente desconhecidas. É como se, com essa população, Iracema quisesse abranger todas as mulheres do mundo.

Poemas que destacam outras mulheres podem ser encontrados nos boletins anteriores. Ali aparecem, por exemplo, a conhecida Dona Chica, aquela que se admirou com o berro do gato na cantiga infantil. Também lá estão a arquiteta-paisagista brasileira Lota de Macedo Soares; Clara, a santa católica; e Eurídice, a amada do poeta Orfeu na mitologia grega. Esta última personagem, aliás, dá título ao livro Invenção de Eurídice (2004), no qual Iracema Macedo inverte o gênero da epopeia de Jorge de Lima, Invenção de Orfeu.

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Passemos à seleção deste boletim. No primeiro poema, “Luíza”, apresenta-se uma mulher que se autodefine como uma figura “imprecisa”: “não tenho fórmula / não me equaciono / não tenho lógica”. E, para deixar seu pretendente mais tonto, Luíza afirma: “não tenho siso nem senso / e ando vestida de vento”.

Outra figura surpreendente e rebelde vem na “Canção da Mulher que Virou Barco”. Trata-se de uma criatura que se reconhece como trangressora e que, transformada em barco, vale-se do amante como um farol que guia sua navegação jorrando luz sobre seus seios.

O poema “Carpe Diem”, como anuncia o próprio título, constitui um convite a aproveitar a convivência amorosa, no aqui e agora, sem grandes devaneios: “Não precisa ser um longa metragem / de ser um curta / sem nenhuma tempestade”.

Na bela “Canção de Amor para uma Moça Judia”, alguém se apaixona pela mulher, Rosinha Palatnik, que conhece apenas pelo retrato dela mostrado num túmulo, onde também lê a informação de que ela morreu em 1936, aos 20 anos de idade.

O último poema da seleção é “Beatriz”, mulher que espera incansavelmente o amado que não retorna. Ou será que retorna?


Um abraço, e até fevereiro.

Carlos Machado


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ARTEMISIA GENTILESCHI

Para fazer o título deste boletim “rimar” ainda melhor com as ricas personagens de Iracema Macedo, decidi ilustrar a página com quadros da pintora barroca italiana Artemisia Gentileschi (1593-1656), a primeira mulher a se tornar membro da Academia de Belas Artes de Florença.

A vida de Artemisia foi marcada por um evento traumático. Seu pai contratara o paisagista Agostino Tassi para lhe dar aulas de pintura. Tassi violentou a aluna e prometeu casar-se com ela, mas desistiu da promessa. Artemisia prestou queixa do estupro. Para comprovar a acusação, ela teve de se submeter a exame ginecológico e foi torturada. Tassi acabou condenado a um ano de prisão, mas não cumpriu a pena, pois o juiz lhe deu a opção de ir para o exílio.

O episódio marcou a vida e a arte de Artemisia, que passou a pintar mulheres fortes e guerreiras, em geral extraídas da Bíblia. Em seu primeiro trabalho, ela pinta o episódio bíblico Susana e os Anciões (1610) — veja ao lado. Conforme a Bíblia católica, Susana, uma esposa judia, é chantageada por velhos que a espionam enquanto se banha no jardim. Os anciões ameaçam denunciar falsamente que a moça vem se encontrando com um amante, caso ela não concorde em entregar-se a eles.

Outros quadros de Artemisia vão mais longe ainda. Na tela Jael e Sísera, mostrada ao lado, ela apresenta o episódio bíblico no qual uma mulher israelita chamada Jael (ou Yael) mata Sísera, chefe de exército inimigo, cravando-lhe uma estaca na cabeça, com um martelo, enquanto ele dorme. Há ainda telas de Artemisia chamadas Judite Decapitando Holofernes; e Salomé com a Cabeça de João Batista. Com essas obras, a artista lembra a todo momento — simbolicamente, e com a ajuda da Bíblia — a força do chamado sexo frágil.

Muitos consideram Artemisia Gentileschi a primeira protofeminista da História.


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CANÇÃO QUE VIROU MÚSICA

Em alguns casos, reenvio o boletim quando cometo um erro que demanda correção imediata. Desta vez acontece o contrário: a versão 2 deste boletim se deve a um acerto. Não meu, mas de um grupo de artistas de Currais Novos-RN e da própria poeta Iracema Macedo.

Em resposta à primeira versão do boletim, a poeta Iara Maria Carvalho, de Currais Novos, me enviou uma mensagem informando que o compositor Wescley Gama musicara o poema “Canção de amor para uma moça judia”, citado no boletim.

Nada melhor que ampliar e adaptar o boletim para uma versão 2, agora incluindo música e vídeo. No clipe, com cenas filmadas na Necrópole do Alecrim, em Natal-RN, as vozes são da cantora Paula Érica e de Wescley Gama, integrantes — assim como a poeta Iracema Macedo — do grupo de ação cultural Casarão de Poesia, de Currais Novos.

Um grande abraço e obrigado aos amigos potiguares.


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Todas as mulheres do mundo

• Iracema Macedo 


              



Artemisia Gentileschi - Selfportrait as a martyr-c1615
Artemisia Gentileschi, italiana, Autorretrato como mártir (c. 1615)


LUÍZA

Não sou precisa
nem sólida ou líquida
Sou matéria que hesita
entre muitas feridas
Não sou precisa
não tenho fórmula
não me equaciono
não tenho lógica
Não sou precisa,
meu caro,
lamento
não tenho siso nem senso
e ando vestida de vento

   De Lance de Dardos (2000)



Artemisia Gentileschi - Susana e os anciões-1610
Artemisia Gentileschi, Susana e os anciões (1610)


CANÇÃO DA MULHER QUE VIROU BARCO

Transgrido tantas leis
que já nem sinto
Entro em um mar de águas-vivas
que ardem, ardem, ardem
mas nem doem
parece que me alisam
com seus pelos frágeis

Cada vez me afoito mais
e não encontro margens
e não encontro porto
só encontro tempestades
onde atracar

Nesse excesso de sal
nesse mar escuro em que me perco
me iluminas com o teu desejo
me serves de farol quando anoiteço
e me guias me guias me guias
jorrando tua luz
sobre meus seios

   De Lance de Dardos (2000)



Artemisia Gentileschi - Jael e Sísara-1620-detalhe
Artemisia Gentileschi, Jael e Sísera (detalhe), 1620


CARPE DIEM

Não precisa ser um longa metragem
pode ser um curta
sem nenhuma tempestade
há de ser suave
romance, amizade
ou affair
sem eternidades
Beijo, gozo, toque
um mistério a mais
ou viagem
Não precisa ser nenhum milagre
pode ser só um riso a dois
à tarde

   De Lance de Dardos (2000)



Artemisia Gentileschi - A conversão de Madalena-1616-17
Artemisia Gentileschi, A conversão de Madalena (1616-17)


BEATRIZ

Como se me preparasse para a festa
te aguardo
Não há lugar nem dia para nosso encontro
feito só de ilusão e maresia

Te espero e me apareces de súbito
retornando de uma viagem
trazendo todos os gozos
de que me poupaste

Minha ternura se abre para tocar-te
Janela aberta às aragens
Um jeito só meu de dizer sim

E há tanto riso na tua miragem
Tanta beleza sitiando a tarde
que até parece que voltaste de verdade

   De Invenção de Eurídice (2004)



Artemisia Gentileschi - Cleopatra-1639-40
Artemisia Gentileschi, Cleópatra (1639-40)


CANÇÃO DE AMOR PARA UMA MOÇA JUDIA

Conheço Rosinha Palatnik
por um único retrato de louça
que vive no cemitério
entre os túmulos judeus
Morreu em 1936 aos vinte anos de idade
e há sobre a lápide letras em hebraico
que não decifro

Talvez suicídio, talvez outra sorte
De qual morte morreu essa moça judia
que não morre?
De qual vida ela vive naquele retrato
de louça que mais parece de carne
E por que vem assim
semear-me no meio da tarde?

O que te devo, mulher, o que queres?
Viveste na minha cidade
e queres ainda viver por mim, por meus olhos
por minha carne de homem
boca   lábios   ouvidos
e queres ser uma música

Te vejo em muitos lugares
sempre dentro do retrato
presa e viva, branca e morta
Que queres, mulher,
tanto tempo depois do tempo
em que houve calor para ti no mundo?
Que queres na tua janela de vidro
com o teu corpo de cinzas?

Não me faças desejar-te assim
Tu que não tens mais carne
para o meu desejo
nem sequer seda de vestido que eu toque
nenhum corpo nem seios
só o retrato frio na lápide
Que amor terrível é este que me trazes?

   De Lance de Dardos (2000)



Canção de amor para uma moça judia, na interpretação de Paula Érica
e Wescley Gama. Este último transformou em canção musical o poema
de Iracema Macedo (Veja a última nota na coluna de comentários)




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2018



Iracema Macedo
• “Luíza”, “Canção da Mulher que Virou Barco”, “Carpe Diem”,
   “Cação de Amor para Uma Moça Judia”
   in Lance de Dardos
   Edições Estúdio 53, Rio de Janeiro, 2000
• “Beatriz”
   in Invenção de Eurídice
   Editora da Palavra, Rio de Janeiro, 2004
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* Myriam Fraga, “Arte Poética”, in Femina (1996)
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* Imagens: obras da pintora italiana Artemisia Gentileschi (1593-1656).
Veja mais na nota “Artemisia Gentileschi”, na coluna de comentários.