Número 424 - Ano 17

São Paulo, quarta-feira, 5 de junho de 2019

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«Todos estão / despidos, ninguém está a salvo.» (Marianne Moore) *

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16 inicios
16 Poetas



Amigas e amigos,

“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”
 • Franz Kafka
 A Metamorfose (1915)
 Trad. Modesto Carone

“Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira.”
 • Leon Tolstoi
Anna Karenina (1873)
 Trad. Rubens Figueiredo

“Era no tempo do rei.”
 • Manuel Antônio de
 Almeida, Memórias de
 um Sargento de Milícias

 (1854)


Já tive a oportunidade de discutir com amigos sobre as frases de abertura de certos romances e novelas. Elas parecem ter o poder de nos empurrar para dentro do texto. Isso ocorre, por exemplo, com as aberturas citadas acima: A Metamorfose, de Franz Kafka; Anna Karenina, de Leon Tolstoi; e ainda as cinco primeiras palavras do brasileiríssimo Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio de Almeida. [É salutar lembrar que as mi­lícias no tempo do rei nada têm a ver com essas que hoje dão as cartas no Brasil.]

Creio que também há poemas cujos primeiros versos praticamente nos forçam a ler o texto inteiro. E mais: em alguns casos, essas linhas iniciais, com o tempo, se descolam das restantes, assumem voo próprio e quase passam a valer como poemas independentes. É o caso dos refrões drummondianos “E agora, José?” e “No meio do caminho tinha uma pedra”.

Em meu ponto de vista, algo parecido ocorre na música popular. Há canções em que a primeira parte, letra e música, oferece algo empolgante, arrebatador. Na segunda parte, o encanto se dilui e a empolgação encolhe um pouco. Não vou citar nenhum exemplo, mas cada um de nós, com certeza, conhece alguma canção assim. Aquela que, num espetáculo, todos cantam juntos a parte inicial e, depois, o coro perde a força, porque poucos sabem de cor aquele trecho da letra ou a correspondente melodia.

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Este boletim é, portanto, sobre inícios arrebatadores de poemas. Faço ao lado uma lista de trechos iniciais, colhidos a esmo na lembrança. Neste caso, buscar na memória parece ser o melhor método. Mas, naturalmente, é a minha memória. Se você se lembrar de outras aberturas de poemas nos mesmos moldes, compartilhe-as. Será interessante reunir aqui outros inícios arrebatadores, incluindo talvez poetas novos que ainda não tive o prazer de conhecer. Imagino também que você pode considerar vários dos meus exemplos nem tão impactantes como acredito que sejam.

Todos os autores selecionados já apareceram em algum boletim. Ao contrário do que sempre faço, não vou fazer comentários sobre os poemas — inclusive porque não são poemas — são apenas introduções. Se por acaso você não conhece algum/a dos autores, saiba algo sobre ele/a recorrendo aos links abaixo, que remetem aos boletins.

Para facilitar, listo os poetas em ordem alfabética, e não na sequência em que aparecem à direita, na área dos poemas:

• Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)
• Augusto dos Anjos (1884-1914)
• Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
• Carlos Pena Filho (1929-1960)
• Cecília Meireles (1901-1964)
• Federico García Lorca (1898-1936)
• Fernando Pessoa (1888-1935)
• Jorge de Lima (1893-1953)
• José Paulo Paes (1926-1998)
• Luís Vaz de Camões (1524?-1580)
• Mario Quintana (1906-1994)
• Murilo Mendes (1901-1975)
• Roberval Pereyr (1953-)
• Sá de Miranda (1481-1558)
• Sosígenes Costa (1901-1968)
• Wislawa Szymborska (1923-2012)


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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A força do início


• Augusto dos Anjos  • Carlos Drummond de Andrade
• Fernando Pessoa  • Federico García Lorca
• Alphonsus de Guimaraens  • Mario Quintana
• Sosígenes Costa  • Luís Vaz de Camões
• Jorge de Lima  • Wislawa Szymborska
• Cecília Meireles  • Sá de Miranda  • José Paulo Paes
• Murilo Mendes  • Carlos Pena Filho  • Roberval Pereyr


              



Faiza Maghni  - Nuages roses
Faiza Maghni, pintora argelina, Nuvens cor-de-rosa


• Augusto dos Anjos

AS CISMAS DO DESTINO

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu indo em direção à Casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!


• Carlos Drummond de Andrade

POEMA DE SETE FACES

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

NO MEIO DO CAMINHO

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

HOTEL TOFFOLO

E vieram dizer-nos que não havia jantar.
Como se não houvesse outras fomes
e outros alimentos.




Faiza Maghni  -Cafetan
Faiza Maghni, Cafetã


• Fernando Pessoa

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.


• Federico García Lorca

ROMANCEIRO GITANO

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco livre no mar
e o cavalo na montanha.

    Tradução de José Carlos Lisboa


ROMANCERO GITANO

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.


A CAPTURA E A MORTE

Às cinco horas da tarde.
Eram cinco da tarde em ponto.
Um menino trouxe o lençol branco
às cinco horas da tarde.

   Tradução de Oscar Mendes


LA COGIDA Y LA MUERTE

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana

a las cinco de la tarde.




Faiza Maghni  - Deux soeurs
Faiza Maghni, Duas irmãs


• Alphonsus de Guimaraens

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.


• Mario Quintana

XVII

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...


• Sosígenes Costa

PAVÃO VERMELHO

Ora, a alegria, este pavão vermelho,
está morando em meu quintal agora.
Vem pousar como um sol em meu joelho
quando é estridente em meu quintal a aurora.




Faiza Maghni  - Le chat
Faiza Maghni, O gato


• Luís Vaz de Camões

SETE ANOS DE PASTOR

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prêmio pretendia.

AMOR É UM FOGO...

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.


• Jorge de Lima

[AQUI É O FIM DO MUNDO]

Aqui é o fim do mundo, aqui é o fim do mundo
em que até aves vêm cantar para encerrá-lo.
Em cada poço, dorme um cadáver, no fundo,
e nos vastos areais — ossadas de cavalo.

   Invenção de Orfeu, Canto Sexto, poema I


• Wislawa Szymborska

O TERRORISTA, ELE OBSERVA

A bomba explodirá no bar às treze e vinte.
Agora são apenas treze e dezesseis.
Alguns terão ainda tempo para entrar;
alguns, para sair.

   Tradução de Nelson Ascher




Faiza Maghni  - Soleil
Faiza Maghni, Sol


• Cecília Meireles

MOTIVO

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


• Sá de Miranda

COMIGO ME DESAVIM

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.


• José Paulo Paes

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA

a poesia está morta

mas juro que não fui eu





Faiza Maghni  - Yasmine
Faiza Maghni, Yasmine


• Murilo Mendes

JANDIRA

O mundo começava nos seios de Jandira.


• Carlos Pena Filho

TESTAMENTO DO HOMEM SENSATO

Quando eu morrer, não faças disparates
nem fiques a pensar: “Ele era assim...”
Mas senta-te num banco de jardim,
calmamente comendo chocolates.


• Roberval Pereyr

DECISÃO

Se me buscarem, não vou.
Se me ofertarem, não quero.

Se me disserem quem sou,
direi que não sou, e espero.





poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2019



• Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)
   in Os Melhores Poemas de Alphonsus de Guimaraens
   Seleção de Alphonsus de Guimaraens Filho
   Global, São Paulo, 1985
• Augusto dos Anjos (1884-1914)
   in Eu/Outra Poesia
   Círculo do Livro, São Paulo, s/data
• Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)
   in Poesia Completa
   Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 2003
• Carlos Pena Filho (1929-1960)
   in Livro Geral
   Editora Raiz, s/data, s/local (talvez Recife)
• Cecília Meireles (1901-1964)
   in Obra Poética
   Nova Aguilar, 3a. ed., 6a. reimpr., Rio de Janeiro, 1987
• Federico García Lorca (1898-1936)
   in José Carlos Lisboa, Verde que te Quero Verde - Ensaio de
   Interpretação do
Romancero Gitano de García Lorca
   Zahar/INL, Rio de Janeiro/Brasília, 1983
• Fernando Pessoa (1888-1935)
   in Obra Poética
   Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1977
• Jorge de Lima (1893-1953)
   in Poesia Completa
   Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1997
• José Paulo Paes (1926-1998)
   in A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu
   Duas Cidades, São Paulo, 1988
• Luís Vaz de Camões (1524?-1580)
   in Sonetos
• Mario Quintana (1906-1994)
   in Apontamentos de História Sobrenatural
   Cículo do Livro, São Paulo, s/data
• Murilo Mendes (1901-1975)
   in O Menino Experimental: Antologia
   Org. Affonso Romano de Sant’Anna
   Summus Editorial, São Paulo, 1979
• Roberval Pereyr (1953-)
   in Mirantes
   7Letras, Rio de Janeiro, 2012
• Sá de Miranda (1481-1558)
   in Poesias Escolhidas
   Intr., sel. e crítica José V. de Pina Martins
   Editorial Verboo, Lisboa, 1969
• Sosígenes Costa (1901-1968)
   in Poesia Completa
   Cons. Est. de Cultura da Bahia, Salvador, 2001
• Wislawa Szymborska (1923-2012)
   Tradução de Nelson Ascher
   (Versão realizada a partir da versão inglesa de Adam Czerniawski e da norte-
   americana de Magnus J. Krynski e Robert A. Maguire)
   Texto obtido na internet
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* Marianne Moore, "Que São os Anos" (What are years), tradução de Jorge Wanderley
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* Imagens: obras de Faiza Maghni (1964-), pintora argelina residente na França.