Número 452 - Ano 18

Salvador, quarta-feira, 16 de setembro de 2020

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«De repente, o silêncio deixara de respirar.» (Bernardo Soares: Fernando Pessoa) *

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Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade



Amigas e amigos,

O poeta em foco nesta edição, o português Eugénio de Andrade (1923-2005), já esteve aqui em duas outras ocasiões: nos boletins número 286, de 2013, e número 191, de 2006. Criador essencialmente lírico, Eugénio é um dos nomes de maior destaque na poesia portuguesa.

Eugénio de Andrade, (pseudônimo de José Fontinhas) nasceu em Póvoa de Atalaia (Fundão) em 1923. Mudou-se para Lisboa aos sete anos e lá residiu até 1950, quando se transferiu para a cidade do Porto, onde viveria até a morte, em 2005. Durante 35 anos exerceu a funçáo de inspetor administrativo do Ministério da Saúde. Nunca se dispôs a prestar concurso para assumir posição mais elevada. Em compensação, produziu uma obra literária extraordinariamente vasta.

Estreante em 1939, com a coletânea Narciso, escreveu quase 30 coletâneas de poesia, mais livros de prosa, literatura infantil e traduções. A despeito do largo reconhecimento de sua obra, o poeta sempre se manteve distante da vida social e raramente participava de eventos literários. Em 2001, aos 78 anos, recebeu o Prêmio Camões, láurea maior da literatura em língua portuguesa.

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Os seis poemas mostrados neste boletim foram extraídos de quatro coletâneas do poeta, todas dos anos 90: Rente ao Dizer (1992), Branco no Branco (1993), Ofício de Paciência (1994) e O Sal da Língua (1995).

No primeiro texto ao lado, “A Poesia Não Vai”, o autor traça uma espécie de profissão de fé da arte poética calcada na rebeldia. “A poesia não vai à missa, / não obedece ao sino da paróquia, / prefere atiçar os seus cães / às pernas de deus e dos cobradores / de impostos”. Mas não pensem que a poesia morde. Apesar de toda essa exibição de dentes, ela “adora / andar descalça nas areias do Verão”.

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O próximo poema, “In Memoriam”, é mais sombrio. Trata-se de um texto saudoso dos amigos que se foram. “Esses mortos difíceis / que não acabam de morrer / dentro de nós”. Um aspecto encantador no lirismo de Eugénio de Andrade é essa capacidade de dizer coisas fortes, universais, convincentes, usando apenas um punhado de palavras triviais. Sem pose. Sem fingir que o poeta é um ser acima dos demais e guarda, em algum lugar, segredos inalcançáveis para os passageiros comuns deste planeta.

O poema seguinte, “Não Sei”, retoma, de outro ângulo, o mesmo tema anterior. Dirige-se amargamente, mas com carinho e ironia, a um amigo morto (“Não sei por que diabo escolheste / janeiro para morrer: a terra / está tão fria”) para afinal concluir que “só a morte é imortal”. Vem a seguir o poema “Mulheres de Preto”. Aqui, o poeta retrata aquelas mulheres de regiões tradicionais, como o interior de Portugal, severamente enlutadas, “de preto até à alma”.

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No texto “XVII”, do livro Branco no Branco, o andamento é mais alegre e melodioso. Aí está um poema sobre quase nada: a “flor da água”, identificada pelo seu aroma. Um exemplo cativante de que a poesia, a rigor, não precisa de um tema. Precisa, sim, de emoção, sugestões sensuais (o aroma que “sobe ao terraço // entra nu pela varanda”) e embriaga de música toda a terra.

A minisseleta se fecha com “A Arte dos Versos”. Uma “receita” para se fazer um poema. Está tudo ali, simples e visível, mas nada é revelado. Como desenvolver, como a mulher do campo, a “mão certeira” para regar as couves, a necessária “intimidade com a terra” e o “empenho do coração”? Enfim, uma falsa “receita”, porque não há fórmulas para produzir o poema.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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Poemas em Vallejo & Co.

A revista peruana Vallejo & Co. publicou, em espanhol e em português, uma seleção de poemas do editor deste boletim. Se você tiver curiosidade, confira em Vallejo & Co..


A poesia não vai à missa


• Eugénio de Andrade


              



Anastasiya Matveeva - Ana Sofia
Anastasiya Matveeva, pintora russa, Ana Sofia


A POESIA NÃO VAI

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.

    De O Sal da Língua (1995)



IN MEMORIAM

Esses mortos difíceis
que não acabam de morrer
dentro de nós; o sorriso
de fotografia,
a carícia suspensa, as folhas
dos estios persistindo
na poeira; difíceis;
o suor dos cavalos, o sorriso,
como já disse, nos lábios,
nas folhas dos livros;
não acabam de morrer;
tão difíceis, os amigos.

    De Ofício de Paciência (1994)





Anastasiya Matveeva - Ira-2015
Anastasiya Matveeva, Ira (2015)


NÃO SEI

Não sei por que diabo escolheste
janeiro para morrer: a terra
está tão fria.

É muito tarde para as lentas
narrativas do coração,
o vento continua
a tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.

Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avô
tinha no quintal. Paciência,
querido, também Mozart morreu.

Só a morte é imortal.

    De O Sal da Língua, 1995)



MULHERES DE PRETO

Há muito que são velhas, vestidas
de preto até à alma.

Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.

Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.

A língua, pedra também.

    De Rente ao Dizer (1992)



Anastasiya Matveeva - selfportrait.with.rubber
Anastasiya Matveeva, Autorretrato


XVII

Ignoro o que seja a flor da água
mas conheço o seu aroma:
depois das primeiras chuvas
sobe ao terraço,

entra nu pela varanda,
o corpo inda molhado
procura o nosso corpo e começa a tremer:
então é como se na sua boca

um resto de imortalidade
nos fosse dado a beber,
e toda a música da terra,
toda a música do céu fosse nossa,

até ao fim do mundo,
até amanhecer.

    De Branco No Branco (1993)



A ARTE DOS VERSOS

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.

    De Rente ao Dizer (1992)




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2020



Eugénio de Andrade
      •  Poemas extraídos das obras indicadas
_____________
* Bernardo Soares: Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego (1982)
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* Imagens: quadros da pintora russa Anastasiya Matveeva (1988-)