Número 454 - Ano 18

Salvador, quarta-feira, 14 de outubro de 2020

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«Aprende a ver sem esforço / o que a névoa quer te mostrar.» (Ronaldo Monte) *

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Cinco Poetas
Mauro Mota; Guilherme de Almeida (em cima); Joaquim Cardozo (centro); Gilberto Nable; Augusto de Campos



Amigas e amigos,

Esta é uma daquelas edições em que decidi recorrer ao já extenso acervo do boletim. Desta vez, fui à página de Busca do site Alguma Poesia e fiz pesquisas com base na palavra chuva. O resultado final me conduziu a cinco poetas: os pernambucanos Mauro Mota (1911-1984) e Joaquim Cardozo (1897-1978); os paulistas Guilherme de Almeida (1890-1969) e Augusto de Campos (1931-); e, por fim, o mineiro Gilberto Nable (1954-).

Poetas de origens, estilos e épocas diferentes, esses autores são aqui reunidos porque escreveram poemas que fazem referência à chuva. Todos os poemas ao lado apareceram em boletins antigos. Nos comentários abaixo, indico, junto com o nome do poeta, o link para o boletim em que o texto foi publicado. Também lá estão mais detalhes sobre a obra e a biografia do autor.

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Mauro Mota
poesia.net n. 14 (2003)

Pernambucano de um tempo em que ainda existiam quintais com frutas e roupas no varal, o poeta Mauro Mota desenha tudo isso no poema “Chuva de Vento”. E as águas parecem vir voando. “De que distância / chega essa chuva / de asas, tangida / pela ventania?”, indaga o poema.

No texto, de fato, ele parece referir-se não a uma chuva de hoje, o momento em que o poeta está escrevendo, mas a uma precipitação pluvial guardada na memória, ocorrida num passado remoto. E, gentilmente, o poeta termina o texto estendendo a mão à benfazeja chuva fria.


Guilherme de Almeida
poesia.net n. 17 (2003)

Poeta e tradutor, o paulista Guilherme de Almeida afeiçoou-se ao haikai, ou haicai, essa pequena composição poética japonesa, formada por três versos, de cinco, sete e cinco sílabas métricas. Conforme tradição multissecular, os haikais são textos reflexivos que destacam as relações entre o ser humano e a natureza. Há, por exemplo, haikais de inverno, haikais de outono etc. A composição dos textos também obedece a certos princípios que orientam a composição de cada uma das três linhas.

Guilherme de Almeida, no entanto, resolveu abrasileirar o haikai. Criou então um formato pessoal, até hoje praticado por muitos poetas. O haikai guilhermino obedece à métrica (5-7-5 sílabas poéticas), mas introduz dois itens inexistentes no poema japonês: título e rimas.

O esquema das rimas é sofisticado: a / bb / a. Quer dizer: o primeiro verso rima com o terceiro; e o segundo contém uma rima interna, na segunda e na sétima sílabas. Exemplo (e aí vai mais um haikai de Guilherme de Almeida): “NOTURNO // Na cidade, a lua: / a joia branca que boia / na lama da rua”.

Nos dois haikais ao lado, “Outubro” e “Chuva de Primavera”, Guilherme de Almeida toma a chuva como tema. O segundo é minimalista: resulta da observação dos pingos de chuva pendurados nos fios elétricos (ou telefônicos).

Em geral, os fãs e estudiosos do haikai original detestam as adaptações feitas por Almeida. Creio que o poeta quis apenas exercitar-se, criando uma nova forma fixa inspirada na composição japonesa.


Joaquim Cardozo
poesia.net n. 20 (2003)

No poema “Chuva de Caju” o poeta Joaquim Cardozo adota um tom similar ao de seu conterrâneo e contemporâneo Mauro Mota. Este, como vimos, dá as boas-vindas à chuva que chega nas asas do vento. Cardozo trata a visitante com proximidade ainda maior: confere a ela personalidade feminina e chama-a de Tereza ou Maria.

O discurso é de quem conhece a chuva: “Sei de onde vens, sei por onde andaste. / Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos”. No fim, o sujeito lírico não apenas abre as portas de sua casa à chuva, como declara à recém-chegada profundo bem-querer. Detalhe: as chuvas de caju (antes, chuvas-de-caju), no Nordeste (cf. Aurélio), são aquelas que caem em setembro e outubro e favorecem o amadurecimento dos cajus.


Augusto de Campos
poesia.net n. 66 (2004)

A chuva também molhou a poesia concreta. No poema “pluvial/fluvial”, o paulistano Augusto de Campos compõe uma combinação dessas duas palavras, cuja diferença está apenas na primeira letra. A primeira, sempre escrita no sentido vertical, faz referência à direção de queda da chuva; a outra, na vertical, sugere a posição em que corre o rio. No arranjo, formado por 12 linhas verticais e 12 horizontais, a chuva se transforma em rio.


Gilberto Nable
poesia.net n. 190 (2006)

O último texto desta série pluviosa é a parte V do longo poema “Percurso da Ausência”, do mineiro Gilberto Nable. O poeta começa citando a chuva que cai nas serranias de Aiuruoca, no sul de Minas, sua terra natal. “Chove lá fora”, repete ele quatro vezes, no início do poema. Mas a chuva é tão poderosa que não afeta apenas a natureza: invade também o ânimo do sujeito lírico, que confessa: “Chove dentro de meu peito”.

Daí em diante, a precipitação pluvial converte-se em completa inundação do mundo, passando pelos escombros do World Trade Center, em Nova York, pelos campos de refugiados do Afeganistão, pelos massacres de Sabra e Shatila, no Líbano. É um momento lírico de alta tensão, no qual as dores e mazelas do mundo, evocadas pela chuva, vêm desaguar amargamente no coração do indivíduo só e desamparado.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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Cinco poetas sob a chuva


• Mauro Mota   • Guilherme de Almeida
• Joaquim Cardozo  • Augusto de Campos
• Gilberto Nable


              



Joan Miró - Ladders cross the blue sky
Joan Miró, espanhol, Escadas cruzam o céu azul numa roda de fogo (1953)


• Mauro Mota

CHUVA DE VENTO

De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?

Estendo-lhe a mão: a chuva fria.



Joan Miró - Constellation-Awakening at dawn-1941
Joan Miró, Constelação - Acordar de madrugada (1941)


• Guilherme de Almeida

OUTUBRO

Cessou o aguaceiro.
Há bolhas novas nas folhas
do velho salgueiro.


CHUVA DE PRIMAVERA

Vê como se atraem
nos fios os pingos frios!
E juntam-se. E caem.



Joan Miró - Character-1934
Joan Miró, Personagem (1934)


• Joaquim Cardozo

CHUVA DE CAJU

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Tereza? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos.
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
E em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Tereza ou Maria.

(1936)



Joan Miró - Barbare dans la nuit - 1976
Joan Miró, Bárbaro dentro da noite (1976)


• Augusto de Campos

pluvial / fluvial

Augusto de Campos - pluvial/fluvial




Joan Miró - Portrait of Hiberto Casany-1918
Joan Miró, Retrato de Hiberto Casany - O chofer (1918)


• Gilberto Nable

PERCURSO DA AUSÊNCIA - V

    Para José Roberto Ayres

Chove lá fora sobre as serranias de Aiuruoca.
Chove lá fora sobre o gado em aboio.
Chove lá fora sobre os bambuais e o rio.
Chove lá fora sobre antigos caminhos da minha infância,
com arapucas armadas e rolinhas,
e folhas úmidas nos pés descalços,
e lírios já orvalhados.
Chove sobre os pirilampos no escuro
em verde fosforescência.
Chove sobre o corpo de minha mãe doente,
exposto ao tempo e à febre.
Chove dentro do meu peito.

Chove uma chuva miúda e triste.
Chove, afinal, sobre os telhados do mundo.
Chove nos escombros do World Trade Center,
no Marco Zero da Grande América divinizada.
Chove sobre as mulheres iraquianas orando e balindo.
Chove sobre os campos de refugiados no Afeganistão,
em suas barracas esfarrapadas ventando;
assim como antes chovera nos campos de Sabra e Shatila,
e no Gueto de Varsóvia.

Chove na piazza de São Pedro, deserta,
e sobre os ombros encarquilhados do Papa.
Ouço a chuva caindo sobre minaretes e sinagogas
com seu ruído monótono.

Vejo a chuva molhando o corpo dilacerado de um
menino palestino,
com as mãos agarradas a uma pedra.
Chove nos capacetes metálicos dos soldados de Israel,
nas suas viseiras de aço e miras telescópicas.

Chove ainda hoje sobre mim,
bêbado, sozinho e urinando na chuva,
com um miserável soluço na garganta.
Eu sei que chove hoje e choverá para sempre,
em lento e definitivo dilúvio,
sem intervalo, nem instante,
até que tudo esteja submerso sob as águas,
e na superfície nada,
nada respire sobre as ondas.




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2020



Mauro Mota
      •  "Chuva de Vento"
      in Itinerário
      José Olympio, Rio de Janeiro, 1975
Guilherme de Almeida
      •  "Outubro", "Chuva de Primavera":
      in Poesia Vária
      Livraria Martins, São Paulo, 1947
Joaquim Cardozo
      •  "Chuva de Vento"
      in Poesias Completas
      Civilização Brasileira, 2a. ed., Rio, 1979
Augusto de Campos
      •  "pluvial/fluvial"
      in Viva Vaia (Poesia 1949-1979)
      Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1979
Gilberto Nable
      •  "Percurso da Ausência - V"
      in Percurso da Ausência
      7Letras, Rio de Janeiro, 2006
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* Ronaldo Monte, "Serenando" in Tecelagem Noturna (2000)
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* Imagens: quadros do pintor espanhol Joan Miró (1893-1983)