Número 463 - Ano 19

Salvador, quarta-feira, 7 de abril de 2021

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«Pus o meu sonho num navio / e o navio em cima do mar; / — depois, abri o mar com as mãos, / para o meu sonho naufragar.» (Cecília Meireles) *

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Emily Dickinson
Emily Dickinson



Amigas e amigos,

A poeta oitocentista Emily Dickinson (1830-1886) é um dos escritores mais reverenciados em seu país, os Estados Unidos, e pelo mundo afora. Curiosamente, esse encantamento com os poemas de Miss Dickinson só parece crescer com o passar do tempo.

Nascida em Amherst, Massachusetts, onde viveu durante toda a vida, a poeta, conhecida como “a bela de Amherst”, publicou somente uns poucos poemas em vida. A partir dos 30 anos, manteve-se completamente reclusa na casa de sua família (um clã de destaque na cidade), dedicando-se a trabalhos domésticos, ao jardim, à observação da natureza — e, claro, à poesia. Após sua morte, os familiares encontraram papéis com quase 1800 poemas.

Na internet, é fácil encontrar numerosíssimas referências à poeta, em sites norte-americanos, mas também em portais em variados lugares e idiomas. Pululam os estudos sobre a criação poética de Emily e também as tentativas de traduzi-la. Aqui mesmo, neste boletim, Emily Dickinson já apareceu três vezes: poesia.net n. 430 (2019), n. 306 (2014) e n. 67 (2004).

Cada uma dessas edições apresentava um ou mais tradutores. Na edição mais antiga, Emily Dickinson nos visita em português trazida pelas palavras de Aíla de Oliveira Gomes, Augusto de Campos e Paulo Henriques Britto. Na segunda, os tradutores são, novamente, Aíla de Oliveira Gomes e Augusto de Campos, mais Isa Mara Lando. Estes três lançaram livros com traduções de poemas da autora americana. Por fim, na terceira visita da poeta de Amherst, seus poemas foram vertidos pelo tradutor Ivo Bender, que lançou em 2017 o livro Poemas Escolhidos, parte da Coleção Folha Mulheres da Literatura, da Folha de S. Paulo.

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Agora, surge nova tradução dos poemas de Emily Dickinson, assinada pelo poeta e professor da UFF Adalberto Müller e publicada pela Editora Universidade de Brasília (UnB). Trata-se do volume Poesia Completa – Volume I: Os Fascículos, lançado no final de 2020. Publicação bilíngue, esse livro requer alguma explicação, a partir do título. O que são esses “fascículos”? Nos manuscritos que deixou, a poeta passava os textos a limpo em folhas de papel-carta e costurava de quatro a seis dessas folhas, formando folhetos que um estudioso, Ralph W. Franklin, chamou de fascículos. Outros poemas ficaram em folhas soltas.

Outro detalhe: Emily não criava títulos para seus poemas. Assim, os primeiros organizadores de sua obra passaram a identificar os textos com números sequenciais. São exatos 1775 poemas, que podem ser lidos neste site: American Poems – Emily Dickinson: Complete Poems. (A propósito: uma edição completa, publicada em 1999 pelo mesmo Ralph W. Frankin amplia o total de textos para 1789). Uma das críticas que se fazem à numeração dos poemas está no fato de que, nesse processo, muitos poemas pertencentes a fascículos — que, portanto, tinham para a autora algum “parentesco” temático, temporal ou de aspiração editorial — foram destacados e publicados numa ordem arbitrária.

A tradução de Adalberto Müller não usa essa numeração. Segue a edição Emily Dickinson: Poems as She Preserved Them (Harvard Press, 2016, Cambridge-MA), coordenada pela acadêmica americana Cristanne Miller, uma autoridade em Dickinson. Nesse livro, os poemas são apresentados em dois volumes. O primeiro enfeixa os fascículos em ordem cronológica. E o segundo (ainda não publicado) reúne as folhas soltas, poemas trascritos por terceiros etc.

Na versão brasileira, o primeiro volume forma um livro de peso, com 888 páginas. Nele, além dos poemas no original e as traduções, dispostos lado a lado, o leitor encontra um prefácio da editora americana Cristanne Miller, mais notas introdutórias e um posfácio do tradutor.

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Para esta edição, selecionei alguns poemas, mas introduzi uma pequena modificação. Uso como título de cada poema o número que o identifica em outras publicações dos poemas de Dickinson. Ao mesmo tempo, cito no rodapé, abaixo da tradução e do texto original, as indicações do volume. Por exemplo: “Fascículo 2, Folha 2, c. início de 1859”. Aí estão, portanto, a origem do poema nos papéis da autora e a época aproximada em que foi escrito.

O primeiro poema é o número “56”, com data de 1859. Trata-se de um dos numerosos textos em que Emily Dickinson elege a morte como tema. Na verdade, esse motivo vem combinando com uma flor, outro de seus assuntos prediletos. Diz ela, na primeira quadra: “Se eu não mais trouxer a Rosa / Em uma festiva data, / Será porque ao além da Rosa / Terei sido chamada —”. Mais adiante, não resta mais dúvida acerca desse além grifado.

No poema seguinte, de número “97”, o arco-íris entra em cena como um ser dotado de sabedoria. E detalhe: um ser feminino, como mostra o pronome she no texto original. Não funciona como uma espécie de boletim meteorológico, capaz de indicar se vai chover ou ventar, mas, na avaliação da poeta, parece alguém “mais convincente / que qualquer Filosofia”.

Na segunda quadra, a atenção se volta para as flores. Estas “fogem do fórum”, ou seja, assim como o arco-íris, não têm o dom da fala. Contudo, exibem um tipo de eloquência que suplanta os recursos de Catão, o Jovem, senador da Roma Antiga, exímio orador e, portanto, um ás do fórum. Só que as flores, ao brotar, fazem declarações mais sutis: provam que por ali passaram pássaros, favorecendo a polinização. Esta é Emily Dickinson. Diz tudo isso em apenas oito versos com ares despretensiosos.

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No poema seguinte, o “111”, a autora permanece na observação da natureza. Abelhas, borboletas, brisa, neblina, verão. No texto n. “285”, a festa continua, com pássaros, flores, e estações do ano. Atenção para a ousadia, no original, do advérbio de modo New Englandly (Nova-Inglaterramente),

No convívio com os seres de seu quintal e de sua região, a Nova Inglaterra, a autora declara que enxerga tudo conforme seu ponto de vista local. Irônica, acredita que mesmo a soberana (da Velha Inglaterra, claro, na época a Rainha Vitória) também aprecia as coisas conforme seu ponto de vista, que é também dependente de lugar, e portanto “provinciano”.

A próxima criatura dos bosques de Emily Dickinson é uma “coisa com plumas”, a Esperança, mas também tratada como Passarinha. Ela insiste em permanecer conosco e, mesmo nas situações mais duras, não se curva a pedir migalhas.

No poema “255”, escrito no início de 1862, traz uma breve reflexão sobre a morte. Segundo este poema, a morte é algo rápido e “dizem que nem dói”: mais uma vez, a ironia. Mas de fato a desmemória é que se impõe: “Logo esqueceremos de tudo — / Com os raios do sol —”.

A morte é também o tema do último texto, n. “533”. Duas borboletas saem valsando na tarde e se extinguem ao sol. Sabe-se apenas que foram, mas não para onde, nem há notícia de que tenham chegado a qualquer lugar. Os pássaros não sabem, nem os navios. Ninguém jamais viu as borboletas desaparecidas.

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Vale destacar a imensa coragem do tradutor Adalberto Müller ao enfrentar a dificílima tarefa de pôr em português toda a poesia de Emily Dickinson. Para que se tenha ideia do tamanho dessa proeza, transcrevo, do livro, um trecho do prefácio da editora americana Cristanne Miller:

“Dickinson se distingue de muitos poetas por seu modo raro de usar metáforas e pela linguagem a um só tempo ritmicamente poderosa e elipticamente concisa o bastante para fazer perguntas ou introduzir questões sobre as quais podemos tanto ter uma compreensão clara quanto ficar em dúvida a vida toda”.

Assim, pode-se concluir que essas dúvidas e obscuridades também se apresentam — em escala bem mais assustadora — ao tradutor. O leitor pode se dar ao luxo de deixar um poema de lado, se não o entende, ou se não consegue traçar para si mesmo o significado de uma metáfora. O tradutor, não: a própria natureza de sua tarefa o obriga a construir hipóteses e optar por uma delas. Caso contrário, não há tradução.

Não é à toa que são poucos os casos de alguém sentar-se e verter para outro idioma a obra completa de um poeta. O próprio Adalberto Müller destaca no prefácio que sua tradução é a primeira em português a cobrir a totalidade da poesia de Emily Dickinson, embora reconheça ser ela uma das autoras mais traduzidas para nosso idioma.

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Saí desta Poesia Completa de Emily Dickinson com uma pequena dúvida editorial. Em vários poemas do livro, surgem palavras destacadas em itálico, desde o original. É o caso do poema n. “56”, que abre a seleção ao lado. Aí, os destaques estão em beyond (além) e Death’s (da Morte). De onde vêm essas marcações? Estavam indicadas nos manuscritos de Dickinson ou resultaram de decisões de algum estudioso da obra? Posso estar enganado — obviamente não sou especialista na autora —, mas nunca observei isso em outras publicações. Fica a dúvida.

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Executei uma busca aqui em minha estante e levantei os seguintes livros com traduções de poemas de Emily Dickinson, além do volume em foco neste boletim:

Emily Dickinson: Uma Centena de Poemas
Tradutora: Aíla de Oliveira Gomes
T.A. Queiroz/Edusp, São Paulo, 1984

Emily Dickinson: Não Sou Ninguém
Tradutor: Augusto de Campos
Editora da Unicamp, Campinas, 2008

Emily Dickinson: Loucas Noites Wild Nights
Tradutora: Isa Mara Lando
Disal Editora, Barueri-SP, 2010

Emily Dickinson: A Branca Voz da Solidão
Tradutor: José Lira
Iluminuras, São Paulo, 2011

Emily Dickinson: Poemas Escolhidos
Tradutor: Ivo Bendler
Coleção Folha Mulheres na Literatura, São Paulo, 2017


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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Rosas, pássaros e arco-íris


• Emily Dickinson


              

Gonçalo Mabunda - Dream
Gonçalo Mabunda, escultor moçambicano, Sonho


56

Se eu não mais trouxer a Rosa
Em uma festiva data,
Será porque ao além da Rosa
Terei sido chamada —

Se eu deixar de receber nomes
Que aos botões dão os sábios —
Será porque os dedos da Morte
Terão fechado meus lábios —



56

If I should cease to bring a Rose
Upon a festal day,
‘Twill be because
beyond the Rose
I have been called away —

If I should cease to take the names
My buds commemorate —
‘Twill be because
Death’s finger
Claps my murmuring lip!


    Fascículo 2 - Folha Dois - c. início de 1859



Gonçalo Mabunda - Vida quadrada
Gonçalo Mabunda, Vida quadrada


97

O arco-íris não me diz
Se vem chuva ou ventania,
Mas ele é mais convincente
Que qualquer Filosofia.

As flores fogem do Fórum —
Mas eloquentes declaram
O que nem Catão provaria —
Aqui pássaros passaram!



97

The rainbow never tells me
That gust and storm are by —
Yet is she more convincing
Than Philosophy.

My flowers turn from Forums —
Yet eloquent declare
What Cato couldn’t prove me
Except the
birds were here!


    Fascículo 3 - Folha Dois — primavera de 1859



Gonçalo Mabunda - Light at the end of the tunnel-2015
Gonçalo Mabunda, Luz no fim do túnel (2015)


111

A Abelha Rainha é amiga minha.
Conheço bem as Borboletas.
As pessoinhas lindas da Mata
Me recebem cordialmente —

Os Riachos riem forte
Quando chego perto —
Acho que a Brisa está louca;
Por que em meus olhos, a neblina?
Pra que Verão, se não termina?



111

The Bee is not afraid of me,
I know the Butterfly —
The pretty people in the Woods
Receive me cordially —

The Brooks laugh louder when I come —
The breezes madder play;
Wherefore mine eyes thy silver mists,
Wherefore, Oh Summer’s Day?


    Fascículo 5 - Folha 1 - c. verão de 1859



Gonçalo Mabunda - O governador das estrelas-2017
Gonçalo Mabunda, O governador das estrelas (2017)


285

O Sabiá é meu Critério para o Canto —
Porque eu sou — do mesmo canto —
Se eu fosse um Cuco
Seria um maluco —
Ode sabida — rege a Tarde —
Meu capricho é Botão-de-Ouro —
Somos flores de campina —
Se eu fosse uma Inglesa
Desprezava a Bonina —

Na sua Noz — o Outono tem voz —
Porque — quando ela cai
A Estação — eu sei — se vai
Sem o Quadro de neve
O Inverno seria breve —
Vejo tudo — Nova-Inglaterramente —
A Rainha discerne — como eu —
Provincianamente —



285

The Robin’s my Criterion for Tune —
Because I grow — where Robins do —
But, were I Cuckoo born —
I’d swear by him —
The ode familiar — rules the Noon —
The Buttercup’s, my Whim for Bloom —
Because, we’re Orchard sprung —
But, were I Britain born,
I’d Daisies spurn —

None but the Nut — October fit —
Because, through dropping it,
The Seasons flit — I’m taught —
Without the Snow’s Tableau
Winter, were lie — to me —
Because I see — New Englandly —
The Queen, discerns like me —
Provincially —


    Fascículo 11 - Folha 1 - c. final de 1861



Gonçalo Mabunda - Trono
Gonçalo Mabunda, Trono (2013)


254

“Esperança” é a coisa com plumas —
Que na alma se aninha —
Seu canto não tem palavras —
Sempre a mesma — ladainha —

Soa bem — na ventania —
E só a forte tormenta —
Há de calar a Passarinha
Que a tantos acalenta —

Ouvi-a na terra mais fria —
E no estranho Mar sem fim —
Mas — nem em situações extremas
Pediu migalhas — pra Mim.



254

“Hope” is the thing with feathers —
That perches in the soul —
And sings the tune without the words –
And never stops — at all —

And sweetest — in the Gale — is heard —
And sore must be the storm —
That could abash the little Bird
That kept so many warm —

I’ve heard it in the chillest land —
And on the strangest Sea —
Yet, never, in Extremity,
It asked a crumb — of Me.


    Fascículo 13 - Folha 2 - c. início de 1862



Gonçalo Mabunda - The boss-2020
Gonçalo Mabunda, O chefão (2020)


255

Morrer — é num instantinho —
Dizem que nem dói —
É um esvair-se — pouco a pouco
E então — já se foi —

A Fita negra — por um dia —
O Chapéu — e o véu —
Logo esqueceremos de tudo —
Com os raios de sol —

A ausente — mística — criatura —
Por ser boa amiga —
Foi dormir — o sono profundo —
E sem fadiga —



255

To die — takes just a little while —
They say it doesn't hurt —
It's only fainter—by degrees —
And then—it's out of sight —

A darker Ribbon — for a Day —
A Crape upon the Hat —
And then the pretty sunshine comes —
And helps us to forget —

The absent — mystic— creature —
That but for love of us —
Had gone to sleep — that soundest time —
Without the weariness —


    Fascículo 13 - Folha 2 - c. início de 1862



Gonçalo Mabunda - O homem reflexo-2017
Gonçalo Mabunda, O homem reflexo (2017)


533

Duas Borboletas passeando à tarde
Valsaram sobre o Curral —
Pisaram firme o Firmamento
E pousaram na Luz do Sol —

E logo — juntas se foram
Rumo ao Mar de Cristal —
Mas nunca se ouviu falar
Se chegaram — afinal —

Não me informa nem um Pássaro
Do seu Rumo no Mar Salso —
Nem Fragatas, nem Mercantes —
Sabem se é verdadeiro, ou falso —



533

Two Butterflies went out at Noon —
And waltzed above a Farm —
Then stepped straight through the Firmament
And rested on a Beam —

And then — together bore away
Upon a shining Sea —
Though never yet, in any Port —
Their coming mentioned — be —

If spoken by the distant Bird —
If met in Ether Sea
By Frigate, or by Merchantman —
No notice — was — to me —


    Fascículo 25 – Folha 2 – c. verão de 1863




poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2021



Emily Dickinson
      •  Todos os poemas:
      in Poesia Completa – Volume I: Os Fascículos
      Tradução, notas e posfácio: Adalberto Müller
      Prefácio à edição brasileira: Cristanne Miller
      Editora UnB, Brasília, 2020
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* Cecília Meireles, "Canção", in Viagem (1939)
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* Imagens: obras do artista moçambicano Gonçalo Mabunda (1975-). Esculturas produzidas com restos de armas e munições recolhidos em 1992, após 16 anos de guerra em seu país.