Número 18

10/09/2017

«Zero igual a zero: a única evidência. As outras sempre se prestam a discussões.» (Mario Quintana) *
 

Edu Lobo e Chico Buarque
Edu Lobo e Chico Buarque



Caros,

É difícil definir quais discos musicais, livros, filmes ou quaisquer outros objetos artísticos eu (você) levaria para uma ilha deserta, caso fosse condenado a viver lá.

A escolha é sempre muito penosa. Mas tenho quase certeza de que uma das minhas canções contempladas seria A História de Lily Braun, dos extraordinários Edu Lobo e Chico Buarque.


O texto ao lado foi publicado originalmente no site cultural Kultme, em julho de 2017.

Carlos Machado


 

 



 

Eu e Lily Braun numa ilha deserta

            
Carlos Machado


Se você fosse condenado a viver
no meio do oceano, quais discos ou livros levaria para aliviar a solidão?

ilha deserta
Ilha deserta: quais objetos de estimação levar para lá?


A primeira vez que ouvi falar em levar objetos de estimação para uma ilha deserta foi no início dos anos 90, lendo uma revista da cadeia varejista americana Tower Records. Nessa revista, que era distribuída nas lojas, havia a seção Desert Island Records, na qual os editores convidavam uma personalidade a listar os 10 álbuns musicais que levaria para a tal ilha, caso fosse condenado a viver lá e não lhe fosse permitido transportar mais do que essa minguada dezena.

Achei a ideia excelente. Não tanto pela originalidade, porque outros talvez já tivessem pensado em coisas similares. Afeiçoei-me à ilha deserta porque eu mesmo comecei a praticar essa brincadeira de extremo desapego. Quais CDs (ou romances, livros de poesia, filmes etc.) eu levaria para a tal ilha?

Se você, amiga leitora, amigo leitor, também se aventurar nessa listagem, vai ver que se trata de uma tarefa muito difícil e sofrida. Mesmo quando você se restringe a apenas um autor, cantor ou banda, ainda assim é bem complicado. As escolhas são sempre feitas à base de uma obra contra a outra, e quem é fã normalmente quer ficar com tudo.

Invente aí seu próprio exercício e sinta as dores de partir para a ilha.

*

Mesmo assim, sem sofrimento, eu gostaria de usar o teste da ilha deserta, não para discos inteiros, mas para canções isoladas. Nesse caso, destaco uma canção brasileira que certamente seria uma de minhas fortes candidatas a seguir em minha bagagem de novo ilhéu.

É A História de Lily Braun, essa preciosidade que tem música de Edu Lobo e letra de Chico Buarque. Adoro a melodia do genial Edu, um dos grandes da MPB. Mas, como não sou da arte dos sons, vou me permitir falar somente da letra, embora saiba que nem mesmo as palavras mais brilhantes conseguem salvar músicas medíocres. Portanto, tudo que se falar aqui em favor da letra vale também para a partitura.

De cara, acho que nem mesmo Edu Lobo, ao dar a melodia para o Chico letrar, esperava um resultado tão supino. Não que alguém (muito menos Edu) espere pouco do talento buarquiano. Contudo, por mais altas que fossem as expectativas, aposto que até o autor da melodia tomou um susto agradabilíssimo quando a viu casada com essa letra extraordinária.

*

É importante lembrar que Lily Braun é uma personagem do poema O Grande Circo Místico, do alagoano Jorge de Lima (1893-1953). Em 1983, esse poema serviu de base para o espetáculo musical de mesmo nome, roteirizado e dirigido por Naum Alves de Souza, com música da dupla Edu Lobo e Chico Buarque.

No poema de Jorge de Lima, Lily Braun, “que tinha no ventre um santo tatuado”, casou-se com Oto Frederico Knieps, dono do Grande Circo Knieps — o circo místico. Mas a história de Lily Braun recriada por Chico Buarque é muito mais próxima de todos nós, e especialmente das mulheres.

*

Na letra de A História de Lily Braun, a narradora — a própria Lily — é uma cantora que se apresenta em casas noturnas, como dancings e “espeluncas”, conforme ela mesma define. Logo de saída, ela mostra não ser nenhuma moça ingênua e iludida. Por isso diz, quando “o homem de seus sonhos” apareceu no dancing: “Era mais um”. O príncipe encantado (vamos fingir que estamos num conto de fadas) olhou-a “com aqueles olhos de comer fotografia” e nem a experiente Lily resistiu. Nessa parte, as metáforas fotográficas são originalíssimas e deliciosas.

Quando o galã a chama de “anjo azul”, já está dada a senha de que ele é um sujeito das antigas. Talvez ele tenha na cabeça a dançarina Lola Lola (Marlene Dietrich) do filme O Anjo Azul (1930). E o romance continua. O galanteador manda rosas e poemas e deixa a já rendida Lily Braun se “desmilinguindo toda ao som do blues”. Tudo, na letra, se encaixa com perfeição. O ambiente do idílio é um cabaré e a música, um blues.

A linguagem da moça também é marcada por certa faceirice. Ou seria melhor dizer coquetterie? Ela sempre introduz em suas frases termos em línguas estrangeiras, para dar um ar chique: dancing; zoom; close; cheese; please. E sua visão, após o drinque e o galanteio de “anjo azul”, não fica nublada, mas flou, em francês.

Por fim, a moça experiente, que já ia partir numa turnê “com os seus”, também tem o direito de apostar que o amor pode ser a chave para a felicidade. Então Lily Braun se casa com o homem de seus sonhos. E, subitamente, o conto de fadas vira pó. O próprio marido anuncia as mudanças. Queima as fotos do tempo de glamour e destrói as rosas.

A simbologia é forte. Até imagino a frase: “Esqueça essas bobagens. Mulher séria, casada, não pode se dar a esse tipo de desfrute”. Acaba-se a fase de star e começa a nada glamourosa vida de esposa. É a fase do “nunca mais”: nada de romance, dancing, drinque. E, pior do que tudo, é a fase do “nunca mais feliz”.

“Anjo azul” não era só um galanteio: era também um aviso.

*

A História de Lily Braun foi gravada por várias cantoras: Gal Costa, Leila Pinheiro, Mônica Salmaso, Maria Rita e, mais recentemente, por Teresa Cristina e Maria Gadú. Pelo menos umas três gerações de artistas e de público têm retornado a essa joia da MPB. Na gravação ao vivo de Maria Gadú, é impressionante ver como a plateia do show sabe a letra completa e acompanha até as modulações da cantora.

Acho que não haveria o mínimo risco de errar se eu levasse Lily Braun para a ilha deserta. A canção é tão boa que seria zero a chance de entrarmos, eu e ela, na fase do “nunca mais feliz”.

* * *

A História de Lily Braun – Mônica Salmaso


A História de Lily Braun – Maria Gadú


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A HISTÓRIA DE LILY BRAUN
(Edu Lobo / Chico Buarque)

Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam
Feito um zoom

Ele me comia
Com aqueles olhos
De comer fotografia
Eu disse cheese
E de close em close
Fui perdendo a pose
E até sorri, feliz

E voltou
Me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão
Foi desde então ficando flou

Como no cinema
Me mandava às vezes
Uma rosa e um poema
Focos de luz
Eu, feito uma gema
Me desmilinguindo toda
Ao som do blues

Abusou do scotch
Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale no decote
Disparei com as faces
Rubras e febris

E voltou
No derradeiro show
Com dez poemas e um buquê
Eu disse adeus
Já vou com os meus
Numa turnê

Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz


* * *


poesia.net
Outras Palavras

Carlos Machado, 2017

•  Eu e Lily Braun numa ilha deserta
    Crônica publicada originalmente
    no site cultural Kultme
   
27 de julho de 2017
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* Mario Quintana
  in Caderno H (1973)