Número 555 - Ano 23

Salvador, quarta-feira, 16 de julho de 2025

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«Se me buscarem, não vou. / Se me ofertarem, não quero. // Se me disserem quem sou, / direi que não sou, e espero.» (Roberval Pereyr) *

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Ana Costa dos Santos
Ana Costa dos Santos


Amigas e amigos,

Nesta edição n. 555 — número curioso —, o poesia​.net recebe, pela terceira vez, a poeta gaúcha Ana Costa dos Santos (Porto Alegre, 1984), que acaba de lançar nova coletânea, Voo Breve Sob o Sol, publicada pelo Círculo de Poemas.

Ana Costa dos Santos já esteve aqui nas edições n. 394, de 2018, e n. 439, de 2020. Nesses dois boletins ela aparece como Ana Santos. Contudo, um problema de homonímia levou-a a trocar a assinatura para Ana Costa dos Santos.

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Praticante de uma poesia discreta e sutil, fulcrada nos pequenos detalhes, Ana Santos, em seu Voo Breve Sob o Sol, mostra-se uma poeta mais segura (este é seu quarto livro de poesia), mas mantém os traços fundamentais de sua voz lírica.

Após a leitura de Móbile, seu primeiro livro de poemas, escrevi aqui, sete anos atrás: “A poesia de Ana Santos é como esses discretos ventos benfazejos, que chegam sem alarde e sem aviso. Apenas chegam e instalam uma sensação de sutil bem-estar. No livro dela não há poemas em voz alta, ninguém sofre de forma desabrida, não há prazeres celestes nem sofrimentos do inferno. Há, sim: sorrisos tímidos, dores pequeninas e principalmente momentos de poesia pura e singela”.

Sou capaz de repetir agora essas mesmas palavras,  após ler seu livro mais recente. Aliás, o próprio título, Voo Breve Sob o Sol, é uma prova dessa delicadeza, da natureza tênue dos sentimentos que a poesia da autora provoca no leitor.

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Para esta edição, selecionei seis poemas. O primeiro deles é “Voo”. Observadora de flores e pássaros no jardim, a poeta enfrenta aqui um momento triste: “Morto, o pássaro / está a salvo: / não há risco após a queda”. Mas, delicada, ela não se conforma com essa suposta salvação. E conclui que o pássaro, embora caído inerte, “talvez / voe dormindo”.

O breve poema “Perigo” identifica os momentos em que surgem certas “memórias submersas”. Ou, pelo lado mais pesado, “um corpo / em busca de ar”. O que trazem tais memórias?

O poema seguinte, “Negação”, traz outras lembranças do ambiente familiar. A pessoa que fala — mais uma vez, uma mulher — revela ter medo do porão. “Não descerei ao porão. / No porão é sempre noite, / os maus sonhos persistem / na vigília, / e os rádios repetem / as piores notícias”. Apavorada, ela revela que esse sentimento tem raízes na infância. Que terrível susto terá provocado esse medo permanente?

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No próximo texto, “Enfim o Vento”, o temor cede lugar à morte. “Não toquem as rezas, / o riso, a cantiga de roda / de quem morreu”. Observe-se que, em todos esses poemas, mesmo quando o ambiente é marcado por inescapável dor ou tristeza, o tom pode ser soturno, porém sempre sereno. Não há choro descontrolado, nem expansivas lamentações.

Vem a seguir “Bíblico”, um poemeto no qual se compara a solidariedade entre pessoas muito pobres a um milagre do Novo Testamento. Na verdade, um milagre ao inverso, em que eticamente se confundem as operações de dividir e multiplicar.

Por fim, em “Uma Poética”, Ana Costa dos Santos alinha dezenas de fatos e situações isoladas que compõem pequenas centelhas de poesia, momentos breves em que se acende o rastilho luminoso do fenômeno poético.

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Nascida em Porto Alegre, onde reside, Ana Costa dos Santos é graduada em jornalismo pelo UFRGS, mestra e doutoranda em Estudos de Literatura pela mesma universidade. Poeta e contista, publicou O que faltava ao peixe (Libretos, 2011, contos); Móbile (Patuá, 2017, poesia); e Fabulário (Confraria do Vento, 2019, poesia), coletânea de poemas contemplada com o Prêmio Minas Gerais de Literatura 2017. Por último, a autora publicou Voo Breve Sob o Sol (2025), livro no qual se baseia esta edição do poesia​.net.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Voo breve sob o sol


• Ana Costa dos Santos


              



Vicente Romero Redondo - Pastel
Vicente Romero Redondo, pintor espanhol, Pastel


VOO

Morto, o pássaro
está a salvo:
não há risco após a queda.

Então por que me espantam
seu sono,
seu silêncio,
o baque ao pé
da árvore, igual
ao de uma fruta
podre
qualquer,
seu corpo dissecável,
onde, buscando, eu acharia
uma garganta, um coração
quieto?

Dizem que certos pássaros
dormem voando —
este talvez
voe dormindo.

PERIGO

é nas horas de descuido
enquanto
regamos as plantas
lavamos os pratos
fazemos café
que algo nos fere
sem aviso, corta
nosso gesto ao meio

aflora à superfície uma memória
submersa
um corpo
em busca de ar



Vicente Romero Redondo - Pastel
Vicente Romero Redondo, Pastel


NEGAÇÃO

Não descerei ao porão.
No porão é sempre noite,
os maus sonhos persistem
na vigília,
e os rádios repetem
as piores notícias.

Não descerei ao porão,
onde trabalham ratos
conhecidos,
onde traças devoram
minhas roupas de antes,
onde há uma fera
enjaulada,
uma bomba-relógio.

Do porão não se ouve
meu grito, e posso
morrer sozinha.
No porão é impossível
respirar,
o pó recobre as coisas
que ninguém quis,
as teias envolvem
o espelho em que me vi
menina.

O porão cheira mal
como um rio turvo
onde os que amo
afundam.
Não descerei,
ficarei aqui, ao sol escasso,
ou tremendo
no topo da escada,
lanterna acesa na mão.

ENFIM O VENTO

Não toquem a cadeira
vazia de quem morreu,
o vestido ainda quente,
os sapatos, o guarda-chuva
a postos de quem morreu.

Não toquem os cadernos arruinados
pela enchente de quem morreu,
os seus barcos de papel.
Sobretudo não toquem as orquídeas,
as rosas morrendo
no quintal de quem morreu.

Não toquem as rezas,
o riso, a cantiga de roda
de quem morreu.
Deixem tudo como está,
revestindo-se
do pó definitivo,
até que o vento (enfim o vento)
volte a soprar.



Vicente Romero Redondo - Pastel
Vicente Romero Redondo, Pastel (detalhe)


BÍBLICO

Na fila do abrigo,
o homem que tem quase nada
reparte um pacote
de doces
com outros homens
que têm quase nada.

Refaz-se o milagre
da multiplicação.

UMA POÉTICA

A vida dos lepidópteros,
a solidão dos astronautas,
os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,
um sem-teto estendendo roupas ao sol,
a hora do almoço dos operários,
os erros ortográficos nas cartas de amor,
as fotos dos desaparecidos,
os peixes sufocados.

As coisas perdidas ou deixadas a um canto,
o primeiro cão, a primeira morte,
as casinhas à beira da estrada
e quem dorme dentro delas,
as abóboras que não viraram carruagens douradas,
as últimas palavras de pessoas comuns,
a última dança de Kazuo Ohno,
a canção mais triste de Sérgio Sampaio.

A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos,
meu destino nas cartas de tarô,
cada sístole e diástole,
o fato de dizermos sempre “até amanhã”
ou “parece que foi ontem”,
o susto dos telefones tocando fora de hora,
o milagre de chegarmos quase intactos à noite,
as aves-do-paraíso apaixonadas,
tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa
e tudo o que jamais caberá neste poema.




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Carlos Machado, 2025


 Ana Costa dos Santos
      in Voo Breve sob o Sol
      Círculo de Poemas, São Paulo, 2025
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* Roberval Pereyr, "Decisão", in Mirantes (2012)
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* Imagens: quadros do pintor espanhol Vicente Romero Redondo (1956-)