Amigas e amigos,
Nesta edição n. 555 — número curioso —, o poesia.net recebe, pela terceira vez, a poeta gaúcha Ana Costa dos Santos
(Porto Alegre, 1984), que acaba de lançar nova coletânea, Voo Breve Sob o Sol, publicada pelo Círculo de Poemas.
Ana Costa dos Santos já esteve aqui nas edições n. 394,
de 2018, e n. 439, de 2020. Nesses dois boletins
ela aparece como Ana Santos. Contudo, um problema de homonímia levou-a a trocar
a assinatura para Ana Costa dos Santos.
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Praticante de uma poesia discreta e sutil, fulcrada nos pequenos detalhes, Ana Santos, em seu Voo Breve Sob o Sol, mostra-se uma
poeta mais segura (este é seu quarto livro de poesia), mas mantém os traços fundamentais de sua voz lírica.
Após a leitura de Móbile, seu primeiro livro de poemas, escrevi aqui, sete anos atrás: “A poesia de Ana Santos é como esses
discretos ventos benfazejos, que chegam sem alarde e sem aviso. Apenas chegam e instalam uma sensação de sutil bem-estar. No livro
dela não há poemas em voz alta, ninguém sofre de forma desabrida, não há prazeres celestes nem sofrimentos do inferno. Há, sim:
sorrisos tímidos, dores pequeninas e principalmente momentos de poesia pura e singela”.
Sou capaz de repetir agora essas mesmas palavras, após ler seu livro mais recente. Aliás, o próprio título, Voo Breve Sob o Sol, é uma prova
dessa delicadeza, da natureza tênue dos sentimentos que a poesia da autora provoca no leitor.
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Para esta edição, selecionei seis poemas. O primeiro deles é “Voo”. Observadora de flores e pássaros no jardim, a poeta enfrenta
aqui um momento triste: “Morto, o pássaro / está a salvo: / não há risco após a queda”. Mas, delicada, ela não se conforma com
essa suposta salvação. E conclui que o pássaro, embora caído inerte, “talvez / voe dormindo”.
O breve poema “Perigo” identifica os momentos em que surgem certas “memórias submersas”. Ou, pelo lado mais pesado, “um corpo / em busca
de ar”. O que trazem tais memórias?
O poema seguinte, “Negação”, traz outras lembranças do ambiente familiar. A pessoa que fala — mais uma vez, uma mulher — revela
ter medo do porão. “Não descerei ao porão. / No porão é sempre noite, / os maus sonhos persistem / na vigília, /
e os rádios repetem / as piores notícias”. Apavorada, ela revela que esse sentimento tem raízes na infância.
Que terrível susto terá provocado esse medo permanente?
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No próximo texto, “Enfim o Vento”, o temor cede lugar à morte. “Não toquem as rezas, / o riso, a cantiga de roda / de quem morreu”.
Observe-se que, em todos esses poemas, mesmo quando o ambiente é marcado por inescapável dor ou tristeza, o tom pode ser soturno,
porém sempre sereno. Não há choro descontrolado, nem expansivas lamentações.
Vem a seguir “Bíblico”, um poemeto no qual se compara a solidariedade entre pessoas muito pobres a um milagre do Novo Testamento.
Na verdade, um milagre ao inverso, em que eticamente se confundem as operações de dividir e multiplicar.
Por fim, em “Uma Poética”, Ana Costa dos Santos alinha dezenas de fatos e situações isoladas que compõem pequenas centelhas
de poesia, momentos breves em que se acende o rastilho luminoso do fenômeno poético.
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Nascida em Porto Alegre, onde reside, Ana Costa dos Santos é graduada em jornalismo pelo UFRGS, mestra e doutoranda em Estudos
de Literatura pela mesma universidade. Poeta e contista, publicou O que faltava ao peixe (Libretos, 2011, contos);
Móbile (Patuá, 2017, poesia); e Fabulário (Confraria do Vento, 2019, poesia), coletânea de poemas contemplada
com o Prêmio Minas Gerais de Literatura 2017. Por último, a autora publicou Voo Breve Sob o Sol (2025), livro no
qual se baseia esta edição do poesia.net.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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