Amigas e amigos,
A poeta em foco desta edição é a angolana Ana Paula Tavares, que acaba
de ser laureada com o Prêmio Camões 2025. O prêmio, concedido pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Angola; Brasil;
Cabo Verde; Guiné-Bissau; Guiné Equatorial; Moçambique; Portugal; São Tomé e Príncipe; e Timor Leste), foi concedido a
Ana Paula Tavares não apenas pela sua poesia, mas também pela sua “produção em crônica e em ficção narrativa”.
Nascida em 1952 em Lubango, Angola, Ana Paula Ribeiro Tavares (que, nos livros, se assina como Paula Tavares)
é historiadora, antropóloga e pós-graduada em literaturas africanas. Atualmente, reside em Portugal. A autora
considera que
sua escrita sofreu influência de autores brasileiros, como Manuel Bandeira, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade
e João Cabral de Melo Neto.
Sua obra, em poesia, compõe-se dos livros: Ritos de Passagem (1985);
O Lago da Lua (1999); Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001); Ex-votos (2003); Manual
para Amantes Desesperados (2007); e Como Veias Finas na Terra (2007). Todos esses títulos foram publicados
no Brasil, incluídos em Amargos Como os Frutos: Poesia Reunida, volume publicado pela editora carioca Pallas, em 2011.
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Vamos fazer uma breve leitura no volume da poesia reunida de Paula Tavares. Comecemos com o poema “A Manga”, incluído
no livro Ritos de Passagem (1985). Nesse livro, vários poemas são dedicados a frutas, nos quais a autora exercita
sua criatividade lírica, associando esses produtos vegetais à experiência humana. É o caso da manga, aqui elevada à
condição de “Fruta do paraíso / companheira dos deuses”.
O poema seguinte, “[Aquela Mulher]”, vem do livro O Lago da Lua (1999) e traça um belo retrato de uma mulher que
canta na noite. Conforme a poeta, ela na verdade não canta: “abre a boca / e solta os pássaros / que lhe povoam a garganta”.
Em “A Curva do Rio” [do livro Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos (2001)], quem fala é uma mulher, dirigindo-se
ao ser amado. Trata-se de um diálogo corpo a corpo. Diz a primeira estrofe: “Desces a curva do meu corpo, amado /
com o sabor da curva de outros rios / contas as veias e deixas as mãos pousarem / como asas / como vento /
sobre o sopro cansado / sobre o seio desperto”. O próximo poema, “O Lago”, foi
extraído do mesmo livro e mantém idêntica inclinação
para o lirismo amoroso.
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Vem agora “[Pode Ser Que Me Encontres]”, poema que integra o título Manual para Amantes Desesperados (2007).
Aqui o clima não é mais de lirismo acolhedor. Há no ar explícita exasperação: “Pode ser que me encontres /
Como ao escaravelho negro / Dobrada ao chão da décima duna”.
Já em “[Ouço-te Respirar]” o lirismo tépido funde-se a uma expressão metalinguística. “Ouço-te respirar entre as
sílabas do poema / passas as mãos como se respirasses / pela pele do poema”.
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Os dois últimos textos pertencem a Como Veias Finas na Terra (2010), a coletânea mais recente lançada por
Ana Paula Tavares. O poema “VI” começa com uma afirmação fortíssima: “A eternidade é um carro enterrado na lama”.
Pior: aparentemente, a única luz disponível no ambiente vem de um vaga-lume. E não há muita esperança: “Dentro da
eternidade toda / a gente respira / sem oriente nem ocidente”.
Por fim, chega a hora de cair “A Chuva”, um poema em prosa. A autora descreve o sotaque da chuva angolana, que
“usa uma voz fininha para falar uma língua de sopros”. Segundo ela, as crianças logo aprendem a decifrar essa fala pluvial.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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LANÇAMENTO
A poesia é uma bomba
• Uaçaí de Magalhães Lopes
O poeta baiano
Uaçaí de Magalhães Lopes (Feira de Santana, 1957) lança a coletânea A poesia é uma bomba (Editora Mondrongo, 2025).
Quando: Quinta-feira, 13/11/2025, às 19h.
Onde: Miss Brown Café - Av. Rio Branco, 100 - Serraria Brasil - Feira de Santana-BA.
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