Número 562 - Ano 23

Salvador, quarta-feira, 5 de novembro de 2025

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«Uma noite, sentei a beleza no meu colo. — E a achei amarga. — E injuriei-a.» (Arthur Rimbaud) *

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Paula Tavares
Paula Tavares


Amigas e amigos,

A poeta em foco desta edição é a angolana Ana Paula Tavares, que acaba de ser laureada com o Prêmio Camões 2025. O prêmio, concedido pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (Angola; Brasil; Cabo Verde; Guiné-Bissau; Guiné Equatorial; Moçambique; Portugal; São Tomé e Príncipe; e Timor Leste), foi concedido a Ana Paula Tavares não apenas pela sua poesia, mas também pela sua “produção em crônica e em ficção narrativa”.

Nascida em 1952 em Lubango, Angola, Ana Paula Ribeiro Tavares (que, nos livros, se assina como Paula Tavares) é historiadora, antropóloga e pós-graduada em literaturas africanas. Atualmente, reside em Portugal. A autora considera que sua escrita sofreu influência de autores brasileiros, como Manuel Bandeira, Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto.

Sua obra, em poesia, compõe-se dos livros: Ritos de Passagem (1985); O Lago da Lua (1999); Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001); Ex-votos (2003); Manual para Amantes Desesperados (2007); e Como Veias Finas na Terra (2007). Todos esses títulos foram publicados no Brasil, incluídos em Amargos Como os Frutos: Poesia Reunida, volume publicado pela editora carioca Pallas, em 2011.

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Vamos fazer uma breve leitura no volume da poesia reunida de Paula Tavares. Comecemos com o poema “A Manga”, incluído no livro Ritos de Passagem (1985). Nesse livro, vários poemas são dedicados a frutas, nos quais a autora exercita sua criatividade lírica, associando esses produtos vegetais à experiência humana. É o caso da manga, aqui elevada à condição de “Fruta do paraíso / companheira dos deuses”.

O poema seguinte, “[Aquela Mulher]”, vem do livro O Lago da Lua (1999) e traça um belo retrato de uma mulher que canta na noite. Conforme a poeta, ela na verdade não canta: “abre a boca / e solta os pássaros / que lhe povoam a garganta”.

Em “A Curva do Rio” [do livro Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos (2001)], quem fala é uma mulher, dirigindo-se ao ser amado. Trata-se de um diálogo corpo a corpo. Diz a primeira estrofe: “Desces a curva do meu corpo, amado / com o sabor da curva de outros rios / contas as veias e deixas as mãos pousarem / como asas / como vento / sobre o sopro cansado / sobre o seio desperto”. O próximo poema, “O Lago”, foi extraído do mesmo livro e mantém idêntica inclinação para o lirismo amoroso.

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Vem agora “[Pode Ser Que Me Encontres]”, poema que integra o título Manual para Amantes Desesperados (2007). Aqui o clima não é mais de lirismo acolhedor. Há no ar explícita exasperação: “Pode ser que me encontres / Como ao escaravelho negro / Dobrada ao chão da décima duna”.

Já em “[Ouço-te Respirar]” o lirismo tépido funde-se a uma expressão metalinguística. “Ouço-te respirar entre as sílabas do poema / passas as mãos como se respirasses / pela pele do poema”.

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Os dois últimos textos pertencem a Como Veias Finas na Terra (2010), a coletânea mais recente lançada por Ana Paula Tavares. O poema “VI” começa com uma afirmação fortíssima: “A eternidade é um carro enterrado na lama”. Pior: aparentemente, a única luz disponível no ambiente vem de um vaga-lume. E não há muita esperança: “Dentro da eternidade toda / a gente respira / sem oriente nem ocidente”.

Por fim, chega a hora de cair “A Chuva”, um poema em prosa. A autora descreve o sotaque da chuva angolana, que “usa uma voz fininha para falar uma língua de sopros”. Segundo ela, as crianças logo aprendem a decifrar essa fala pluvial.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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LANÇAMENTO


A poesia é uma bomba
• Uaçaí de Magalhães Lopes

LançamentoO poeta baiano Uaçaí de Magalhães Lopes (Feira de Santana, 1957) lança a coletânea A poesia é uma bomba (Editora Mondrongo, 2025).

Quando: Quinta-feira, 13/11/2025, às 19h.

Onde: Miss Brown Café - Av. Rio Branco, 100 - Serraria Brasil - Feira de Santana-BA.


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Pássaros na garganta


• Paula Tavares


              


Cláudio Feliciano - a.quitanda-2020
Cláudio Feliciano, pintor angolano, A quitanda (2020)


A MANGA

Fruta do paraíso
companheira dos deuses
	     as mãos
tiram-lhe a pele
	     dúctil
como, se, de mantos
	     se tratasse
surge a carne chegadinha
	     fio a fio
ao coração:
	  leve
	  morno
	  mastigável
o cheiro permanece
para que a encontrem
	  os meninos
          pelo faro.

[AQUELA MULHER QUE RASGA A NOITE]

Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta



Cláudio Feliciano - Contraste-2021
Cláudio Feliciano, Contraste (2021)


A CURVA DO RIO

Desces a curva do meu corpo, amado
com o sabor da curva de outros rios
contas as veias e deixas as mãos pousarem
como asas
como vento
sobre o sopro cansado
sobre o seio desperto

Parte a canoa e rasga a rede
tens sede de outros rios
olhos de peixes que não conheço
e dedos que sentem em mim a pele arrepiada
d’outro tempo

Sou a esperança cansada da vida
que bebes devagar
no corpo que era meu
e já perdeste
andas em círculos de fogo
à volta do meu cercado
Não entres, por favor não entres
sem os óleos puros do começo
e as laranjas.

O LAGO

Tão manso é o lago dos teus olhos
que temo avançar a mão
cortar as águas
e semear o espanto
na descoberta
da minha sede antiga.



Cláudio Feliciano - O.movimento.de.um.olhar-2019
Cláudio Feliciano, O movimento de um olhar (2019)


[PODE SER QUE ME ENCONTRES]

Pode ser que me encontres
Se caminhares pelas dunas
Sobre a ardência da areia
Por entre as plantas rasteiras

Pode ser que me encontres
Por detrás das dunas

Talvez me encontres
Na décima curva do vento
Molhada ainda do sangue das virgens do sacrifício
Por entre a febre
A arder

Pode ser que me encontres
Como ao escaravelho negro
Dobrada ao chão da décima duna
No corpo as gotas da salvação
Na exacta medida da tua sede

Pode ser que me encontres
No lugar da aranha do deserto
A tecer a teia
De seda e areia

[OUÇO-TE RESPIRAR]

Ouço-te respirar entre as sílabas do poema

passas as mãos como se respirasses
pela pele do poema
os lábios gretados
do tempo

Quando vinhas com palavras
bater-me à porta.



Cláudio Feliciano - Kissongo-2020
Cláudio Feliciano, Kissongo (2020)


VI.

A eternidade é um carro enterrado na lama
Dentro da noite escura
Um pirilampo aceso
Pulsa em silêncio as horas deita
lume dentro da água da chuva

Dentro da eternidade toda
a gente respira
sem oriente nem ocidente

a eternidade navega uma
solidão de lama

A CHUVA

talvez o princípio fosse a chuva assim descendo sobre a terra para a cobrir de lama fértil e cogumelos. A chuva costuma anunciar-se de longe e avança sobre a distância ligando o chão gretado da seca e dos tempos. A chuva sara o próprio ar e é mãe, pai, tecto, templo para todos os viventes grandes e pequenos. Cai sobre a terra ávida vinda não se sabe bem de onde e lambe-lhe as cicatrizes até criar vida de novo a cada ciclo de vento e terra.

De onde eu venho a chuva usa uma voz fininha para falar uma língua de sopros, rente-ao-chão e faz crescer com a lava dessa voz o mundo em volta. Os miúdos aprendem cedo a conhecer os sons da fala, a forma como muda na dobra do vento. Bebem dela a ciência da sede e esticam as asas sob a sua cortina de pérolas.




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Carlos Machado, 2025


 Paula Tavares
      in Amargos como os Frutos - Poesia Reunida
      Pallas, Rio de Janeiro, 2011
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* Arthur Rimbaud, "O Amor", in Uma Temporada no Inferno (1873)
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* Imagens: quadros de Cláudio Feliciano, pintor angolano.