Amigas e amigos,
12 de dezembro de 2025. Este modesto boletim realiza uma proeza nada modesta: completa, galhardamente, 23 anos em circulação — primeiro,
por e-mail e, depois, nas redes sociais Facebook e Instagram. Ergamos uma taça virtual ao poesia.net pelo seu aniversário.
Viva a Poesia!
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Lembrete: este é o último boletim de 2025 com conteúdo poético. Haverá ainda uma edição com a retrospectiva do ano. Em seguida,
o poesia.net entrará no tradicional recesso de verão. Esperamos voltar com mais poesia em fevereiro de 2025. No mais,
um bom fim de ano e um excelente 2025 a todas e todos.
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Este boletim n. 564 é uma edição toda especial. Além do aniversário da publicação, também comemoramos, no mesmo dia 12, os 83 anos
do poeta baiano Ruy Espinheira Filho; e,
no dia 13, 90 anos da poeta mineira Adélia Prado, poeta em foco neste número.
A seleção poética ao lado vem do livro O Jardim das Oliveiras (Record, 2025), lançamento recente da autora. Adélia já esteve
aqui nas edições n. 368, de 2016,
e n. 63, de 2004.
Professora em Divinópolis-MG, cidade onde nasceu em 13 de dezembro de 1935, Adélia Prado publicou sua primeira coletãnea
poética, Bagagem, em 1976. De lá para cá, escreveu muitos outros livros, em verso e prosa, e tornou-se uma das vozes poéticas
mais conhecidas e celebradas da literatura brasileira.
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Passemos à leitura dos poemas de O Jardim das Oliveiras selecionados para este boletim. Comecemos com “Uma História com
Refrão”. Trata-se de memórias de infância e juventude da menina Adélia: “Sentir medo era bom, / a mãe abraçava a gente, /
oh! vida maravilhosa!”. Os fatos se sucedem e sempre são ponteados pelo refrão “oh! vida maravilhosa!”.
No poema seguinte, “Biografia”, uma reflexão sobre o mesmo tema: “Qualquer infância é antiga. / (...) / Já nasce com mil anos
a memória da alma”. Também do território das lembranças vem o texto “A Iniciada”: “A menina de coração sensível e
desmedida fome / fica comendo a vida no quintal./ (...) / um domingo sem fim”. Depois, surge a descoberta do sexo — a “iniciação”
sugerida no título: “E os olhos do homem nela / um susto novo”.
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Em “O Velho da Carrocinha”, Adélia relembra um personagem da cidade do interior. Diomedes, pobre “velho humilhado”. A história
de “Que Beleza” é muito mais graciosa. Volta a menina em sua vida doméstica e escolar.
Este poema compõe uma crônica deliciosa e, em minha opinião, cpnstitui um exemplo daquilo que Adélia Prado trouxe para a literatura
brasileira. Antes dela, a poesia, com pouquíssimas exceções, era ofício de homem. E homem, mesmo os mais modernos como Bandeira
e Drummond, não falaria de questões triviais como a lição de escola da menina e a tarefa de ira à “venda do Alípio”.
Aliás, nem mesmo mulheres-poetas mais “sublimes”, como Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, desceriam a registros tão comuns do cotidiano.
Essa inclusão do feminino doméstico na poesia é um marco na escrita de Adélia.
Suponho que deve ter sido esse traço que encantou Carlos Drummond de Andrade ao conhecer os poemas de Bagagem.
Segundo consta, foi o mestre itabirano que, após ler os poemas de Adélia, sugeriu sua publicação a um editor.
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Vem a seguir o poema “Categorias”. Aqui, a autora, mulher madura, considera os papéis familiares pelos quais já passou
vida afora: “Não nasci assim mãe, / assim avó, / assim tia. / Já fui filhinha, / irmã, / fui coleguinha”. E conclui,
com doce gracejo: “Única e singular, /
já fui louçã. / Agora, / mal começa a manhã, / entra noite, sai dia, /
sou só dona Maria”.
Por fim, em “O Velório”, a ironia prossegue, mesmo em ambiente obrigatoriamente mais formal. Aqui, quem quebra a cerimônia
é um bêbado: “O velório ia animado, alta noite, / quando o bêbado entrou e falou ao finado / — não antes de tirar o chapéu — /
‘a morte é coisa muito importantíssima’.”
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Antes de começar a escrever estes breves comentários, dei por acaso com uma página na internet que explicava o significado de
“pedra 90”, uma gíria antiga, que teria vindo do jogo de sinuca. Segundo aquela página, “pedra 90” é pessoa confiável, de grande
valor, que inspira respeito e admiração.
Então, como a poeta Adélia Prado completa hoje 90 anos, somos obrigados a dizer: Viva Adélia Prado, duas vezes “pedra 90”!
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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