Número 564 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

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«A paixão é como vinho / Passada a embriaguez / Resta um co(r)po vazio.» (Myriam Fraga) *

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Adélia Prado
Adélia Prado


Amigas e amigos,

12 de dezembro de 2025. Este modesto boletim realiza uma proeza nada modesta: completa, galhardamente, 23 anos em circulação — primeiro, por e-mail e, depois, nas redes sociais Facebook e Instagram. Ergamos uma taça virtual ao poesia​.net pelo seu aniversário. Viva a Poesia!

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Lembrete: este é o último boletim de 2025 com conteúdo poético. Haverá ainda uma edição com a retrospectiva do ano. Em seguida, o poesia.​net entrará no tradicional recesso de verão. Esperamos voltar com mais poesia em fevereiro de 2025. No mais, um bom fim de ano e um excelente 2025 a todas e todos.

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Este boletim n. 564 é uma edição toda especial. Além do aniversário da publicação, também comemoramos, no mesmo dia 12, os 83 anos do poeta baiano Ruy Espinheira Filho; e, no dia 13, 90 anos da poeta mineira Adélia Prado, poeta em foco neste número.

A seleção poética ao lado vem do livro O Jardim das Oliveiras (Record, 2025), lançamento recente da autora. Adélia já esteve aqui nas edições n. 368, de 2016, e n. 63, de 2004.

Professora em Divinópolis-MG, cidade onde nasceu em 13 de dezembro de 1935, Adélia Prado publicou sua primeira coletãnea poética, Bagagem, em 1976. De lá para cá, escreveu muitos outros livros, em verso e prosa, e tornou-se uma das vozes poéticas mais conhecidas e celebradas da literatura brasileira.

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Passemos à leitura dos poemas de O Jardim das Oliveiras selecionados para este boletim. Comecemos com “Uma História com Refrão”. Trata-se de memórias de infância e juventude da menina Adélia: “Sentir medo era bom, / a mãe abraçava a gente, / oh! vida maravilhosa!”. Os fatos se sucedem e sempre são ponteados pelo refrão “oh! vida maravilhosa!”.

No poema seguinte, “Biografia”, uma reflexão sobre o mesmo tema: “Qualquer infância é antiga. / (...) / Já nasce com mil anos a memória da alma”. Também do território das lembranças vem o texto “A Iniciada”: “A menina de coração sensível e desmedida fome / fica comendo a vida no quintal./ (...) / um domingo sem fim”. Depois, surge a descoberta do sexo — a “iniciação” sugerida no título: “E os olhos do homem nela / um susto novo”.

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Em “O Velho da Carrocinha”, Adélia relembra um personagem da cidade do interior. Diomedes, pobre “velho humilhado”. A história de “Que Beleza” é muito mais graciosa. Volta a menina em sua vida doméstica e escolar.

Este poema compõe uma crônica deliciosa e, em minha opinião, cpnstitui um exemplo daquilo que Adélia Prado trouxe para a literatura brasileira. Antes dela, a poesia, com pouquíssimas exceções, era ofício de homem. E homem, mesmo os mais modernos como Bandeira e Drummond, não falaria de questões triviais como a lição de escola da menina e a tarefa de ira à “venda do Alípio”.

Aliás, nem mesmo mulheres-poetas mais “sublimes”, como Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa, desceriam a registros tão comuns do cotidiano. Essa inclusão do feminino doméstico na poesia é um marco na escrita de Adélia.

Suponho que deve ter sido esse traço que encantou Carlos Drummond de Andrade ao conhecer os poemas de Bagagem. Segundo consta, foi o mestre itabirano que, após ler os poemas de Adélia, sugeriu sua publicação a um editor.

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Vem a seguir o poema “Categorias”. Aqui, a autora, mulher madura, considera os papéis familiares pelos quais já passou vida afora: “Não nasci assim mãe, / assim avó, / assim tia. / Já fui filhinha, / irmã, / fui coleguinha”. E conclui, com doce gracejo: “Única e singular, / já fui louçã. / Agora, / mal começa a manhã, / entra noite, sai dia, / sou só dona Maria”.

Por fim, em “O Velório”, a ironia prossegue, mesmo em ambiente obrigatoriamente mais formal. Aqui, quem quebra a cerimônia é um bêbado: “O velório ia animado, alta noite, / quando o bêbado entrou e falou ao finado / — não antes de tirar o chapéu — / ‘a morte é coisa muito importantíssima’.”

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Antes de começar a escrever estes breves comentários, dei por acaso com uma página na internet que explicava o significado de “pedra 90”, uma gíria antiga, que teria vindo do jogo de sinuca. Segundo aquela página, “pedra 90” é pessoa confiável, de grande valor, que inspira respeito e admiração.

Então, como a poeta Adélia Prado completa hoje 90 anos, somos obrigados a dizer: Viva Adélia Prado, duas vezes “pedra 90”!


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Adélia é pedra 90!


• Adélia Prado


              


Bela de Kristo - Nature.morte.aux.deux.oranges-1958
Bela de Kristo, pintor húngaro, Natureza-morta com duas laranjas (1958)


UMA HISTÓRIA COM REFRÕES

Por causa da chuva,
a vida toma a presença
de quando eu era menina
e comia de tudo e muito.
O estômago satisfeito
gerava bons pensamentos.
Sentir medo era bom,
a mãe abraçava a gente,
oh! vida maravilhosa!
A oficina parava às quatro e meia,
o pai comia primeiro
pra tomar banho depois.
Tudo ainda por acontecer:
um puxado na casa,
trocar por tacos o piso de tijolos,
lamparinas por lâmpadas,
e, quem sabe, um rádio,
um ferro elétrico.
Oh! vida maravilhosa!
Ideias me beliscando
como piabinhas no córrego
beliscando-me as pernas,
meu noivo e eu nos contínhamos,
teria uma lua de mel para comer sozinha,
cartões nos felicitando,
caixas cheias de presentes.
Oh! vida maravilhosa!
Se cavasse bem
onde morava a Egita benzedeira,
encontraria uma botija estourando de ouro
e quando o menino nascesse
ia tremer de fascínio e medo
pelos cabritinhos que volta e meia
arrombavam a cerca da horta.
Eu imitaria minha mãe
abraçando ele com força:
Tonim, Tonim, é só um cabritim,
e o mel do amor escorreria
dos olhos pro coração.
Oh! vida maravilhosa!

BIOGRAFIA

Qualquer infância é antiga.
Aos quinze anos, já pósteros,
nos lembramos de nós com comovida saudade.
Já nasce com mil anos a memória da alma.


Bela de Kristo - Composition.abstrait
Bela de Kristo, Composição abstrata


A INICIADA

A menina de coração sensível e desmedida fome
fica comendo a vida no quintal.
A flor do mamão-macho: ô cheiro!
O ovo no galinheiro: ô coisa!
Seu país verdadeiro são caminhos de chão,
sol e abelhas,
pai e mãe sem morrer,
um domingo sem fim.
A vida plausível
e os olhos do homem nela,
um susto novo.
E o coração batendo como um surdo.

O VELHO DA CARROCINHA

Diomedes tem os olhos vermelhos,
é trôpego para andar e falar.
A costura de sua calça abriu-se um pouco,
aparece como o de um menino
seu saquinho de velho humilhado.
Esgueira-se dos beirais
de sua desumana pobreza
para pedir esmola feito um santo,
depois de ver falhados seus dois modos decentes de comer:
sua pensão do Estado, a venda de picolés.
‘No tempo de frio, a venda de picolé decai demais
e passo dificuldade com a família,
principalmente de alimentação.’
Diomedes autobiografa-se usando palavras
como convênio, pensão, exame.
É preciso lutar até a ressurreição.
Não perco a fé, não, senhora.’
Eu ouvira direito?
Projetara no velho essas palavras?
Não. Me apoderei delas pra ficar rica.
Foi ele mesmo quem disse, gago e grato:
‘Até a ressurreição, dona!’


Bela de Kristo - Les.antennes-1950
Bela de Kristo, As antenas (1950)


QUE BELEZA

— Acabei o dever de casa, mãe.
— Então guarda o caderno na pasta
e vai na venda do Alípio pra mim.
— Posso não, mãe, ainda falta o rabo.
— Que rabo?
O jeito de acabar a história, uai!
— Deixa sem rabo desta vez.
— Pode não, senão a história não voa.
— Então acaba assim: ‘Que beleza!’
Não pode ‘que beleza’, a história é triste.
— Então põe ‘que tristeza!’.
— A senhora não tá prestando atenção ni mim.
— Tô mesmo não, essa latomia de dever de casa
na hora do almoço me tira do sério,
e se você não for agora na venda do Alípio...
— Já vou, mãe, já vou.
E saiu soluçando de tanta tristeza
que era sua vida de estudar no grupo escolar
Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac.

CATEGORIAS

Não nasci assim mãe,
assim avó,
assim tia.
Já fui filhinha,
irmã,
fui coleguinha.
Única e singular,
já fui louçã.
Agora,
mal começa a manhã,
entra noite, sai dia,
sou só dona Maria.

O VELÓRIO

Vestiram o morto e o puseram na sala
entre velas, flores e conversas
nem um pouco constrangidas.
O velório ia animado, alta noite,
quando o bêbado entrou e falou ao finado
— não antes de tirar o chapéu —
‘a morte é coisa muito importantíssima’.
Tomados de clarividência e susto,
providenciaram o minuto de silêncio para o defunto
e um café amargo para o bêbado.



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Carlos Machado, 2025


 Adélia Prado
      in O Jardim das Oliveiras
      Record, Rio de Janeiro, 2025
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* Myriam Fraga, "Ressaca", in Femina (1996)
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* Imagens: quadros do pintor húngaro Bela de Kristo (1920-2006)