Amigas e amigos,
Este é o primeiro boletim de 2026. Após o tradicional recesso de verão, retornamos para mais um ano de leituras poéticas.
Começamos com uma edição coletiva, baseada na Antologia Selvagem: um bestiário da poesia brasileira contemporânea
(Cavalo Azul, 2025), livro organizado pelos poetas Alexandre Bonafim, Claudio Daniel e Fábio Júlio.
Trata-se de um volume robusto, que reúne (se não errei nas contas) 225 poetas, cada qual com um poema que
envolve um ou vários animais. No prefácio, Alexandre Bonafim observa: “Há, em cada um desses poemas, um gesto de humildade:
a tentativa de ouvir aquilo que não fala, mas significa; de tocar com a palavra aquilo que não se diz, mas se impõe como presença”.
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Dado o amplo número de autores, não foi fácil selecionar nove poemas. [Por que nove? Para mim, inclusive para a montagem da
foto multifacial aí em cima, é mais fácil se forem 4, 9, 16...] Primeiro, marquei os textos que mais me agradavam, coisa que
sempre vou fazendo no decorrer da leitura. Passei, depois, a uma tarefa ainda mais complicada: cortar poemas. Um dos critérios
foi o seguinte: poemas já publicados no poesia.net não entrariam. É o caso, por exemplo, de “Voo”, de
Ana Costa dos Santos, ou de “Os Pássaros”,
de Vera Lúcia de Oliveira.
Outro critério: pus o foco em poemas nos quais um ou vários bichos ocupam o centro da trama — e não apenas aparecem de forma
vaga ou como eventual citação. Depois de tudo, defini os nove poetas da minisseleção ao lado. São eles (seis) e elas (3):
Assionara Souza;
Assis Lima; Carlos Barbosa; Edir Pina de Barros;
Fabrício Marques; Hellington Vieira;
Luíza Mendes Furia; Luís Pimentel; e
Ronaldo Costa Fernandes. Dessa novena de autores,
somente os quatro marcados por um link já apareceram antes aqui no boletim.
Um detalhe: veja informações sobre todos os poetas mais abaixo, nesta coluna.
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Passemos à leitura de nosso pequeno bestiário. O primeiro poema é “Voltar de Novo a Pousar os Olhos”, de
Assionara Souza. Nascida no Rio Grande do Norte, a autora rememora sua terra. Os animais aqui são elevações
da paisagem agreste que lembram elefantes. O final: “Enquanto a criança que fui sonha sempre com o dia em que / Os elefantes
rochosos acordem do sono / Levantem-se e partam em bando / Ao encontro de um glorioso e definitivo ocaso”. Dos nove poetas,
Assionara Souza é a única que não está mais fisicamente entre nós. Radicada em Curitiba-PR, ela infelizmente morreu em
2018, aos 48 anos.
O próximo poema é “O Amigo do Homem”, de Assis Lima, um texto breve. O autor não esconde o tom irônico. Não é para menos:
“Passeando no parque, / convicto em seu carrinho de bebê, / o lindo cachorrinho parecia gente: / não cabia em si de contente”.
A conclusão: o cachorro quer tornar-se humano e o poeta indica o que seria necessário para isso.
No terceiro poema da seleção, “Borboletas Baianas”, o poeta Carlos Barbosa apresenta um relato extraordinário sobre o comércio
e o transporte, “Brasil afora”, de borboletas para criar um clima “poético” em casamentos. Eu jamais imaginei algo semelhante.
Por favor, leiam o poema. Deixo ao autor todo o desenrolar da história.
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Vem a seguir o poema de Luíza Mendes Furia, “Último Instante”, que trata dos minutos finais de uma abelha: “A perna quebrada /
o voo impossível / apesar das asas”. Num texto estruturado em versos curtos e sem apelo sentimental, a poeta
consegue colocar o leitor diante de um fato sobre o qual nunca pensamos: a morte de um ser pequenino como a abelha. E, sendo
morte, é um momento obviamente sem mel.
Agora, mudamos de escala. Saímos da minúscula abelha para as astúcias de uma feroz onça-pintada. Quem nos transporta até a
floresta é a poeta Edir Pina de Barros. Num soneto decassilábico de formato clássico, ela começa descrevendo o felino:
“Sagaz caminha lenta e poderosa, / debaixo das piúvas enfloradas, / na mansidão das ternas madrugadas, / deixando a
bicharada em polvorosa”.
Aí já percebemos o poder do animal, capaz de espalhar o pânico entre suas possíveis presas. Um detalhe: talvez você
não encontre a palavra “piúva” no dicionário. É um dos nomes da árvore também conhecida como ipê-roxo ou pau-d’arco.
Mas prossigamos. No segundo quarteto, a poeta ressalta as manhas da onça-pintada, caçadora atenta e habilidosa.
No primeiro terceto, ela fareja a vítima e “prepara o abraço”. Por fim, avança silenciosa e surpreende mortalmente
uma indefesa capivara.
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Deixemos um animal feroz e rapidíssimo e passemos a outro, que se move em marcha muito lenta. É “A Tartaruga Tartamuda”,
criada pelo mineiro Fabrício Marques. Bicho tranquilo, esse quelônio (segundo o poeta) “só pede calma
ao tempo” e, como tem a carapaça sempre encarquilhada, quer “aprender a envelhecer dentro / da juventude, de ruga em ruga”.
Agora, o poema mais breve de todos ao lado, “Fio de Luz”, do mineiro Hellington Vieira. É um texto relâmpago: tão rápido que
não vale a pena citar um trecho dele. Convido a amiga leitora e o amigo leitor a ler o texto completo aí ao lado.
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O poema “Enigma”, do baiano Luís Pimentel, mantêm um ponto de contato com o “Último Instante”, de Luíza Mendes Furia,
mais acima. Luíza reflete sobre a morte da abelha. Pimentel faz perguntas da mesma natureza: “Para onde fogem os
pássaros / em sua agonia? / Como enfrentam a morte / quando se anuncia?”.
Assim, com uma sequência de indagações, ele também nos faz pensar sobre coisas das quais certamente nunca nos ocupamos.
E não por desleixo, ou desprezo às aves. É porque elas próprias são muito discretas e quase nunca dão notícia de sua morte.
Como diz Pimentel, “O pássaro em pânico / não lamenta a sorte, / não celebra a morte, / pois só sabe a vida”.
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Outra ave — “O Gavião”, do poeta maranhense Ronaldo Costa Fernandes — aparece no último poema de nossa seleta. Aí
explode a ação de outro refinado e mortífero predador, um animal cheio de armas terríveis, como “a algema das garras” e
“o bisturi do bico”. Mas não é só: “O gavião sabe / que a surpresa / é a mestra das armadilhas / e que, nela, / se esconde
a guilhotina do susto”. Ele também sabe que “A morte é pontual / como um relógio enguiçado”. A trilha sonora deste poema só pode
ser de outro maranhense, João do Vale: “Carcará / Pega, mata e come”.
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Embora voltada para um único tema — animais, em sentido bem amplo —, a Antologia Selvagem da Editora Cavalo
Azul oferece ao leitor um alentado painel de como se escreve poesia hoje no Brasil. Afinal, não resta dúvida de
que 225 poetas de todo o país formam um contingente bastante representativo.
E, como vimos aqui, em apenas nove
poemas desfilam animais como elefantes, cão doméstico, borboletas, abelha, onça-pintada, capivara, andorinha,
pássaros genéricos e gavião. Naturalmente, ficaram de fora deste boletim (cito apenas de lembrança) cavalos, lagartos, lagartixas,
vaga-lumes, bois, vacas, pirilampos, morcegos, ufa! Há até um galo de minha autoria, pois também estou incluído
entre os poetas da antologia.
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SOBRE OS AUTORES
• Assionara Souza (Caicó-RN, 1969), escritora e dramaturga, publicou contos, teatro e poesia.
Seus livros de poemas são Alquimista da Chuva (2017); e Instruções para Morder a Palavra Pássaro
(póstumo, 2022). Assionara morreu aos 48 anos, em 2018, vítima de um câncer de intestino.
• Assis Lima (Crato-CE, 1949) - Médico psiquiatra, poeta e pesquisador em cultura popular. Publicou os livros de poesia Breviário (2022);
O Código Íntimo das Coisas (2018); Poemas de Riso e Siso (2017); Terras de Aluvião (2016);
Marco Misterioso (2015); Chão e Sonho (2011); e Poemas Arcanos (2008).
• Carlos Barbosa, jornalista e advogado baiano (Oliveira dos Brejinhos, 1958) é contista, poeta e romancista.
Em poesia, publicou Água de Cacimba (1998); e Matalotagem e Outros Poemas da Viagem (2006).
• Edir Pina de Barros (Ponta-Porã-MS, 1948), é antropóloga,
especialista em povos indígenas e professora aposentada. Tem poemas publicados em várias
revistas e meios eletrônicos. Destaca-se como autora de sonetos.
• Fabrício Marques (Manhuaçu-MG, 1965). Poeta, crítico e editor, publicou
as coletâneas de poesia Samplers
(2000); A Fera Incompletude (2011); e A Máquina de Existir (2018).
• Hellington Vieira (Três Marias-MG, 1978) é poeta e antropólogo. Mora em Lisboa, Portugal, desde 2001.
Publicou Fiapo (2018); Algo Errado (2023); e Rua Nove Casa 21
(2025).
• Luís Pimentel (Feira de Santana-BA, 1953) é jornalista e escritor. Mora no Rio de Janeiro. Publicou mais
de 50 títulos, entre livros infantis, contos, crônicas e poesia. Fez parte do Grupo Hera, de Feira de Santana,
liderado pelos poetas Antonio Brasileiro
e Roberval Pereyr.
• Luíza Mendes Furia (Caçapava-SP, 1961) é jornalista, poeta e tradutora. Publicou Inventário da Solidão
(1998); Vênus em Escorpião (2016); Incisões no Branco (2022); e
Nada nos Resta Senão Cantar (2025).
• Ronaldo Costa Fernandes (São Luís-MA, 1952) é romancista, poeta e ensaísta. No campo da poesia, é autor de onze livros,
entre os quais A Trama do Avesso (2024); A Invenção do Passado (2022); Matadouro de Vozes (2018);
O Difícil Exercício das Cinzas (2014); A Máquina das Mãos (2009); Andarilho (2000); e Estrangeiro (1997).
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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