Número 566 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

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«É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.» (José Saramago) *

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Nove Poetas
Assionara Souza; Assis Lima; Carlos Barbosa; Edir Pina de Barros; Fabrício Marques; Hellington Vieira; Luís Pimentel; Luíza Mendes Furia; Ronaldo Costa Fernandes


Amigas e amigos,

Este é o primeiro boletim de 2026. Após o tradicional recesso de verão, retornamos para mais um ano de leituras poéticas. Começamos com uma edição coletiva, baseada na Antologia Selvagem: um bestiário da poesia brasileira contemporânea (Cavalo Azul, 2025), livro organizado pelos poetas Alexandre Bonafim, Claudio Daniel e Fábio Júlio.

Trata-se de um volume robusto, que reúne (se não errei nas contas) 225 poetas, cada qual com um poema que envolve um ou vários animais. No prefácio, Alexandre Bonafim observa: “Há, em cada um desses poemas, um gesto de humildade: a tentativa de ouvir aquilo que não fala, mas significa; de tocar com a palavra aquilo que não se diz, mas se impõe como presença”.

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Dado o amplo número de autores, não foi fácil selecionar nove poemas. [Por que nove? Para mim, inclusive para a montagem da foto multifacial aí em cima, é mais fácil se forem 4, 9, 16...] Primeiro, marquei os textos que mais me agradavam, coisa que sempre vou fazendo no decorrer da leitura. Passei, depois, a uma tarefa ainda mais complicada: cortar poemas. Um dos critérios foi o seguinte: poemas já publicados no poesia.net não entrariam. É o caso, por exemplo, de “Voo”, de Ana Costa dos Santos, ou de “Os Pássaros”, de Vera Lúcia de Oliveira.

Outro critério: pus o foco em poemas nos quais um ou vários bichos ocupam o centro da trama — e não apenas aparecem de forma vaga ou como eventual citação. Depois de tudo, defini os nove poetas da minisseleção ao lado. São eles (seis) e elas (3): Assionara Souza; Assis Lima; Carlos Barbosa; Edir Pina de Barros; Fabrício Marques; Hellington Vieira; Luíza Mendes Furia; Luís Pimentel; e Ronaldo Costa Fernandes. Dessa novena de autores, somente os quatro marcados por um link já apareceram antes aqui no boletim.

Um detalhe: veja informações sobre todos os poetas mais abaixo, nesta coluna.

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Passemos à leitura de nosso pequeno bestiário. O primeiro poema é “Voltar de Novo a Pousar os Olhos”, de Assionara Souza. Nascida no Rio Grande do Norte, a autora rememora sua terra. Os animais aqui são elevações da paisagem agreste que lembram elefantes. O final: “Enquanto a criança que fui sonha sempre com o dia em que / Os elefantes rochosos acordem do sono / Levantem-se e partam em bando / Ao encontro de um glorioso e definitivo ocaso”. Dos nove poetas, Assionara Souza é a única que não está mais fisicamente entre nós. Radicada em Curitiba-PR, ela infelizmente morreu em 2018, aos 48 anos.

O próximo poema é “O Amigo do Homem”, de Assis Lima, um texto breve. O autor não esconde o tom irônico. Não é para menos: “Passeando no parque, / convicto em seu carrinho de bebê, / o lindo cachorrinho parecia gente: / não cabia em si de contente”. A conclusão: o cachorro quer tornar-se humano e o poeta indica o que seria necessário para isso.

No terceiro poema da seleção, “Borboletas Baianas”, o poeta Carlos Barbosa apresenta um relato extraordinário sobre o comércio e o transporte, “Brasil afora”, de borboletas para criar um clima “poético” em casamentos. Eu jamais imaginei algo semelhante. Por favor, leiam o poema. Deixo ao autor todo o desenrolar da história.

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Vem a seguir o poema de Luíza Mendes Furia, “Último Instante”, que trata dos minutos finais de uma abelha: “A perna quebrada / o voo impossível / apesar das asas”. Num texto estruturado em versos curtos e sem apelo sentimental, a poeta consegue colocar o leitor diante de um fato sobre o qual nunca pensamos: a morte de um ser pequenino como a abelha. E, sendo morte, é um momento obviamente sem mel.

Agora, mudamos de escala. Saímos da minúscula abelha para as astúcias de uma feroz onça-pintada. Quem nos transporta até a floresta é a poeta Edir Pina de Barros. Num soneto decassilábico de formato clássico, ela começa descrevendo o felino: “Sagaz caminha lenta e poderosa, / debaixo das piúvas enfloradas, / na mansidão das ternas madrugadas, / deixando a bicharada em polvorosa”.

Aí já percebemos o poder do animal, capaz de espalhar o pânico entre suas possíveis presas. Um detalhe: talvez você não encontre a palavra “piúva” no dicionário. É um dos nomes da árvore também conhecida como ipê-roxo ou pau-d’arco. Mas prossigamos. No segundo quarteto, a poeta ressalta as manhas da onça-pintada, caçadora atenta e habilidosa. No primeiro terceto, ela fareja a vítima e “prepara o abraço”. Por fim, avança silenciosa e surpreende mortalmente uma indefesa capivara.

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Deixemos um animal feroz e rapidíssimo e passemos a outro, que se move em marcha muito lenta. É “A Tartaruga Tartamuda”, criada pelo mineiro Fabrício Marques. Bicho tranquilo, esse quelônio (segundo o poeta) “só pede calma ao tempo” e, como tem a carapaça sempre encarquilhada, quer “aprender a envelhecer dentro / da juventude, de ruga em ruga”.

Agora, o poema mais breve de todos ao lado, “Fio de Luz”, do mineiro Hellington Vieira. É um texto relâmpago: tão rápido que não vale a pena citar um trecho dele. Convido a amiga leitora e o amigo leitor a ler o texto completo aí ao lado.

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O poema “Enigma”, do baiano Luís Pimentel, mantêm um ponto de contato com o “Último Instante”, de Luíza Mendes Furia, mais acima. Luíza reflete sobre a morte da abelha. Pimentel faz perguntas da mesma natureza: “Para onde fogem os pássaros / em sua agonia? / Como enfrentam a morte / quando se anuncia?”.

Assim, com uma sequência de indagações, ele também nos faz pensar sobre coisas das quais certamente nunca nos ocupamos. E não por desleixo, ou desprezo às aves. É porque elas próprias são muito discretas e quase nunca dão notícia de sua morte. Como diz Pimentel, “O pássaro em pânico / não lamenta a sorte, / não celebra a morte, / pois só sabe a vida”.

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Outra ave — “O Gavião”, do poeta maranhense Ronaldo Costa Fernandes — aparece no último poema de nossa seleta. Aí explode a ação de outro refinado e mortífero predador, um animal cheio de armas terríveis, como “a algema das garras” e “o bisturi do bico”. Mas não é só: “O gavião sabe / que a surpresa / é a mestra das armadilhas / e que, nela, / se esconde a guilhotina do susto”. Ele também sabe que “A morte é pontual / como um relógio enguiçado”. A trilha sonora deste poema só pode ser de outro maranhense, João do Vale: “Carcará / Pega, mata e come”.

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Embora voltada para um único tema — animais, em sentido bem amplo —, a Antologia Selvagem da Editora Cavalo Azul oferece ao leitor um alentado painel de como se escreve poesia hoje no Brasil. Afinal, não resta dúvida de que 225 poetas de todo o país formam um contingente bastante representativo.

E, como vimos aqui, em apenas nove poemas desfilam animais como elefantes, cão doméstico, borboletas, abelha, onça-pintada, capivara, andorinha, pássaros genéricos e gavião. Naturalmente, ficaram de fora deste boletim (cito apenas de lembrança) cavalos, lagartos, lagartixas, vaga-lumes, bois, vacas, pirilampos, morcegos, ufa! Há até um galo de minha autoria, pois também estou incluído entre os poetas da antologia.

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SOBRE OS AUTORES

• Assionara Souza (Caicó-RN, 1969), escritora e dramaturga, publicou contos, teatro e poesia. Seus livros de poemas são Alquimista da Chuva (2017); e Instruções para Morder a Palavra Pássaro (póstumo, 2022). Assionara morreu aos 48 anos, em 2018, vítima de um câncer de intestino.

• Assis Lima (Crato-CE, 1949) - Médico psiquiatra, poeta e pesquisador em cultura popular. Publicou os livros de poesia Breviário (2022); O Código Íntimo das Coisas (2018); Poemas de Riso e Siso (2017); Terras de Aluvião (2016); Marco Misterioso (2015); Chão e Sonho (2011); e Poemas Arcanos (2008).

• Carlos Barbosa, jornalista e advogado baiano (Oliveira dos Brejinhos, 1958) é contista, poeta e romancista. Em poesia, publicou Água de Cacimba (1998); e Matalotagem e Outros Poemas da Viagem (2006).

• Edir Pina de Barros (Ponta-Porã-MS, 1948), é antropóloga, especialista em povos indígenas e professora aposentada. Tem poemas publicados em várias revistas e meios eletrônicos. Destaca-se como autora de sonetos.

• Fabrício Marques (Manhuaçu-MG, 1965). Poeta, crítico e editor, publicou as coletâneas de poesia Samplers (2000); A Fera Incompletude (2011); e A Máquina de Existir (2018).

• Hellington Vieira (Três Marias-MG, 1978) é poeta e antropólogo. Mora em Lisboa, Portugal, desde 2001. Publicou Fiapo (2018); Algo Errado (2023); e Rua Nove Casa 21 (2025).

• Luís Pimentel (Feira de Santana-BA, 1953) é jornalista e escritor. Mora no Rio de Janeiro. Publicou mais de 50 títulos, entre livros infantis, contos, crônicas e poesia. Fez parte do Grupo Hera, de Feira de Santana, liderado pelos poetas Antonio Brasileiro e Roberval Pereyr.

• Luíza Mendes Furia (Caçapava-SP, 1961) é jornalista, poeta e tradutora. Publicou Inventário da Solidão (1998); Vênus em Escorpião (2016); Incisões no Branco (2022); e Nada nos Resta Senão Cantar (2025).

• Ronaldo Costa Fernandes (São Luís-MA, 1952) é romancista, poeta e ensaísta. No campo da poesia, é autor de onze livros, entre os quais A Trama do Avesso (2024); A Invenção do Passado (2022); Matadouro de Vozes (2018); O Difícil Exercício das Cinzas (2014); A Máquina das Mãos (2009); Andarilho (2000); e Estrangeiro (1997).


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Bestiário poético


• Assionara Souza  • Assis Lima
• Carlos Barbosa  • Edir Pina de Barros
• Fabrício Marques • Hellington Vieira
• Luís Pimentel • Luíza Mendes Furia 
• Ronaldo Costa Fernandes


              


Cícero Dias - Mulher e guarda-chuva
Cícero Dias, pintor pernambucano, Mulher e guarda-chuva


• Assionara Souza

VOLTAR DE NOVO A POUSAR OS OLHOS

Voltar de novo a pousar os olhos
Nos elefantes de pedra do sertão
Passivos e silenciosos, engolem
A poeira dos dias em seu repouso sem fim
Sua silhueta búdica se alonga no horizonte árido
Lançando aos viajantes um
Bocejo azul de céu permanente
O vento morno cava superfícies imperceptíveis
Tangendo para mais longe o sentido da eternidade
Enquanto a criança que fui sonha sempre com o dia em que
Os elefantes rochosos acordem do sono
Levantem-se e partam em bando
Ao encontro de um glorioso e definitivo ocaso

• Assis Lima

O AMIGO DO HOMEM

Passeando no parque,
convicto em seu carrinho de bebê,
o lindo cachorrinho parecia gente:
não cabia em si de contente.

Para alcançar a humanidade
e ingressar nas hostes de Caim,
o que lhe faltaria?

Parar de latir e passar ao latim.


Cícero Dias - Sem título
Cícero Dias, Sem título


• Carlos Barbosa

BORBOLETAS BAIANAS

tomo conhecimento das borboletas baianas,
não das que vejo nos jardins,
mas daquelas que voejam em casamentos

nossas borboletas fazem sucesso
em casórios Brasil afora
viajam de avião,
em caixinhas com furos para ventilação

as borboletas são exigência de noivos românticos:
querem com elas embelezar
suas histórias de amor

mas são caras nossas borboletas,
muito caras
precisam ser contadas
para o devido pagamento
e para tanto,
colocam as caixas por um tempinho em geladeiras:
é que assim as borboletas desmaiam
e é possível então fazer a contagem

por fim, as caixas são levadas ao pé do altar
e lá aguardam pelo grande momento,
as sobreviventes

após o beijo do novo casal,
as borboletas são soltas
mas estão fragilizadas, tontas, combalidas

então o pessoal dá o último toque ao show:
batem nas caixas para espantar as borboletas
que se projetam no ar
em arquejo final de vida,
para morrer em seguida em pleno voo

ou onde quer que pousem,
depois de obterem o aplauso da plateia
e ares de extremo contentamento
dos nubentes,
aquele batalhão de borboletas baianas

borboletas que viajaram de avião
e desmaiaram no gelo
em suas curtas vidas de tortura e horror
para beleza e glória do amor

• Luíza Mendes Furia

ÚLTIMO INSTANTE

Vi uma abelha agonizar
na mesa sob a palmeira
— território branco
e áspero.

A perna quebrada
o voo impossível
apesar das asas.

O corpo
antes ereto
em delicado
equilíbrio

cada vez mais
curvo,
fechado
em seu casulo.

A morte é redonda.


Cícero Dias - Casal no barco
Cícero Dias, Casal no barco


• Edir Pina de Barros

ONÇA-PINTADA

Sagaz caminha lenta e poderosa,
debaixo das piúvas enfloradas,
na mansidão das ternas madrugadas,
deixando a bicharada em polvorosa.

E assim se vai atenta, firme e airosa,
na densa mata que, beirando aguadas,
encobre o chão com sombras bem rendadas,
pisando-o devagar, demais manhosa.

Fareja a tenra caça, estanca o passo,
olhar atento, músculos de aço,
prepara o abraço, afia unhas, dentes.

Com suas garras fortes, inclementes,
silente vai, caminha, avança e para,
apresa, de repente, a capivara.

• Fabrício Marques

A TARTARUGA TARTAMUDA

deixem passar, abram alas amiúde
à tartaruga que, de ruga em ruga,
só pede calma ao tempo, tartamuda,
pra aprender a envelhecer dentro
da juventude, de ruga em ruga

• Hellington Vieira

FIO DE LUZ

amor
de andorinha
está sempre por um fio
de luz


Cícero Dias - Duas moças com casas ao fundo-1996
Cícero Dias, Duas moças com casas ao fundo (1996)


• Luís Pimentel

ENIGMA

Para onde fogem os pássaros
em sua agonia?
Como enfrentam a morte
quando se anuncia?

Será que se escondem,
como os elefantes,
muito além dos montes?
Onde eles se exilam?

Onde se desnudam?
Como se aniquilam?

Que bater de asas
diz que o pássaro em chamas
tem o bico trêmulo?
Como se despena?

Despenca do galho?
Vira luz efêmera?

O pássaro em pânico
não lamenta a sorte,
não celebra a morte,
pois só sabe a vida.

Qual será o canto
de sua despedida?

• Ronaldo Costa Fernandes

O GAVIÃO

O primeiro golpe
a vítima do gavião
sofre com a luneta
dos olhos espichados.
Depois a dor da presa
na algema das garras
e, por fim, o bisturi
	     do bico.

O gavião sabe
que a surpresa
é a mestra das armadilhas
e que, nela,
se esconde a guilhotina do susto.
O gavião usa
relógio.
O relógio do gavião
não tem ponteiros:
não há atraso
nem adiantado.
A morte é pontual
como um relógio enguiçado.

O gavião desafia
sua própria sombra
a qual nunca pode alcançar
e voa em círculos
na esperança de que ela,
por cansaço,
tema e, temendo,
comece a se esgarçar.



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Carlos Machado, 2026


 Nove Poetas
      in Antologia Selvagem: um bestiário da poesia brasileira
    contemporânea

      Alexandre Bonafim; Claudio Daniel; Fábio Júlio (orgs.)
      Cavalo Azul, Franca-SP, 2025
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* José Saramago, in O Conto da Ilha Desconhecida (1997)
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* Imagens: quadros do pintor pernambucano Cícero Dias (1907-2003)