Número 567 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 4 de março de 2026

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«Oh abre os vidros de loção / e abafa / o insuportável mau cheiro da memória.» (Carlos Drummond de Andrade) *

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Dalila Teles Veras
Dalila Teles Veras


Amigas e amigos,

A poeta luso-brasileira Dalila Teles Veras (Ilha da Madeira, 1946) é bastante conhecida dos leitores deste boletim. Ela já esteve nesta página nas edições n. 72 (2004); n. 331 (2015); n. 355 (2016); e n. 537 (2024).

Agora, Dalila Teles Veras retorna, trazida pela publicação da plaquete Ínsulas, que acaba de sair pelo Círculo de Poemas. Ínsula é um caderno com miolo de 40 páginas, dividido em três sequências de poemas: “Ínsulas”, “Infusões” e “Faces, fases”. Na verdade, também se pode dizer que são três poemas.

Para este boletim, decidi selecionar o bloco “Infusões”, que vai ao lado. [No original, os textos não têm títulos. Mas, conforme o leitor já sabe, aqui acrescento a cada um, à guisa de título, as primeiras palavras entre colchetes.]

Na plaquete, a autora usa uma epígrafe para o bloco “Infusões”. É um texto da escritora e artista plástica portuguesa Ana Hatherly (1929-2015): “Estas pequenas narrativas, que pertencem à área do poema em prosa [...], são infusões e não efusões”. Portanto, daí vem o título desta pequena coleção de textos em prosa de Dalila Teles Veras. [Curiosidade: observe que as pinturas ao lado são de Ana Hatherly.]

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Passemos à leitura. No total, são oito pequenas “infusões”. Em todas, a poeta descreve ações de mulheres, em seu dia a dia, no cuidado com os filhos e a família. Na primeira, chova ou faça sol, as mulheres se movem e essencialmente defendem os filhos pequenos: “inventam máquinas sugadoras de líquido e engolem o excesso para que o berço permaneça seco e quente”. Conclusão: “Mulheres são anfíbias”.

Na segunda “infusão” “[Constroem casas]”, as mulheres fazem essa construção “dentro de suas próprias casas”. Logo, “são engenheiras”. No texto seguinte, plantam “uma árvore no intervalo para o café”. Além desse extremo dinamismo, controlam a ação de microclimas e “resistem a todo tipo de intempérie”. Portanto, "são ambientalistas".

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Na quarta “infusão”, as mulheres se revelam “magas, estrelas-guias de si próprias”. A próxima conclusão é óbvia. Como sempre atuam em diferentes campos ao mesmo tempo, as “mulheres são ambivalentes”. Até caberia dizer: multivalentes.

A sexta “infusão” contém ideias similares à anterior. As mulheres “seguram os filhos sobre a anca esquerda enquanto mexem o mingau com a mão direita”. Daí não cabe dúvida: “Mulheres são ambidestras”.

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Restam agora as duas últimas partes. Na sétima “infusão”, “[Choram por dentro]”, descobre-se que as “mulheres são ilusionistas”, porém apenas em certas condições. No final, “[Três mulheres tecem]”: trabalham com tecidos, rendas e bordados. São costureiras e bordadeiras, mas com um detalhe: “sempre sob fogo cruzado”.

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As “infusões” de Dalila Teles Veras constituem um vibrante hino à existência sempre maiúscula das mulheres. Ave, Dalila. Ave, mulheres.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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LANÇAMENTO

O impressor
• Marcílio Godoi

LançamentoO ficcionista e poeta Marcílio Godoi lança seu novo romance, O Impressor, que sai pela Editora Patuá.


Quando: sexta-feira, 06/03/2026, das 19h às 22h.

Onde: Rua Luís Murat, 40 - Vila Madalena - São Paulo-SP.

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Infusões femininas


• Dalila Teles Veras


              


Ana Hatherly - Sem título-1971
Ana Hatherly, pintora portuguesa, Sem título (1971)


[DESLOCAM-SE SOB O SOL]

Deslocam-se sob o sol ou sob a chuva, sozinhas ou com os filhos às costas, protegidas por invisíveis guarda-sóis ou guarda-chuvas. Se há goteiras no telhado e a casa alaga, inventam máquinas sugadoras de líquido e engolem o excesso para que o berço permaneça seco e quente. Optam por viver em mar aberto, mas adaptam-se perfeitamente a solos áridos e inóspitos. Mulheres são anfíbias.


[CONSTROEM CASAS]

Constroem casas dentro de suas próprias casas. Arquitetam e fundam mundos, dos quais apenas elas conhecem a cartografia, as ciladas dos caminhos, o segredo dos portais. Mulheres são engenheiras.


[CONSEGUEM PLANTAR]

Conseguem plantar uma árvore no intervalo para o café. Conhecem o tempo da rega e da frutificação. Afinam agulhas nas pedras e costuram redes protetoras para construção de microclimas mais apropriados ao seu habitat. Dividem-se, multiplicam-se e resistem a todo tipo de intempérie e desastre natural. Mulheres são ambientalistas.



Ana Hatherly - Sem título-sem data
Ana Hatherly, Sem título


[ARMAM TRINCHEIRAS FERVENTES]

Armam trincheiras ferventes contra os bárbaros que nada compreendem da língua das infusões, beberagens e poções salvadoras. Mulheres são magas, estrelas-guias de si próprias.


[QUE NINGUÉM SE ILUDA]

Que ninguém se iluda com a fragilidade aparente. Arrobas sobre os ombros retesam os músculos, carga do permanente cuidar. Artilheiras imbatíveis, sempre chutam a bola para o lado oposto ao do salto do goleiro. Mulheres são ambivalentes.


[SEGURAM OS FILHOS]

Seguram os filhos sobre a anca esquerda enquanto mexem o mingau com a mão direita. Se os pequenos (e os grandes) adoecem, medicam com a direita e acariciam com a esquerda. Mulheres são ambidestras.



Ana Hatherly - A romã-1971
Ana Hatherly, A romã (1971)


[CHORAM POR DENTRO]

Choram por dentro. Lágrima não passa de uma palavra em estado líquido. Mulheres são ilusionistas, mas só até assumirem nome e sobrenome.


[TRÊS MULHERES TECEM]

Três mulheres tecem. A primeira trabalha em azul um corpo sobre algodão, um corpo desfiado na horizontal, delimitado pelo ponto-atrás. A segunda borda uma estranha chave bem no centro do bastidor. Na esticadíssima tela, a chave não tranca nem abre, mas expõe. A terceira trança negros e grossos cordões que, volta e meia, soltam-se. Imperturbável, recomeça o macramé à vista da amiga e à mercê de suas próprias mãos. Por um certo apelo rizomático, a visitante decide permanecer ao lado da bordadeira do corpo e, corpo a corpo, estabelece um diálogo feito da linha furta-cor das memórias. Mulheres são costureiras, bordam nas horas mortas, sempre sob fogo cruzado.




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Carlos Machado, 2026


 Dalila Teles Veras
      in Ínsulas
      Círculo de Poemas, São Paulo, 2026
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* Carlos Drummond de Andrade, "Resíduo", in A Rosa do Povo (1945)
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* Imagens: quadros da escritora e pintora portuguesa Ana Hatherly (1929-2015)