Número 568 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 18 de março de 2026

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«Sempre haverá / uma voz / que te chama / de onde o prodígio / não veio.» (Francisco Carvalho) *

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Nílson Galvão
Nílson Galvão


Amigas e amigos,

Atenção: Este é o terceiro boletim de 2026. No entanto, tenho recebido mensagens de assinantes perguntando pelo retorno do poesia.​net após o recesso de janeiro/fevereiro. Sugestão a quem não recebeu os boletins: 1. Verifique se as edições não ficaram retidas em seu e-mail como spam. 2. Em qualquer hipótese, as edições 566, de 18/02/2026, e 567, de 04/03/2026, estão disponíveis nestes links.

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Nesta edição, o poesia.​net tem o prazer de apresentar o poeta Nílson Galvão (Caetité-BA, 1969), que comparece aqui pela primeira vez. Jornalista, poeta e mestre em Comunicação pela UFBA, publicou Caixa Preta (P55 Edições); Ocidente (2012); e O Espiritismo Segundo o Google Street View (Mondrongo, 2017).

Publicou ainda Versos Búdicos (2019), #nibrotas (2020), pela editora Licuri Livros Artesanais, e Cicatriz/Doce Azedo (2021), pela Vento Norte Cartonero, em parceria com a venezuelana Astrid Salazar. Vem, por fim, a coletânea O Inquilino das Horas (Villa Olívia, 2024), volume no qual se baseia este boletim.

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O leitor de O Inquilino das Horas logo percebe que, nesse livro, o autor assenta os pilares de sua poesia no cotidiano. Em meio à correria e à aparente desconexão dos pequenos fatos rotineiros, o poeta expressa o mal-estar do cidadão comum, seus anseios e desorientações.

O poema “Igual a Toda Gente”, por exemplo, começa com a expressão “o dia passa correndo, tento / agarrá-lo pelo colarinho (...)”. E daí segue até o fim, sem pausas, sem ponto para respirar. O texto plasma, no papel, o estado de espírito de alguém que tenta estabelecer algum tipo de controle sobre seu dia, sua vida. E, na correria urbana, não consegue.

O breve poema seguinte, “Classificado”, trata com fina ironia a necessidade do cidadão de parecer bem-sucedido, dono de uma “história de sucesso”. Outro texto com o mesmo tom é “Zeitgeist” (o espírito da época, em alemão). Num canto da praça, algum prédio ou monumento abandonado materializa o sinal dos tempos aos olhos de quem passa.

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Vem a seguir a “Fábula do Gato e do Menino”. Da janela, noite após noite, o menino “conversava” com o gato, que acenava com um milagre lá fora. Problema: “o milagre cegava / se você não o visse”. A história termina de forma indefinida. O gato desapareceu e ninguém sabe se o milagre foi visto ou não. O menino ficou cego? Seria o gato apenas um ser imaginário?

E a ironia continua. Em “O amor é um alimento ultraprocessado”, cientistas encontram um casal fazendo amor num sítio arqueológico. É, na visão do poeta, o amor natural, cru. Daí vem o título do poema: o amor de hoje, condicionado pelas mudanças históricas, é um “alimento ultraprocessado”.

Vem, por fim, o poema “Futuro do Pretérito”. O eu poético, ao passar por um lugar no Vale do Canela (logradouro de Salvador), lembra um episódio pessoal, ali mesmo, muito tempo atrás: “hoje mesmo ao / passar pelo posto eu / revi o futuro do pretérito / e quase acenava, com a / devida discrição, para / a pessoa que eu seria”. Aí está um poema que saúda o “que podia ter sido e que não foi”, para lembrar a expressão de Manuel Bandeira.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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O inquilino das horas


• Nílson Galvão


              


Aldemir Martins - Gato azul
Aldemir Martins, cearense, Gato azul


IGUAL A TODA GENTE

o dia passa correndo, tento
agarrá-lo pelo colarinho mas,
apressado feito o coelho do
livro, o dia me escapa, não
que seja especial, não é nada
especial esse dia esbaforido
que me escapa: mas ele se
parece com a gente neste
sentido, por ser comum, um
dia comum igual a toda
gente, comum, e capaz de
alegrias improváveis, igual a
toda gente, e apressado
e difícil de ser capturado
e mantido assim, sem mudar
mais nada em nossas caixas
de lembranças, igual a toda
gente.

CLASSIFICADO

alugam-se histórias de
sucesso, com vista
pro mar e sauna e
piscina, pra temporada.


Aldemir Martins - Sem título-1971
Aldemir Martins, Galo


ZEITGEIST

no canto da praça
o espírito do tempo
exibe a carcaça.

FÁBULA DO GATO E DO MENINO

tinha um menino que abria a janela
pra um gato que aparecia
noite após noite.

o gato falava sobre um milagre
que tinha lá fora, mas o milagre cegava
se você não visse.

e noite após noite era o gato ir embora
e o menino fechar a janela e pensar:
um dia quem dera.

até que o gato se foi de vez, e o menino
de seus olhos não se sabe, se chegaram a ver
o que cegava, ou se brilharam tanto quanto
a luz daquele milagre jamais visto.


Aldemir Martins - Paisagem
Aldemir Martins, Paisagem (2003)


O AMOR É UM ALIMENTO ULTRAPROCESSADO

o dia de trabalho já tinha
terminado no sítio
arqueológico e de repente,
num lance de sorte, a dupla
de cientistas acabou se
deparando com o amor
como se fazia no tempo
dos caçadores-coletores,
sem qualquer artifício,
colhido ali mesmo e
consumido na hora, cru.

FUTURO DO PRETÉRITO

hoje mesmo ao
passar pelo vale
do canela, bem na
altura do posto de
gasolina, veio do nada
a lembrança de um
emprego bacana
porque tinha parado
ali pra atender à
ligação de alguém
que fez parecer favas
contadas e então não,
não deu certo, isso
já faz muito tempo
mas naquele posto
persiste a imagem de
uma súbita mudança
pra outra cidade, mil
providências, outra
vida, hoje mesmo ao
passar pelo posto eu
revi o futuro do pretérito
e quase acenava, com a
devida discrição, para
a pessoa que eu seria.



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Carlos Machado, 2026


 Nílson Galvão
      in O Inquilino das Horas
      Villa Olívia, Salvador, 2024
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* Francisco Carvalho, "Pomar Alheio", in O Silêncio é Uma Figura Geométrica (2002)
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* Imagens: quadros do pintor cearense Aldemir Martins (1922-2006)