Amigas e amigos,
Atenção: Este é o terceiro boletim de 2026. No entanto, tenho recebido mensagens de assinantes
perguntando pelo retorno do poesia.net após o recesso de janeiro/fevereiro. Sugestão a quem não recebeu
os boletins: 1. Verifique se as edições não ficaram retidas em seu e-mail como spam. 2. Em qualquer hipótese, as
edições 566, de 18/02/2026,
e 567, de 04/03/2026,
estão disponíveis nestes links.
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Nesta edição, o poesia.net tem o prazer de apresentar o poeta Nílson Galvão (Caetité-BA, 1969),
que comparece aqui pela primeira vez. Jornalista, poeta e mestre em Comunicação pela UFBA, publicou
Caixa Preta (P55 Edições); Ocidente (2012); e O Espiritismo Segundo o Google Street View
(Mondrongo, 2017).
Publicou ainda Versos Búdicos (2019), #nibrotas (2020), pela editora Licuri Livros Artesanais,
e Cicatriz/Doce Azedo (2021), pela Vento Norte Cartonero, em parceria com a venezuelana Astrid Salazar.
Vem, por fim, a coletânea O Inquilino das Horas (Villa Olívia, 2024), volume no qual se baseia este boletim.
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O leitor de O Inquilino das Horas logo percebe que, nesse livro, o autor assenta os pilares de sua poesia
no cotidiano. Em meio à correria e à aparente desconexão dos pequenos fatos rotineiros, o poeta expressa o
mal-estar do cidadão comum, seus anseios e desorientações.
O poema “Igual a Toda Gente”, por exemplo, começa com a expressão “o dia passa correndo, tento /
agarrá-lo pelo colarinho (...)”. E daí segue até o fim, sem pausas, sem ponto para respirar. O texto plasma,
no papel, o estado de espírito de alguém que tenta estabelecer algum tipo de controle sobre seu dia, sua vida.
E, na correria urbana, não consegue.
O breve poema seguinte, “Classificado”, trata com fina ironia a necessidade do cidadão de parecer bem-sucedido, dono
de uma “história de sucesso”. Outro texto com o mesmo tom é “Zeitgeist” (o espírito da época, em alemão). Num canto da praça,
algum prédio ou monumento abandonado materializa o sinal dos tempos aos olhos de quem passa.
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Vem a seguir a “Fábula do Gato e do Menino”. Da janela, noite após noite, o menino “conversava” com o gato, que
acenava com um milagre lá fora. Problema: “o milagre cegava / se você não o visse”. A história termina de forma
indefinida. O gato desapareceu e ninguém sabe se o milagre foi visto ou não. O menino ficou cego? Seria o gato
apenas um ser imaginário?
E a ironia continua. Em “O amor é um alimento ultraprocessado”, cientistas encontram um casal fazendo amor num
sítio arqueológico. É, na visão do poeta, o amor natural, cru. Daí vem o título do poema: o amor de hoje,
condicionado pelas mudanças históricas, é um “alimento ultraprocessado”.
Vem, por fim, o poema “Futuro do Pretérito”. O eu poético, ao passar por um lugar no Vale do Canela (logradouro
de Salvador), lembra um episódio pessoal, ali mesmo, muito tempo atrás: “hoje mesmo ao / passar pelo posto eu /
revi o futuro do pretérito / e quase acenava, com a / devida discrição, para / a pessoa que eu seria”. Aí está
um poema que saúda o “que podia ter sido e que não foi”, para lembrar a expressão de Manuel Bandeira.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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