Número 569 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 1 de abril de 2026

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«Nenhuma presença é mais real que a falta.» (Myriam Fraga) *

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Francisco Carvalho
Francisco Carvalho


Amigas e amigos,

Nesta edição n. 569, o poesia.​net revisita a obra do poeta cearense Francisco Carvalho (1927-2013), uma das vozes mais importantes e apreciáveis da poesia brasileira.

Para quem acompanha este já veterano boletim, Francisco Carvalho é sobejamente conhecido. Ele esteve aqui nas seguintes edições: n. 102 (2005); n. 212 (2007); n. 287 (2013); n. 400 (2018); n. 460 (2021); e n. 515 (2023).

Desta vez, fiz nova seleção de poemas com base na antologia Memórias do Espantalho, organizada em 2004 pelo próprio Francisco Carvalho. Publicado pela editora da Universidade Federal do Ceará, esse livro reúne poemas escolhidos de 19 coletâneas do autor.

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Passemos à leitura. Na seleção de seis poemas mostrada ao lado, concentrei a atenção num aspecto que, a meu ver, se destaca na obra de Francisco Carvalho. Trata-se da técnica de brincar com as palavras e, em tom de gracejo, tratar de temas sérios.

É esse recurso que entra em ação no primeiro poema ao lado, “Canção da Pobreza Mutante”. O poeta mostra a permanência da pobreza ao longo do tempo, apesar das mudanças. A organização repetitiva das estrofes apresenta um andamento de ladainha. Depois de cinco mudanças, o resultado é sempre decepcionante. Exemplo: “Muda de espelunca / muda de esperança / muda de bactéria / muda de batistério / muda de religião / porém muda em vão”.

Embora seja longa a lista de alterações nessa pobreza mutante, não há entre elas nenhuma alteração fundamental, capaz de levar a uma verdadeira transformação. Este poema retrata simbolicamente a História do Brasil.

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No poema seguinte, “Cantata”, aparece outra vez a estratégia da repetição. No aspecto visual, os versos se apresentam como ondas do mar sopradas pelo vento e quebrando na praia. A rigor, o poema inteiro (apesar da aparência meio concretista) compõe-se de sete redondilhas maiores (versos setissílabos), sendo que a primeira (“vento / mulher / maresia”) se repete cinco vezes, talvez para imitar o ritmo reiterado do mar. Os dois últimos versos diferem dos demais, embora eles próprios, em suas palavras, contenham alta taxa de repetição.

No cômputo final (quase escrevo “balanço final”, entrando, sem querer, no ritmo das ondas dessa “Cantata”), Francisco Carvalho lança mão de um ritmo ancestral (o setissílabo) e deságua na praia suas águas salgadas, com vento, sugestão de companhia feminina e cheiro de maresia. Noite e dia.

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No poema “Tanto Faz” aparecem, mais uma vez, as repetições e o ritmo das parlendas infantis. Os assuntos introduzidos na cantiga são muitos e aparentemente “normais”. O dia segue, a Terra gira e tudo (horas e eras) permanece igual. E há sempre um verbo (por exemplo: comer, amar, saber, gritar, morrer), mas pouco importa se você se envolve ou não com a ação que ele representa: “Se você ama ou não / ama, tanto faz”. Ou: “Se você grita ou não / grita, tanto faz”.

O leitor mais atento logo vai perceber que este poema propõe o contrário do que está escrito. É falso esse "tanto faz". Na verdade, nessa longa sequência o poeta critica a falta de ação, a inércia, a atitude do “não estou nem aí”. Por mais que não tenhamos controle sobre os “giros orbitais” da terra, podemos, sim, nos opor aos “desígnios venais” (leia-se: falcatruas) do poder. Portanto, é falso o “tanto faz”.

Após uma série de poemas marcados pela técnica da repetição, em “Réquiem para um boia-fria” o andamento do poema muda um pouco. O texto destaca a condição de extrema pobreza do boia-fria morto, à espera de ser enterrado. “Corpo deserto de sonhos”; “tão magro / se dissolve no vento”; “coisa que se evapora”. A conclusão sobre esse corpo é tristíssima: “A bem da verdade / não precisa de cova.”

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Nos dois poemas finais, a criação lírica de Francisco Carvalho se volta para outras formas. Em “Anzol”, o eu poético empreende uma pescaria na qual utiliza “as malhas da memória”. Nesse esforço, consegue fisgar apenas o sentido das coisas e o “desenho das nuvens eróticas”.

Vem, por fim, um poema-homenagem, “Canção para Tom Jobim”. Esse texto foi publicado no livro Centauros Urbanos, de 2003. Tom Jobim já havia falecido fazia cerca de nove anos. São várias as referências à obra e à vida do compositor carioca.

A primeira estrofe diz ao autor de “Águas de março”: “tu és o verdadeiro / irmão do passarim”. É bom lembrar que “Passarim” é uma canção de Jobim, gravada no álbum homônimo de 1987. Depois vêm Leblon, Copacabana e, por fim, um verso de Vinicius de Moraes na letra de “Felicidade”, uma canção de Antonio Carlos Jobim: “tristeza não tem fim”.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Memórias do espantalho


• Francisco Carvalho


              


Rita Cavallari - Tutto rosso
Rita Cavallari, italiana, Tudo vermelho


CANÇÃO DA POBREZA MUTANTE

Muda de barraco
muda de favela
muda de subúrbio
muda de tristeza
muda de solidão
porém muda em vão.

Muda como o vento
muda como a nuvem
muda de tática
muda de técnica
muda de ilusão
porém muda em vão.

Muda de premissa
muda de promessa
muda de problema
muda de potassa
muda de patrão
porém muda em vão.

Muda de espelunca
muda de esperança
muda de bactéria
muda de batistério
muda de religião
porém muda em vão.

Muda de migalha
muda de mortalha
muda de maleta
muda de muleta
muda de barracão
porém muda em vão.

Muda de hábito
muda de álibi
muda de veneno
muda de vizinho
muda de munição
porém muda em vão.

    Do livro As Verdes Águas (1979)


CANTATA

Vento
        mulher
	           maresia
vento
        mulher
	           maresia
vento
        mulher
	           maresia
vento
        mulher
	           maresia
vento
        mulher
	           maresia
todas
        as horas
	           da noite
todas
        as horas
	           do dia.

    Do livro Sonata dos Punhais (1994)


Rita Cavallari - Mulher com flores
Rita Cavallari, Mulher com flores


TANTO FAZ

No dia igual, todas
as coisas são iguais.
Se você come ou não
come, tanto faz.

A terra no seu eixo
em giros orbitais.
Se você ama ou não
ama, tanto faz.

O poder trapaceia
seus desígnios venais.
Se você sabe ou não
sabe, tanto faz.

Na simetria das horas
as eras são desiguais.
Se você pensa ou não
pensa, tanto faz.

O céu por cima de tudo
com todos os seus fanais.
Se você reza ou não
reza, tanto faz.

Os homens já não escutam
as vozes dos ancestrais.
Se você grita ou não
grita, tanto faz.

Chega a hora do velório
e a hora dos esponsais.
Se você beija ou não
beija, tanto faz.

A vida segue o seu curso
entre lobos e chacais.
Se você chama ou não
chama, tanto faz.

O rio que hoje corre
amanhã não corre mais.
Se você morre ou não
morre, tanto faz.

    Do livro Romance da Nuvem Pássaro (1998)


RÉQUIEM PARA UM BOIA-FRIA

Teu corpo desidratado
mordido pela cobra
pelo dragão da fome
e pela tuberculose.
A bem da verdade
não precisa de cova.

Corpo deserto de sonhos
já começa a evaporar
antes mesmo do velório.
Corpo tão breve, tão pouco
flutua na eternidade.
Não precisa de cova.

Nem de caixão precisa
nem de mortalha, nem mesmo
de uma rede de corda.
Um corpo assim tão magro
se dissolve no vento.
Não precisa de cova.

Corpo com tal leveza
no conteúdo e na forma
corpo com tal urgência
de coisa que se evapora.
A bem da verdade
não precisa de cova.

    Do livro O Silêncio é Uma Figura Geométrica (2002)


Rita Cavallari - A gladiadora
Rita Cavallari, A gladiadora


ANZOL

Jogo o meu anzol
nas ondas mansas da tarde.
O peixe e o sonho me escapam

pelas malhas escorregadias
da memória. Inútil
fisgar a palavra entre conchas

e seixos. De real apenas
a matilha dos sentidos, o desenho
barroco das nuvens eróticas.

Tudo na vida é uma pesca de utopias.
— O que se perde na busca
já é coisa morta.

    Do livro Centauros Urbanos (2003)


CANÇÃO PARA TOM JOBIM

Antônio Brasileiro
de Almeida Jobim
tu és o verdadeiro
irmão do passarim.

Nos lábios das meninas
cem beijos de batom
te esperam nas esquinas
das ruas do Leblon.

Copacabana e o mar
têm cheiro de alecrim.
Hora de namorar
o Antônio Passarim.

Chega um rumor do espaço
um riso de Arlequim.
São as águas de março
ao som de um bandolim.

Lágrimas em nossa face
têm gosto de amendoim.
Menina, isto é saudade
do Antônio Passarim.

Diz que faz mas não faz
a vida é sempre assim.
Saudade não tem cheiro
tristeza não tem fim.

    Do livro Centauros Urbanos (2003)



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Carlos Machado, 2026


 Francisco Carvalho
      in Memórias do Espantalho - Poemas Escolhidos
      Imprensa Universitária da UFC, Fortaleza, 2004

* Myriam Fraga, “Calendário: Março”, in Femina (1996)

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* Imagens: quadros da pintora italiana Rita Cavallari