Amigas e amigos,
Nesta edição n. 569, o poesia.net revisita a obra do poeta cearense Francisco Carvalho (1927-2013), uma das
vozes mais importantes e apreciáveis da poesia brasileira.
Para quem acompanha este já veterano boletim, Francisco Carvalho é sobejamente conhecido. Ele esteve aqui nas seguintes edições:
n. 102 (2005);
n. 212 (2007);
n. 287 (2013);
n. 400 (2018);
n. 460 (2021); e
n. 515 (2023).
Desta vez, fiz nova seleção de poemas com base na antologia Memórias do Espantalho, organizada em 2004 pelo próprio
Francisco Carvalho. Publicado pela editora da Universidade Federal do Ceará, esse livro reúne poemas escolhidos de 19
coletâneas do autor.
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Passemos à leitura. Na seleção de seis poemas mostrada ao lado, concentrei a atenção num aspecto que, a meu ver, se destaca
na obra de Francisco Carvalho. Trata-se da técnica de brincar com as palavras e, em tom de gracejo, tratar de temas sérios.
É esse recurso que entra em ação no primeiro poema ao lado, “Canção da Pobreza Mutante”. O poeta mostra a permanência da
pobreza ao longo do tempo, apesar das mudanças. A organização repetitiva das estrofes apresenta um andamento de ladainha.
Depois de cinco mudanças, o resultado é sempre decepcionante. Exemplo: “Muda de espelunca / muda de esperança / muda de
bactéria / muda de batistério / muda de religião / porém muda em vão”.
Embora seja longa a lista de alterações nessa pobreza mutante, não há entre elas nenhuma alteração fundamental, capaz
de levar a uma verdadeira transformação. Este poema retrata simbolicamente a História do Brasil.
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No poema seguinte, “Cantata”, aparece outra vez a estratégia da repetição. No aspecto visual, os versos se apresentam como
ondas do mar sopradas pelo vento e quebrando na praia. A rigor, o poema inteiro (apesar da aparência meio concretista)
compõe-se de sete redondilhas maiores (versos setissílabos), sendo que a primeira (“vento / mulher / maresia”) se repete
cinco vezes, talvez para imitar o ritmo reiterado do mar. Os dois últimos versos diferem dos demais, embora eles próprios,
em suas palavras, contenham alta taxa de repetição.
No cômputo final (quase escrevo “balanço final”, entrando, sem querer, no ritmo das ondas dessa “Cantata”), Francisco
Carvalho lança mão de um ritmo ancestral (o setissílabo) e deságua na praia suas águas salgadas, com vento, sugestão de companhia
feminina e cheiro de maresia. Noite e dia.
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No poema “Tanto Faz” aparecem, mais uma vez, as repetições e o ritmo das parlendas infantis. Os assuntos introduzidos na
cantiga são muitos e aparentemente “normais”. O dia segue, a Terra gira e tudo (horas e eras) permanece igual. E há sempre
um verbo (por exemplo: comer, amar, saber, gritar, morrer), mas pouco importa se você se envolve ou não com a ação que ele
representa: “Se você ama ou não / ama, tanto faz”. Ou: “Se você grita ou não /
grita, tanto faz”.
O leitor mais atento logo vai perceber que este poema propõe o contrário do que está escrito. É falso esse "tanto faz".
Na verdade, nessa longa sequência o poeta critica a falta de ação, a inércia, a atitude do “não estou nem aí”.
Por mais que não tenhamos controle sobre os “giros orbitais” da terra, podemos, sim, nos opor aos “desígnios venais”
(leia-se: falcatruas) do poder. Portanto, é falso o “tanto faz”.
Após uma série de poemas marcados pela técnica da repetição, em “Réquiem para um boia-fria” o andamento do poema muda
um pouco. O texto destaca a condição de extrema pobreza do boia-fria morto, à espera de ser enterrado. “Corpo deserto de
sonhos”; “tão magro / se dissolve no vento”; “coisa que se evapora”. A conclusão sobre esse corpo é tristíssima: “A bem
da verdade / não precisa de cova.”
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Nos dois poemas finais, a criação lírica de Francisco Carvalho se volta para outras formas. Em “Anzol”, o eu poético
empreende uma pescaria na qual utiliza “as malhas da memória”. Nesse esforço, consegue fisgar apenas o sentido das
coisas e o “desenho das nuvens eróticas”.
Vem, por fim, um poema-homenagem, “Canção para Tom Jobim”. Esse texto foi publicado no livro Centauros Urbanos,
de 2003. Tom Jobim já havia falecido fazia cerca de nove anos. São várias as referências à obra e à vida do compositor carioca.
A primeira estrofe diz ao autor de “Águas de março”: “tu és o verdadeiro / irmão do passarim”. É bom lembrar que “Passarim”
é uma canção de Jobim, gravada no álbum homônimo de 1987. Depois vêm Leblon, Copacabana e, por fim, um verso de Vinicius
de Moraes na letra de “Felicidade”, uma canção de Antonio Carlos Jobim: “tristeza não tem fim”.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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