Número 570 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 15 de abril de 2026

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«Tudo na alma é algaravia.» (Antonio Brasileiro) *

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Luís Araujo Pereira
Luís Araujo Pereira


Amigas e amigos,

Mineiro de Pirapora, Luís Araujo Pereira (1946-) radicou-se desde a infância em Goiânia-GO. Formado em Letras pela Universidade Federal de Goiás (UFG), também diplomou-se em Ciências Sociais na Escola de Estudos Avançados, em Paris. Professor de Letras na UFG, foi também cronista e redator publicitário.

No campo da poesia, publicou Ofício Fixo (1968); Poésie Pour Dire Moins (2013) e Raso Quase Fundo (2025). Nesta edição, o poesia.net apresenta poemas deste livro mais recente, produzido pela editora Cavalo Azul.

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Os poemas de Raso Quase Fundo, conforme se pode ler na folha de rosto do livro, foram escritos no período de 2013 a 2019. Para formar a minisseleta ao lado, pincei seis poemas. Vamos à leitura.

Em “Rua das Avencas”, o sujeito poético declara sua completa identidade com uma casa e todo o ambiente que a define: “Esta casa sou eu / os passarinhos / as jabuticabeiras / os pés de jambo / as corujas os ipês / as abelhas / — esta casa sou eu”. A identificação é tão grande que, conforme o narrador, casa e dono permanecem sendo a mesma “pessoa”, até mesmo na ausência dele.

O próximo poema, “Sem”, exibe uma inflexão mais filosófica. O texto reflete sobre a morte. “A gente morre de uma vez? / sem lembrar de ontem? / sem falar adeus?” As perguntas, naturalmente, ficam no ar. O eu poético não oferece respostas e também percebe que não há quem saiba exatamente o que dizer a respeito delas.

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Mais adiante, vêm duas partes de um poema chamado “Sete Canções de Lisboa”. Escolhi as duas porque tratam de figuras muito próximas de quem gosta de poesia. Aí estão “1. Camões” e “2. Pessoa”.

No texto dedicado a Camões, o autor se empolga ao visitar o túmulo do grande lusíada no Mosteiro dos Jerônimos e o chama de “gênio que inventou / o português”. E, na condição de xará do bardo, curva-se como sendo “outro Luís”, “o menor de todos / aos teus pés”.

Em “2. Pessoa”, o poema assume a melancolia do fado, uma “tristeza que cozinha o fel”. O final é também em ritmo de louvação: “Ó Pessoa, não é sem razão / que o fado é a alma de Lisboa”.

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No poema “Três”, o poeta se põe a procurar, hoje, um “jovem / e promissor poeta”. Busca um novo Arthur Rimbaud, um atual Mário Faustino ou uma rediviva Ana Cristina Cesar — aparentemente, poetas de sua afeição. O texto conclui que a pesquisa é inútil: “não se encontra / nenhum”.

Talvez seja o caso de lembrar, mais uma vez, o outro Luís: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. E mais: na cruel e verdadeira dialética camoniana, também se modificam as formas de mudança. Então, de fato não adianta buscar novos jovens, por exemplo: Bandeira, Drummond, Cecília. A não ser com uma generosa dose de mutatis mutandis.

No último texto ao lado, “Oceano”, o poeta costura observações sobre seres marinhos, como camarões, polvos e baleias. E conclui suas divagações de forma irônica. Para ele, o deus romano dos mares, não está nem aí para os habitantes de seus domínios: “Netuno diverte-se com sardinhas / que um dia serão / Coqueiro ou Gomes da Costa”. Da alta esfera do Olimpo para as prosaicas prateleiras do supermercado.

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É possível que o leitor esteja perguntando: “Mas por que o livro se chama Raso Quase Fundo?” A resposta é simples. No poema introdutório do volume, Luís Araujo Pereira apresenta o que ele chama de “descompasso”: “a maior parte / dos meus poemas / é rasa / (...) poucos / porém / são fundos”.

Também no início do livro, o autor transcreve uma charge da cartunista Laerte Coutinho, na qual uma mulher diz: “Eu miro no raso... e acerto no fundo”. Este é, portanto, o substrato com o qual pretende trabalhar seus poemas. Raso, quase fundo.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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LANÇAMENTO

O impressor
• Isabel Maria Sampaio Oliveira Lima

LançamentoA Editora Confraria do Vento e a autora Isabel Maria Sampaio Oliveira Lima convidam para o lançamento da coletânea de poemas Quando Nascente.


Quando: terça-feira, 28/04/2026, das 17h às 20h.

Onde: Livraria Escariz - Rua Fernão de Magalhães, 2992 - Shopping Barra, L2, Salvador-BA.

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Raso quase fundo


• Luís Araujo Pereira


              


André Derain - Madame Matisse in kimono-1905
André Derain, francês, Madame Matisse de kimono (1905)


RUA DAS AVENCAS

Esta casa sou eu
os passarinhos
as jabuticabeiras
os pés de jambo
as corujas os ipês
as abelhas
— esta casa sou eu

Assim como sou eu
estes telhados
este voo ligeiro
de beija-flor
estes manacás
este céu que sou

Sou tudo
o que estes muros
escondem
— esta casa sou eu
até quando
estou longe
eu sou esta casa

SEM

Não sei como é morrer
— aliás, ninguém sabe
o que é morrer

A gente morre de uma vez?
sem lembrar de ontem?
sem falar adeus?

Fechamos os olhos
ajeitamos os ossos
relaxamos os músculos
coagulamos o sangue
pra depois sobrevir a lividez?

Nós morremos sem querer
mas se nascemos não foi pra morrer

Assim como nascemos sem saber
que viemos a este mundo
pra morrer de repente sem saber
e sem querer morrer
— morrer como os cordeiros
finar-se, sem perguntar
para quê


André Derain - Portrait of Madame Francis Carco
André Derain, Retrato de Madame Francis Carco


SETE CANÇÕES DE LISBOA

1. Camões

Nada somos em Lisboa
esse céu — essa brisa
que sopra tantos azuis
— esse mês de junho
de três santos

Ora pro nobis
nobres lusitanos

No mosteiro até que sou
outro Luís onde jazes
meu amigo para sempre
em repouso eterno
à beira-Tejo
— gênio que inventou
o mundo português

Camões,
és o Poeta
enquanto sou apenas
o que sou — mais um luís
o menor de todos
aos teus pés

2. Pessoa

Quando quero ficar triste
muito triste — tristíssimo
eu ouço um fado
senhor Pessoa
o mais tristonho de todos
— um lamento de Lisboa

A tristeza que cozinha o fel
não vem do céu
nem das estrelas
nem da Terra
nem do mar

A tristeza vem da Mouraria
desse longo Tejo que sem querer
recolhe em seu caminho
lágrimas de ruas becos janelas

Ó Pessoa, não é sem razão
que o fado é a alma de Lisboa


André Derain - Jeune homme au chapeau melon
André Derain, Rapaz com chapéu-coco


TRÊS

Procura-se
jovem
e promissor poeta

Rimbaud
Mário Faustino
Ana Cristina Cesar

Procura-se
   :
um dois três

Todavia
— cotovia! —
não se encontra
nenhum

OCEANO

Os camarões nada sabem
dos relevos abissais

Águas sempiternas
rotina de polvos
tubarões baleias tainhas

Cavalos-marinhos por sua vez
escorregam em ondas indomáveis
nas quais águas-vivas flutuam
— gelatina branca transparente

Náufrago de um reino líquido
Netuno diverte-se com sardinhas
que um dia serão
Coqueiro ou Gomes da Costa



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Carlos Machado, 2026

Foto: Rosângela Chaves


 Luís Araujo Pereira
      in Raso quase fundo - (2013-2019)
      Cavalo Azul, Franca-SP, 2025

* Antonio Brasileiro, “Algaravias”, in Dedal de Areia (2006)

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* Imagens: quadros do pintor francês André Derain (1880-1954)