Amigas e amigos,
Poeta já conhecida de quem acompanha este boletim, a potiguar Iara Maria Carvalho acaba de lançar Na Boca do Forno,
seu quarto livro de poemas. Em suas obras anteriores, a autora desliza entre memórias pessoais, sua terra, suas origens.
Neste novo livro, ela dá um passo em outra direção: assume abertamente uma postura feminista. Os poemas, como nos livros anteriores,
tratam do dia a dia, de ocorrências da vida comum. Mas em boa parte deles a personagem que se destaca é sempre uma mulher na condição de vítima.
Obviamente, isso reflete o momento atual brasileiro, marcado por extrema brutalidade contra as mulheres, com numerosos casos de feminicídio.
Vários textos de Na Boca do Forno tratam dessa violência misógina.
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Antes de avançarmos para a leitura dos poemas, destaco um aspecto que me chamou a atenção: os nomes sonoros das quatro seções do livro:
“Caldeirão de Sombras”, “Em Busca da Chama Azul”, “Polvorosa” e “Coração Fosforescente”.
O primeiro poema de nossa pequena seleção é “Comprimida”. O sujeito poético é uma mulher “dobrável”. Diz ela: “Me dobrava / como uma camisa velha /
guardada no fundo / da gaveta”. E continua dobrando-se, de várias formas. O final revela a terrível condição de “comprimida”, indicada no título:
“E eu respirava / entre naftalinas / e sangue pisado”.
No poema “Sinhá”, a seta crítica de Iara Maria Carvalho se volta contra as mulheres que, ao invés de mostrarem solidariedade às suas irmãs de gênero,
associam-se à brutalidade machista. O texto conclui: “há mulheres com H maiúsculo”. MulHeres?
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Vem a seguir o poema “Um Sonho a Menos”. Nele, mais uma vez, a violência está no centro das atenções. A mulher conta que, em sonhos,
“ria muito, de ficar roxa de tanto rir”. Porém, mais uma vez no final, ela revela a verdade: ficava roxa, “mas não era de rir. /
E não era sonho”.
Com um texto curtíssimo, “Equação” dá sinal de mais violência. Neste caso, pode ser física, psicológica — ou ambas. E a mulher,
dona da voz, revela não ter mais um “rosto”, porém um “resto”.
Agora, o último poema de Na Boca do Forno: “Habitus”. Aqui, o eu poético revela um estado de insatisfação e tristeza,
mesmo num ambiente de festa e declarada alegria: “Guardo meu / cardume de lágrimas / em segredo: /
para onde os peixes / nadariam se realmente / soubessem dançar?”
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Enquanto preparava este boletim sobre a coletânea Na Boca do Forno, revisitei a página da autora no Instagram. Lá encontrei
o “Poeminha de Amor Antigo” e decidi mostrá-lo aqui aos leitores do poesia.net.
Nesse delicioso poema, descobre-se um relacionamento realmente antigo, um amor platônico, telefônico e postal. A moça, Iara, é apaixonada
por um namorado distante (ela no Rio Grande do Norte, ele no Sul), que lhe escreve cartas e faz ligações para o orelhão perto de sua casa.
Esse amor, diz o poema, também dói. Mas é algo profundamente diverso da violência denunciada no livro mais recente de Iara Maria Carvalho.
Foi por causa dessa diferença de dores que decidi transcrever aqui o “Poeminha de Amor Antigo”.
Aliás, vale a pena comentar sobre duas palavras do texto. Em dado momento, ela diz que o telenamorado “estava sempre tão brisado”
(o destaque é meu). Eu não conhecia essa gíria. Descobri que significa algo como distraído, pensativo. Mais adiante, ela fala em “cartas
garranchudas”. Aí, ela transfere para as cartas a qualidade das letras mal traçadas do moço distante.
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Iara Maria Carvalho (Currais Novos-RN, 1980) é graduada em letras e mestra em estudos da linguagem pela UFRN. Ativista cultural,
é uma das fundadoras do grupo Casarão de Poesia em sua cidade.
Como poeta, participou de várias antologias coletivas. Em 2011, estreou em livro solo com a coletânea Milagreira. Publicou em
seguida os livros Saraivada (2015), Meia Porção de Sol (2021) e Na Boca do Forno (2026). Além disso, a autora
publica poemas com frequência nas redes sociais.
Iara Maria já esteve, antes, três vezes aqui no boletim: nas edições
n. 461 (2021);
n. 371 (2017); e
n. 349 (2016).
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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