Número 571 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 29 de abril de 2026

poesia.net header

«O passado não reconhece o seu lugar: está sempre presente.» (Mario Quintana) *

Compartilhe pelo WhatsApp

facebook  facebook 
Iara Maria Carvalho
Iara Maria Carvalho


Amigas e amigos,

Poeta já conhecida de quem acompanha este boletim, a potiguar Iara Maria Carvalho acaba de lançar Na Boca do Forno, seu quarto livro de poemas. Em suas obras anteriores, a autora desliza entre memórias pessoais, sua terra, suas origens.

Neste novo livro, ela dá um passo em outra direção: assume abertamente uma postura feminista. Os poemas, como nos livros anteriores, tratam do dia a dia, de ocorrências da vida comum. Mas em boa parte deles a personagem que se destaca é sempre uma mulher na condição de vítima.

Obviamente, isso reflete o momento atual brasileiro, marcado por extrema brutalidade contra as mulheres, com numerosos casos de feminicídio. Vários textos de Na Boca do Forno tratam dessa violência misógina.

•o•

Antes de avançarmos para a leitura dos poemas, destaco um aspecto que me chamou a atenção: os nomes sonoros das quatro seções do livro: “Caldeirão de Sombras”, “Em Busca da Chama Azul”, “Polvorosa” e “Coração Fosforescente”.

O primeiro poema de nossa pequena seleção é “Comprimida”. O sujeito poético é uma mulher “dobrável”. Diz ela: “Me dobrava / como uma camisa velha / guardada no fundo / da gaveta”. E continua dobrando-se, de várias formas. O final revela a terrível condição de “comprimida”, indicada no título: “E eu respirava / entre naftalinas / e sangue pisado”.

No poema “Sinhá”, a seta crítica de Iara Maria Carvalho se volta contra as mulheres que, ao invés de mostrarem solidariedade às suas irmãs de gênero, associam-se à brutalidade machista. O texto conclui: “há mulheres com H maiúsculo”. MulHeres?

•o•

Vem a seguir o poema “Um Sonho a Menos”. Nele, mais uma vez, a violência está no centro das atenções. A mulher conta que, em sonhos, “ria muito, de ficar roxa de tanto rir”. Porém, mais uma vez no final, ela revela a verdade: ficava roxa, “mas não era de rir. / E não era sonho”.

Com um texto curtíssimo, “Equação” dá sinal de mais violência. Neste caso, pode ser física, psicológica — ou ambas. E a mulher, dona da voz, revela não ter mais um “rosto”, porém um “resto”.

Agora, o último poema de Na Boca do Forno: “Habitus”. Aqui, o eu poético revela um estado de insatisfação e tristeza, mesmo num ambiente de festa e declarada alegria: “Guardo meu / cardume de lágrimas / em segredo: / para onde os peixes / nadariam se realmente / soubessem dançar?”

•o•

Enquanto preparava este boletim sobre a coletânea Na Boca do Forno, revisitei a página da autora no Instagram. Lá encontrei o “Poeminha de Amor Antigo” e decidi mostrá-lo aqui aos leitores do poesia​.net.

Nesse delicioso poema, descobre-se um relacionamento realmente antigo, um amor platônico, telefônico e postal. A moça, Iara, é apaixonada por um namorado distante (ela no Rio Grande do Norte, ele no Sul), que lhe escreve cartas e faz ligações para o orelhão perto de sua casa.

Esse amor, diz o poema, também dói. Mas é algo profundamente diverso da violência denunciada no livro mais recente de Iara Maria Carvalho. Foi por causa dessa diferença de dores que decidi transcrever aqui o “Poeminha de Amor Antigo”.

Aliás, vale a pena comentar sobre duas palavras do texto. Em dado momento, ela diz que o telenamorado “estava sempre tão brisado” (o destaque é meu). Eu não conhecia essa gíria. Descobri que significa algo como distraído, pensativo. Mais adiante, ela fala em “cartas garranchudas”. Aí, ela transfere para as cartas a qualidade das letras mal traçadas do moço distante.

•o•

Iara Maria Carvalho (Currais Novos-RN, 1980) é graduada em letras e mestra em estudos da linguagem pela UFRN. Ativista cultural, é uma das fundadoras do grupo Casarão de Poesia em sua cidade.

Como poeta, participou de várias antologias coletivas. Em 2011, estreou em livro solo com a coletânea Milagreira. Publicou em seguida os livros Saraivada (2015), Meia Porção de Sol (2021) e Na Boca do Forno (2026). Além disso, a autora publica poemas com frequência nas redes sociais.

Iara Maria já esteve, antes, três vezes aqui no boletim: nas edições n. 461 (2021); n. 371 (2017); e n. 349 (2016).


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



•o•



Na boca do forno


• Iara Maria Carvalho


              


Akzhana Abdaliyeva - Y las lágrimas ruedan
Akzhana Abdaliyeva, pintora cazaque, E as lágrimas rolam


COMPRIMIDA

Me dobrava
como uma camisa velha
guardada no fundo
da gaveta.

Me dobrava
como um saco plástico
vindo do mercado
— reutilizável.

Me dobrava
como uma conta paga
garantia de nome limpo
e depósito de desejos.

E eu respirava
entre naftalinas
e sangue pisado.

SINHÁ

Pensei que mulheres não silenciavam mulheres.
Pensei que mulheres não violavam mulheres.
Pensei que mulheres não matavam mulheres.
Pensei que mulheres eram, sobretudo, mulheres:
antes de tudo,
principalmente
— Mulheres.

Mas há mulheres com H maiúsculo.


Akzhana Abdaliyeva - Xícara de café
Akzhana Abdaliyeva, Xícara de café


UM SONHO A MENOS

Nos meus sonhos, eu ria.
Ria muito quando ele me batia.
Sabe aquelas crianças malcriadas
que ficam rindo do pai com a cinta?
Eu ria muito, de ficar roxa de tanto rir!

Mas não era de rir.

E não era sonho.

EQUAÇÃO

Seguro meu rosto.
Inseguro, o meu rosto:

um resto.

HABITUS

Penso em coisas tristes.
Todo dia uma coisa triste.
Mesmo as noites alegres
são, no fundo, um grande
e obsceno cenário
de tristeza.

Olho ao meu redor
e vejo pessoas dançando.
Elas dançam sufocadas
de ilusão, com suas almas
descarnadas em
escombros.

Danço com elas,
mas não nos encaramos.
Um oceano no fundo
dos olhos, se vidrado,
nos quebraria
por dentro.

Guardo meu
cardume de lágrimas
em segredo:
para onde os peixes
nadariam se realmente
soubessem dançar?


Akzhana Abdaliyeva - Tazón de fuente azul
Akzhana Abdaliyeva, Tigela azul


POEMINHA DE AMOR ANTIGO

Eu tive um amor
que ligava pro orelhão da
minha rua
e tinha um sotaque sulista
de lamber os beiços.
Nunca vi esse amor nem mordi
seu queixo de barba
tão macia. Ele tinha
um bronze gostoso,
eu não compreendia bem
certas filosofias que
saíam de sua boca, porque
eu só queria beijá-la, mas
ele estava sempre tão brisado
e com milhares de quilômetros de
distância, que eu me satisfazia
com as cartas inundadas
de cheiros que o carteiro tão gentil
me trazia, e com sua
voz quente no orelhão da
minha rua. “Iara, é pra você”,
gritava a vizinha, e eu ficava feliz
com meu amor impossível que
aprendeu a tocar “Luísa”
de Chico Buarque na gaita
só pra mim. “Luísa” viajou milhas
e milhas até o pé do meu
ouvido, será que o prêmio Camões
que o Chico ganhou agora fez
o meu amor lembrar de mim?
Eu sei, sempre fui boba assim.
Já faz mais de vinte anos
e ainda tenho as cartas garranchudas
do meu amor impossível.
Eu amo o impossível.
O impossível não me dói.
Não de uma dor real que se
encontra nos noticiários policiais
ou ainda aquela que fere
pelo silêncio.
A dor do amor impossível
é a de não existir, existindo.
Essa dor de amor, eu perdoo.
As outras, eu ponho na coleção
particular que tenho desde
os doze, e que um dia vou
incendiar junto ao corpo
do último amor que me fizer sofrer.
Saudade, Rafael. Esse era o nome dele,
do melhor amor que tive.



poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
facebook.com/avepoesia
instagram.com/cmachado.poesia
Carlos Machado, 2026


 Iara Maria Carvalho
   • “Comprimida”, “Sinhá”, “Um Sonho a Menos”, “Equação”, “Habitus”
      in Na Boca do Forno
      Editora CJA, Natal-RN, 2026
   • “Poeminha de Amor Antigo”
      Perfil da autora no Instagram

* Mario Quintana, in Caderno H (1973)

______________
* Imagens: quadros da pintora cazaque Akzhana Abdaliyeva (1975-)