Número 572 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 13 de maio de 2026

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«tem que ter palavra para ser humano / tem que ser humano para ter palavra» (Ricardo Aleixo) *

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Paulo Henriques Britto
Paulo Henriques Britto


Amigas e amigos,

Autor já bastante conhecido de quem acompanha este boletim, o carioca Paulo Henriques Britto acaba de lançar novo livro de poesia. Fiel ao seu estilo contido, o volume chama-se Embora (Companhia das Letras (2026). Nesta edição, o poesia​.net traz meia dúzia de poemas dessa coletânea. Vamos a eles.

A seleta ao lado se abre com “Escrito na primeira página de um caderno”, que é também o poema inicial do livro. Trata-se de um metapoema, no qual o poeta reflete sobre o resultado do que se escreve: “Desta vez é pra valer. Vai dar certo”. Mas logo essa certeza fenece: “antes mesmo da página vinte / a promessa se mostra fraudulenta”.

Que fazer diante dessa virada de expectativas, quando conclui que o caderno não será outra coisa senão uma “sepultura de poemas”? Ora, poeta que é poeta não se rende: continua a escrever. "Apesar. Embora”. E daí vem o título da coletânea.

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O próximo texto é a parte “II” do poema “Duas Peças Crepusculares”. Neste soneto o poeta se põe a observar coisas miúdas ao término de um dia urbano. Começa com o canto de uma cigarra, perdido entre o ruído dos automóveis. Depois surge a lua. Paulo Henriques Britto tornou-se um mestre na criação desses quadros discretos, em tom menor. E sempre traz algum achado surpreendente: “O crepúsculo, / ao contrário dos carros, pelo visto, / não tem pressa de estender no céu seu / pano sujo”. Somente este trecho já valeria um poema.

Os dois textos seguintes são as partes “XIII” e “XVI” do poema “Terminais”. A primeira faz uma reflexão sobre o envelhecimento — ou, no dizer do poeta, “a loteria da longevidade”. Ciente de que o fim da jornada se aproxima, o vivente pede tempo. Já sabe que não é mais o ator ou atriz principal do filme, mas insiste em assistir a “mais um trechinho”. Percebe, porém, que as coisas mudaram muito: “Agora, o protagonista de antes / afoga-se num mar de figurantes”.

A parte “XVI” traz mais pensamentos sobre a velhice. Com doses de humor cáustico — e, queira-se ou não, triste —, constata-se que não há saída: “vão-se os anéis e vão-se os dedos”. E pior: “ainda se espera — mas sem esperança”. Observe o leitor que, na última estrofe desse poema, surge, mais uma vez, a conjunção “embora”, o título do livro.

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O “Poema de Ano-Novo” apresenta uma reflexão sobre um hábito comum: fazer o balanço do ano que passou, da vida que veio até aquela virada do calendário. Mas o soneto já começa arrasando essa tradição: “Fazer balanço de quê?”. E, sem ilusões, afirma que o cálculo de “custos e benefícios” existenciais é apenas “uma maneira / de se passar o tempo que ainda resta”.

Chegamos ao último poema de pequena amostra: “Sobre um Mote de Emily Dickinson”. O ponto de partida é o conhecido verso da autora americana, traduzido na primeira frase do texto: “Dizer a verdade, mas torto”. E todo o poema se desenvolve em estender essa ideia de Emily. Destaco a terceira estrofe: “A verdade, mas com o tempero / do grão de sal do sonhado — / pois o verdadeiro vero / não cabe no mero fato”.

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Embora a poesia de Paulo Henriques Britto pareça sugerir acomodação e pessimismo, pode também ser vista de outros ângulos. De um lado, fecha a porta às ilusões ingênuas. De outro, ajuda a encarar a realidade cáustica com bom humor e certo estoicismo. Mas o autor, ele mesmo, não concorda com isso.

Na opinião dele, a poesia não tem a pretensão de oferecer soluções para os grandes problemas do mundo ou para nossas pequenas carências individuais. Em seu entender, o que cabe à poesia é oferecer "o gosto, o som, a cor". Assim termina o soneto “VI” (não transcrito ao lado) da série “Intuitivas”: “Negando a massa da realidade / o poema dá o gosto, o som, a cor, / e de algum modo cumpre o que promete”.

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Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1951-) estreou em 1982 com o livro Liturgia da Matéria e, até hoje, publicou mais oito títulos de poesia: Embora (2026); Fim de Verão (2022); Nenhum Mistério (2018); Formas do Nada (2012); Tarde (2007); Macau (2003); Trovar Claro (1997); e Mínima Lírica (1989).

Tradutor de verso e prosa, Paulo Henriques Britto verteu para o português numerosos livros, entre os quais obras de William Faulkner, Elizabeth Bishop e Charles Dickens. Britto é também professor da PUC-Rio, nas áreas de tradução, criação literária e literatura brasileira. Além disso, é imortal da Academia Brasileira de Letras.

Paulo Henriques Britto já esteve, antes, aqui no poesia​.net nas edições 45 (2003); 412 (2018); e 512 (2023).


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Apesar. Embora.


• Paulo Henriques Britto


              


August Macke - Portrait-with-apples-1909
August Macke, pintor alemão, Retrato com maçãs (1909)


ESCRITO NA PRIMEIRA PÁGINA DE UM CADERNO

Desta vez é pra valer. Vai dar certo.
É a certeza cega que se tem
diante do caderno em branco aberto,
transcendência possível cá no aquém.

Mas antes mesmo da página vinte
a promessa se mostra fraudulenta.
Quanto mais se gasta papel e tinta,
mais forte a impressão (de início inconsciente)

de que o resultado vai ser apenas
um caderno tão sujo e amarfanhado
quanto os antecessores, sepultura

— ou melhor, vala comum — de poemas
que ao fim e ao cabo não deram em nada.
(Escreva, porém. Apesar. Embora.)

DUAS PEÇAS CREPUSCULARES

II

Uma cigarra escandaliza a tarde
que já se escoa ante a indiferença
dos automóveis em algaravia,
todos se arrogando a posse do asfalto.

Não espera a noite essa lua que arde
pálida sem sequer pedir licença
ao sol, embora pareça ser dia
oficialmente, ao menos lá no alto,

onde estrela nenhuma ainda acendeu
seu pisca-pisca inútil. O crepúsculo,
ao contrário dos carros, pelo visto

não tem pressa de estender no céu seu
pano sujo. A cigarra exala o último
compasso, como quem diz: Ah, desisto.


August Macke - Promenade-1913
August Macke, Passeio (1913)


TERMINAIS


XIII

Na loteria da longevidade,
como nas outras, todo mundo perde
invariavelmente, cedo ou tarde.
E na verdade é pouco o que se pede
— só mais um pouco, um pouco mais de sempre:
que essencialmente nada mude muito
por ora. O que se pede, pois, é tempo,
mais tempo pra pedir mais tempo. Tudo
que se quer é assistir mais um trechinho
do filme que se protagonizou
até uns bons dois terços do caminho.
Essa parte do filme já passou.
Agora, o protagonista de antes
afoga-se num mar de figurantes.

XVI

Em boa hora
vão-se os anéis e vão-se os dedos.

O que antes dava orgulho agora
apenas cansa.

Vai-se embora
o luxo inútil do desejo.

Embora
ainda se espere — mas sem esperança.


August Macke - Mulher lendo-1912
August Macke, Mulher lendo (1912)


POEMA DE ANO-NOVO

Fazer balanço de quê? Mesmo sem
que se faça, já se sabe a resposta:
Todo o perdido perdeu-se; e também
quando se fez e se ganhou a aposta,
gastou-se tudo aquilo que foi ganho.
Os cálculos não são nada difíceis.
Assim, diante de um estrago tamanho,
computar os custos e benefícios
não é muito mais do que uma maneira
de se passar o tempo que ainda resta.
(Um passatempo, e não uma besteira,
de modo algum. Coisa muito mais besta
seria basear um teorema
no que rende, no máximo, um poema.)

QUATRO GLOSAS


1. (SOBRE UM MOTE DE EMILY DICKINSON)

      Tell all the truth but tell it slant —


Dizer a verdade, mas torto,
fugindo da tirania
das retas que negam o que é corpo
e o que nele é erro e vida.

Dizer a verdade, não toda,
o que seria pretensão —
só o quanto cabe na boca
sem risco de distensão.

A verdade, mas com o tempero
do grão de sal do sonhado —
pois o verdadeiro vero
não cabe no mero fato.

Verdade, como quem se arrisca,
às cegas, a mergulhar,
por sentir que o chão que pisa
é pouco diante do mar.

Verdade, sim, só que torta,
num ângulo exato só teu —
pra que, quando estiveres morta,
digam: — Foi ela quem torceu.



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Carlos Machado, 2026


 Paulo Henriques Britto
      in Embora
      Companhia das Letras, São Paulo, 2026

* Ricardo Alexo, "Lema", in Mundo Palavreado (2013)

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* Imagens: quadros do pintor expressionista alemão August Macke (1887-1914)