Amigas e amigos,
Autor já bastante conhecido de quem acompanha este boletim, o carioca Paulo Henriques Britto
acaba de lançar novo livro de poesia. Fiel ao seu estilo contido, o volume chama-se Embora (Companhia das Letras (2026).
Nesta edição, o poesia.net traz meia dúzia de poemas dessa coletânea. Vamos a eles.
A seleta ao lado se abre com “Escrito na primeira página de um caderno”, que é também o poema inicial do livro. Trata-se de
um metapoema, no qual o poeta reflete sobre o resultado do que se escreve: “Desta vez é pra valer. Vai dar certo”. Mas logo
essa certeza fenece: “antes mesmo da página vinte / a promessa se mostra fraudulenta”.
Que fazer diante dessa virada de expectativas, quando conclui que o caderno não será outra coisa senão uma “sepultura de poemas”?
Ora, poeta que é poeta não se rende: continua a escrever. "Apesar. Embora”. E daí vem o título da coletânea.
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O próximo texto é a parte “II” do poema “Duas Peças Crepusculares”. Neste soneto o poeta se põe a observar coisas miúdas ao
término de um dia urbano. Começa com o canto de uma cigarra, perdido entre o ruído dos automóveis. Depois surge a lua.
Paulo Henriques Britto tornou-se um mestre na criação desses quadros discretos, em tom menor. E sempre
traz algum achado
surpreendente: “O crepúsculo, / ao contrário dos carros, pelo visto, / não tem pressa de estender no céu seu / pano sujo”.
Somente este trecho já valeria um poema.
Os dois textos seguintes são as partes “XIII” e “XVI” do poema “Terminais”. A primeira faz uma reflexão sobre o envelhecimento
— ou, no dizer do poeta, “a loteria da longevidade”. Ciente de que o fim da jornada se aproxima, o vivente pede tempo.
Já sabe que não é mais o ator ou atriz principal do filme, mas insiste em assistir a “mais um trechinho”. Percebe, porém,
que as coisas mudaram muito: “Agora, o protagonista de antes / afoga-se num mar de figurantes”.
A parte “XVI” traz mais pensamentos sobre a velhice. Com doses de humor cáustico — e, queira-se ou não, triste —,
constata-se que não há saída: “vão-se os anéis e vão-se os dedos”. E pior: “ainda se espera — mas sem esperança”.
Observe o leitor que, na última estrofe desse poema, surge, mais uma vez, a conjunção “embora”, o título do livro.
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O “Poema de Ano-Novo” apresenta uma reflexão sobre um hábito comum: fazer o balanço do ano que passou, da vida que
veio até aquela virada do calendário. Mas o soneto já começa arrasando essa tradição: “Fazer balanço de quê?”.
E, sem ilusões, afirma que o cálculo de “custos e benefícios” existenciais é apenas “uma maneira / de se passar
o tempo que ainda resta”.
Chegamos ao último poema de pequena amostra: “Sobre um Mote de Emily Dickinson”. O ponto de partida é o conhecido verso da
autora americana, traduzido na primeira frase do texto: “Dizer a verdade, mas torto”. E todo o poema se desenvolve
em estender essa ideia de Emily.
Destaco a terceira estrofe: “A verdade, mas com o tempero / do grão de sal do sonhado — / pois o verdadeiro vero /
não cabe no mero fato”.
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Embora a poesia de Paulo Henriques Britto pareça sugerir acomodação e pessimismo, pode também ser vista de outros
ângulos. De um lado, fecha a porta às ilusões ingênuas. De outro, ajuda a encarar a realidade cáustica com bom humor
e certo estoicismo. Mas o autor, ele mesmo, não concorda com isso.
Na opinião dele, a poesia não tem a pretensão de oferecer soluções para os grandes problemas do mundo ou para
nossas pequenas carências individuais. Em seu entender, o que cabe à poesia é oferecer "o gosto, o som, a cor".
Assim termina o soneto “VI” (não transcrito ao lado) da série “Intuitivas”: “Negando a massa da realidade /
o poema dá o gosto, o som, a cor, / e de algum modo cumpre o que promete”.
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Paulo Henriques Britto (Rio de Janeiro, 1951-) estreou em 1982 com o livro Liturgia da Matéria e, até hoje, publicou mais oito
títulos de poesia: Embora (2026); Fim de Verão (2022); Nenhum Mistério (2018); Formas do Nada
(2012); Tarde (2007); Macau (2003); Trovar Claro (1997); e Mínima Lírica (1989).
Tradutor de verso e prosa, Paulo Henriques Britto verteu para o português numerosos livros, entre os quais obras de
William Faulkner, Elizabeth Bishop e Charles Dickens. Britto é também professor da PUC-Rio, nas áreas de tradução,
criação literária e literatura brasileira. Além disso, é imortal da Academia Brasileira de Letras.
Paulo Henriques Britto já esteve, antes, aqui no poesia.net nas edições
45 (2003);
412 (2018); e
512 (2023).
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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