Número 573 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 27 de maio de 2026

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«Nenhuma presença é mais real que a falta.» (Myriam Fraga) *

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Nove Poetas
Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Paulo Mendes Campos, Ferreira Gullar, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Paulo Leminski, Glauco Mattoso


Amigas e amigos,

Já fazia um bom tempo que o poesia.net não apresentava uma edição temática. Agora, com a proximidade da Copa do Mundo, veio-me a ideia de reunir poemas focados no esporte mais popular do Brasil, o futebol. Então, aqui estão alguns de nossos mais celebrados poetas levando a musa aos gramados do esporte bretão.

Na seleção ao lado, encontram-se nove poetas: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto, Paulo Mendes Campos, Ferreira Gullar, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Paulo Leminski e Glauco Mattoso. Como se vê, juntam-se aí poetas de livro e letristas da canção popular. A sequência adotada foi a prioridade etária: primeiro, os que nasceram antes.

Observo que não encontrei nenhum texto de autoria feminina. Mas isso não constitui surpresa: somente nos anos recentes, o futebol passou a ser assunto discutido por mulheres. Aliás, pode-se constatar — no rádio, na tevê e na internet — que hoje figuras femininas talvez já ocupem a maior parte das atividades de narração e comentários esportivos. Obviamente, estava muito longe de ser assim em 2002, ano em que o Brasil se sagrou campeão mundial pela última vez.

Outro detalhe: como é vasta a produção de músicas sobre futebol, a seção ao lado também exibe clipes de canções populares. Clique nas imagens para ver os videoclipes das canções. Mas chega de prolegômenos. Deixemos a bola rolar pelos versos.

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Começamos com Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Poeta e cronista de jornal, Drummond sempre incluiu em sua poesia assuntos do noticiário. Então, naturalmente, escreveu muito sobre futebol. Tanto que Luís Maurício e Pedro Augusto Graña Drummond, seus netos, reuniram contos, crônicas e poemas no livro póstumo Quando é dia de futebol, editado pela primeira vez em 2002.

Os dois poemas de Drummond transcritos ao lado vieram desse livro. No primeiro, “Futebol”, o cronista faz uma reflexão sobre o esporte. Começa com a pergunta: “Futebol se joga no estádio?”. Ele mesmo responde que o lugar do futebol pode ser a praia, a rua, a alma — na Copa do Mundo ou no alto do morro. “A bola é a mesma”, ressalta o poeta. E, portanto, o jogo é aberto, democraticamente, “para craques e pernas de pau”.

Minha ideia inicial era dedicar apenas um poema a cada autor. Contudo, a verve de Drummond me forçou a dedicar a ele mais um poema, “Solução”. Você, leitor, vai me agradecer por ter aberto esta exceção. “Solução” tem, em sua origem, uma história extraordinária, associada à rivalidade entre os clubes Atlético Mineiro e Cruzeiro. Mas não se trata de um confronto físico entre torcedores.

O caso envolve uma batalha judicial entre vizinhos, que resultou no “despejo” de um papagaio atleticano. A ave pertencia a um casal que morava num prédio da Savassi, bairro de Belo Horizonte. O “crime” do louro foi ter aprendido a gritar “Galoo...” e “Gol do Dario” (o jogador Dadá Maravilha). Além disso, irritava os vizinhos cruzeirenses repetindo frases como “Cruzeiro é freguês!”. Exasperados, os torcedores do Cruzeiro e o síndico do prédio entraram na Justiça. A ave, alegaram, “perturbava a ordem pública”.

Por volta de 1972, a Justiça decidiu que o papagaio não poderia mais viver no apartamento. A história conquistou repercussão nacional. Atento ao noticiário, Drummond, com muito bom humor, apresenta uma “Solução” para o caso. Propõe que os cruzeirenses treinem outro papagaio para gritar “Gol do Cruzeiro” e o ponham a disputar com a ave atleticana. “O papagaio vitorioso / proclamado seja campeão”. Aqui entre nós: essa disputa judicial foi uma verdadeira papagaiada (com todo o respeito aos psitacídeos).

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O poema de Vinicius de Moraes (1913-1980) louva o craque Mané Garrincha, “O Anjo das Pernas Tortas”. O poeta lança mão de sua maestria para descrever um ataque do time de Garrincha e Didi, ambos jogadores do Botafogo e da vitoriosa seleção brasileira de 1958.

Há momentos em que a gente, lendo, se entusiasma com a descrição: “Dribla mais um, mais dois; a bola trança / Feliz, entre seus pés — um pé de vento!”. O momento do gol é cheio de invenção poética. A torcida estimula e Garrincha marca. “É pura imagem: um G que chuta um o / Dentro da meta, um l. É pura dança!”. Gooool de Vinicius! O poema é datado de 1962. Observação: talvez, para deixar a leitura mais precisa, as letras G, o e l devessem vir em destaque. É fácil confundir o O minúsculo com o artigo definido e o L minúsculo (o goleiro) com um I, de Inês.

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O carioca Vinicius descreve, entusiasmado, as peripécias de Garrincha. Mais contido e disciplinado, o recifense João Cabral de Melo Neto (1920-1999) analisa o estilo de jogo do craque “Ademir da Guia”. Para Cabral, Ademir da Guia (1942-), considerado o maior ídolo da história do Palmeiras, impunha ao jogo um “ritmo morno”, “de lesma, de câmara lenta”, que entorpecia os adversários. Ademir da Guia, também conhecido como “O Divino”, jogou no Palmeiras entre 1961 e 1977.

É interessante observar que Drummond e a maioria dos poetas falam de futebol como meros observadores. Cabral, ao contrário, teve a oportunidade de conhecer o esporte por dentro. Ele jogou como meio-campista e chegou a ser campeão juvenil pelo Santa Cruz do Recife, em 1935, aos 15 anos. O poeta manteve o interesse pelo esporte durante toda a vida.

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No poema “Círculo Vicioso - 1959”, o poeta mineiro Paulo Mendes Campos (1922-1991) faz uma paródia do soneto de Machado de Assis com o mesmo título. No texto original, um vaga-lume morre de inveja de uma estrela. Esta, também insatisfeita, queria ser a lua, que por sua vez adoraria ser o sol. Uma cadeia de invejas. Mas o sol põe tudo de ponta-cabeça: ele se acha cansado de tanta luz e adoraria ser “um simples vaga-lume”.

Paulo Mendes Campos parte do soneto machadiano e transporta a sequência de invejosos para o mundo do futebol. Macalé, um perna de pau não profissional, inveja Moacir, que joga no Flamengo. Este, por seu turno, vive de olho no Pelé, que brilha no Santos. Pelé suspira pelas jogadas de Garrincha. E o craque botafoguense, cansado, pensa: “Por que não nasci eu um simples Macalé?”. [Atenção: Mendes Campos era botafoguista doente. Eis por que, para ele, o grande astro era Garrincha. Pelé vinha em segundo.]

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O próximo texto da seleção é “O Gol”, do maranhense Ferreira Gullar (1930-2016). Num poema curto e marcado pela sensação de velocidade, Gullar desenha liricamente a feitura de um gol. A primeira frase é puro movimento: “A esfera desce / do espaço / veloz / ele a apara / no peito / e a para / no ar”.

Ele? Quem é ele? Ora, um jogador exímio, num campo de várzea ou no Maracanã. O jogo de palavras com os verbos “parar” e “aparar” ficou sublime. Confere à cena, ao mesmo tempo, a sensação de velocidade e certa confusão. Mais adiante, a sequência se completa com “dispara”. Mas a esfera não vai para dentro do gol, e sim para o coração dos torcedores. Gol de placa no gramado da poesia!

Curioso: encontrei esse poema de Gullar em vários sites na internet, porém nenhum deles informa a origem do texto. Pesquisei nos livros de poesia que tenho de Gullar (quase todos) e não achei “O Gol”. Mesmo assim, resolvi incluí-lo aqui. Não há registro do momento em que o poema foi escrito, mas é bem provável que tenha sido nos últimos anos de vida do poeta.

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Quem vem lá? É o baiano Gilberto Gil (1942-), com a primeira letra de canção de nossa seleta, “Meio de Campo”, uma composição dedicada ao “prezado amigo Afonsinho” — jogador que se destacou como meio-campista em times como Botafogo, Vasco, Santos, Flamengo, América-MG, Madureira e Fluminense.

Afonsinho [Afonso Celso Garcia Reis (Marília-SP, 1947-)] tornou-se muito conhecido também pelo fato de ter sido o primeiro jogador a se tornar dono do próprio passe. Com o passe livre, o atleta pode se transferir, sem que o time de destino tenha de pagar uma indenização ao time anterior. Depois de deixar o futebol, Afonsinho formou-se médico e tornou-se colunista esportivo na revista Carta Capital.

A música de Gilberto Gil foi lançada num compacto simples em 1973. De um lado, “Meio de Campo” e do outro, “Só Quero um Xodó” (Dominguinhos/ Anastácia). No mesmo ano, Elis Regina também gravou a homenagem a Afonsinho.

Na letra de “Meio de Campo”, Gil mistura reflexões artísticas e existenciais (“Eu continuo aqui mesmo / Aperfeiçoando o imperfeito”) com referências ao futebol. Na linha de fundo, o apoio ao atleta, que, por causa de sua luta pelo passe livre, era mal visto e vigiado pela ditadura (na época, governo do general Médici). De quebra, Gil também homenageia os craques da seleção brasileira Pelé e Tostão: “E eu não sou Pelé nem nada / Se muito for, sou um Tostão”. Terrível trocadilho.

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Chega agora a segunda letra de canção: “Geraldinos e Arquibaldos”, trazida pelo cantor e compositor Gonzaguinha (1945-1991), o Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, filho de Luiz Gonzaga, o rei do baião. Aí, o que primeiro nos chama a atenção é o título. Geraldinos e arquibaldos são termos criados pelo cronista Nelson Rodrigues para classificar os torcedores do Maracanã antigo.

Geraldinos eram os que ficavam na geral, lugar mais barato, próximo ao campo. Arquibaldos seriam os da arquibancada (posições mais altas e mais caras). A canção de Gonzaguinha, gravada em 1975, homenageia as duas alas e, com muita ironia, reflete sobre a repressão social e política durante a ditadura militar. Com a modernização do Maracanã, em 2005, e sua transformação em arena, a geral foi destruída e os geraldinos viraram figuras históricas.

A letra começa com uma série interminável de impedimentos e interdições. Tudo é cheio de nãos, mostrando o contexto da época: não faça, não fale, não corra. O autor conclui que os cidadãos estão dentro de uma “cama de gato”. E ali, claro, o gato é quem manda: “Olha a garra dele / É cama de gato / Melhor se cuidar”.

E então vem uma sugestão de como resistir: “No campo do adversário / É bom jogar com muita calma / Procurando pela brecha / Pra poder ganhar”. A linguagem é de futebol, mas o recado é político. Além de ficar atento para achar a brecha, a recomendação é não confiar: “Você me diz que esse goleiro / É titular da seleção / Só vou saber mas é quando eu chutar”.

Gonzaguinha usa aqui a mesma referência já empregada por Gilberto Gil sobre o goleiro da seleção. Certamente, o que se diz é que não adianta tentar um chute a gol, porque esse guarda-redes é quase invencível. Gonzaguinha põe dúvida nisso. Nada, porém, é dito de forma clara. Caso contrário, a música seria vetada pela Censura.

Observem que, no videoclipe mostrado ao lado, Gonzaguinha canta esta canção com variações na letra. Exemplo: "De conversa em conversa / De milagre em milagre / Emtupiu o meu gogó”. Milagre? Sim, o “milagre econômico” da ditadura. “Geraldinos e Arquibaldos” também foi gravada, com sucesso, pela cantora Simone, em 2009.

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Agora, entra em campo o poeta Paulo Leminski (1944-1989). Em “[Quero a Vitória]”, um poemeto sem título, Leminski sonha ver o time de várzea derrotar o campeão por 5x0 “em seu próprio chão”. Seria a glória, apoteose total. Uma situação descrita como o “circo / dentro / do pão”.

Recordemos: na Roma antiga, havia a política do “pão e circo” (panem et circenses), assim chamada pelo poeta Juvenal (século I d.C.). A ideia do Império Romano era controlar a plebe, distribuindo alimentos (pão e trigo) e oferecendo espetáculos gratuitos (lutas no Coliseu, corridas de bigas). Na visão de Leminski, o time de várzea humilhar o adversário poderoso por 5x0 equivale aos dois itens integrados: o circo dentro do pão.

Uma curiosidade: o principal álbum da Tropicália, o movimento musical liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, também se chama Panis et Circencis (assim mesmo, com o latim duplamente estropiado; o correto seria panem et circenses). O poeta concreto Décio Pignatari classificou esse erro, proposital, como um “delicioso provincianismo de vanguarda”. É o latim clássico escrito pela “geleia geral brasileira”.

O poema do 5x0 foi publicado em 1980, no livro independente Não fosse isso e era menos / Não fosse tanto e era quase. Depois, apareceu em Caprichos & Relaxos (Brasiliense, 1983).

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Chega, enfim, nosso último ataque futebolístico no gramado poético. O autor agora é Glauco Mattoso (São Paulo, 1951), recordista mundial na composição de sonetos (já produziu cerca de 6 mil desses poemas). Cego desde 1995 devido ao glaucoma, ele utiliza métrica rigorosa como forma de resistência e organização mental. Poemas de versos livres seriam mais difíceis de controlar sem a visão. Glauco Mattoso (glaucomatoso) é na verdade um pseudônimo, também associado à doença. Oficialmente, o poeta se assina como Pedro José Ferreira da Silva.

Nas 14 linhas do “Soneto para o Jogo Bruto”, Glauco comenta um aspecto comum no futebol: a violência dentro de campo. A descrição foca num zagueiro desleal, que dá carrinhos por trás, “empurra e soca”. Se a marcação falha e um adversário avança, o zagueiro mau-caráter “já troca / o jogo limpo pelo pau da pata”. Assim, o placar não sai do zero a zero: “e, como falta um árbitro severo, / bem alto o zagueirão ergue o solado”. Fim de jogo.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Poesia com os pés na bola


• Carlos Drummond de Andrade
• Vinicius de Moraes  • João Cabral de Melo Neto
• Paulo Mendes Campos  • Ferreira Gullar
• Gilberto Gil  • Gonzaguinha  • Paulo Leminski
• Glauco Mattoso


              


Rita Cavallari - Futebol
Candido Portinari, brasileiro, Futebol (1935)


• Carlos Drummond de Andrade

FUTEBOL

Futebol se joga no estádio?
Futebol se joga na praia,
futebol se joga na rua,
futebol se joga na alma.
A bola é a mesma: forma sacra
para craques e pernas de pau.
Mesma a volúpia de chutar
na delirante copa-mundo
ou no árido espaço do morro.
São voos de estátuas súbitas,
desenhos feéricos, bailados
de pés e troncos entrançados.
Instantes lúdicos: flutua
o jogador, gravado no ar
— afinal, o corpo triunfante
da triste lei da gravidade.



Milton Nascimento: “Aqui é o País do Futebol” (Milton/Fernando Brant, 1970)


SOLUÇÃO

O papagaio atleticano
não vai calar o gol do Galo,
e não é justo nenhum plano
que tenha em mira silenciá-lo.

Evitem, pois, brigas forenses.
Outro projeto, mais certeiro,
aqui proponho aos cruzeirenses:
É ensinar: "Gol do Cruzeiro"

a um papagaio de igual força.
Haja, entre os dois, uma peleja
em que cada mineiro torça,
e, entre foguetes e cerveja,

o papagaio vitorioso
proclamado seja campeão
desse grato esporte verboso
de que sente falta a nação.



Jorge Ben Jor (na época, Jorge Ben): “Fio Maravilha”, 1972


• Vinicius de Moraes

O ANJO DAS PERNAS TORTAS

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés — um pé de vento!

Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gooooool!
É pura imagem: um G que chuta um o
Dentro da meta, um l. É pura dança!



Chico Buarque: “E o Juiz Apitou” (Antonio Almeida/Wilson Batista, 1942)


• João Cabral de Melo Neto

ADEMIR DA GUIA

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.



Skank: “É um jogo de futebol”, música de 1996


• Paulo Mendes Campos

CÍRCULO VICIOSO - 1959

Bailando sem jogar, gemia o Macalé:
— Quem me dera que fosse o preto Moacir,
que vive no Flamengo, estrela a reluzir!
Mas a estrela, fitando em Santos o Pelé:

— Pudesse eu copiar o bom praça de pré,
um cobra que jamais encontrará faquir,
sempre a driblar, a ir e vir, chutando a rir!
Porém, Pelé, fitando o mar sem muita fé:

— Ah se eu tivesse aquela bossa de tourada
que faz de qualquer touro o joão de seu Mané!
Mas o Mané deixando, triste, uma pelada:

— Pois não troco Pau Grande por Madri, Pelé,
e mesmo o Botafogo muito já me enfada…
Por que não nasci eu um simples Macalé?



Chico Buarque: “O Futebol”, composição dele de 2007


• Ferreira Gullar

O GOL

A esfera desce
do espaço
     veloz
ele a apara
no peito
e a para
no ar
     depois
com o joelho
a dispõe à meia altura
onde
iluminada
a esfera
     espera
o chute que
     num relâmpago
a dispara
     na direção
     do nosso
     coração.



Gilberto Gil: “Meio de Campo”, música de 1973


• Gilberto Gil

MEIO DE CAMPO

 
Prezado amigo Afonsinho
Eu continuo aqui mesmo
Aperfeiçoando o imperfeito
Dando um tempo, dando um jeito
Desprezando a perfeição
Que a perfeição é uma meta
Defendida pelo goleiro
Que joga na seleção
E eu não sou Pelé nem nada
Se muito for, sou um Tostão
(Fazer um gol nessa partida não é fácil, meu irmão)



Gonzaguinha: “Geraldinos e Arquibaldos”, de 1975


• Gonzaguinha

GERALDINOS E ARQUIBALDOS

Mamãe não quer, não faça
Papai diz não, não fale
Vovó ralhou, se cale
Vovô gritou, não ande

Placas de rua, não corra
Placas no verde, não pise
No luminoso, não fume
Olha o hospital, silêncio

Sinal vermelho, não siga
Setas de mão, não vire
Vá sempre em frente, nem pense
É contramão

Olha a cama de gato
Olha a garra dele
É cama de gato
Melhor se cuidar

No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar

Nego, é cama de gato
Olha a garra dele
É cama de gato
Melhor se cuidar

No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar

É cama de gato
Olha a garra dele
É cama de gato
Melhor se cuidar

No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar

Acalma a bola, rola a bola, trata a bola
Limpa a bola que é preciso faturar
E esse jogo tá um osso
É um angu que tem caroço
E é preciso desembolar

Nego, se por baixo não tá dando
É melhor tentar por cima
Oi com a cabeça dá
Você me diz que esse goleiro
É titular da seleção
Só vou saber mas é quando eu chutar

É cama de gato
Olha a garra dele
É cama de gato
Melhor se cuidar

No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar

Matilda, Matilda
No campo do adversário
É bom jogar com muita calma
Procurando pela brecha
Pra poder ganhar



Jackson do Pandeiro: “Um a Um” (1954), de Edgar Ferreira


• Paulo Leminski

[QUERO A VITÓRIA]

 
quero a vitória
     do time de várzea
valente
covarde
     a derrota
     do campeão
5 X 0
     em seu próprio chão
           circo
           dentro
           do pão



Carlinhos Vergueiro: “Camisa Molhada” (1976), de Toquinho/Vergueiro


• Glauco Mattoso

SONETO PARA O JOGO BRUTO

 
Zagueiro violento, ele é batata:
carrinhos dá por trás, empurra, soca...
Feliz foi o cronista que o retrata:
"pega, em cada enxadada, uma minhoca".

Se falha a marcação com que combata
um ótimo atacante, ele já troca
o jogo limpo pelo pau da pata...
Quem é que, à sua frente, não pipoca?

Caído o centroavante, mete a chanca
na cara do coitado e, na retranca,
seu time vai mantendo o resultado...

Placar que não saiu do zero a zero
e, como falta um árbitro severo,
bem alto o zagueirão ergue o solado...



poesia.​net
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Carlos Machado, 2026


 • Carlos Drummond de Andrade
    in Quando é dia de futebol
    Companhia das Letras, 1a. ed., São Paulo, 2014
 • Vinicius de Moraes
    in Poesia Completa & Prosa
    Nova Aguilar, 2a. ed., Rio de Janeiro, 1986
 • João Cabral de Melo Neto
    in Obra Completa & Prosa
    Nova Aguilar, 1a. ed. 3a. r., Rio de Janeiro, 1999
 • Paulo Mendes Campos
    in Poemas Reunidos de Paulo Mendes Campos
    Dissertação de mestrado de Betina Leme
    Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas
    Universidade de São Paulo, 2018
 • Ferreira Gullar
    in site Antonio Miranda e outros
 • Gilberto Gil
    in compacto simples “Meio de Campo”/“Só Quero um Xodó”
    Gravadora Philips, Rio de Janeiro, 1973
 • Gonzaguinha
    in álbum Plano de Voo
    Gravadora EMI-Odeon, Rio de Janeiro, 1975
 • Paulo Leminski
    in Caprichos & Relaxos
    Brasiliense, São Paulo, 1983
 • Glauco Mattoso
    in Bravo! – Literatura e futebol
    org. João Gabriel Lima
    Editora Abril, São Paulo, 2010

* Myriam Fraga, "Calendário: Março", in Femina (1996)

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* Primeira imagem, acima: quadro do pintor paulista Candido Portinari (1903-1962)