Amigas e amigos,
Já fazia um bom tempo que o poesia.net não apresentava uma edição temática. Agora,
com a proximidade da Copa do Mundo, veio-me a ideia de reunir poemas focados no esporte
mais popular do Brasil, o futebol. Então, aqui estão
alguns de nossos mais celebrados poetas levando a musa aos gramados do esporte bretão.
Na seleção ao lado, encontram-se nove poetas: Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, João Cabral de Melo Neto,
Paulo Mendes Campos, Ferreira Gullar, Gilberto Gil, Gonzaguinha, Paulo Leminski e Glauco Mattoso. Como se vê,
juntam-se aí poetas de livro e letristas da canção popular. A sequência adotada foi a prioridade etária: primeiro, os
que nasceram antes.
Observo que não encontrei nenhum texto de autoria feminina. Mas isso não constitui surpresa: somente nos anos recentes,
o futebol passou a ser assunto discutido por mulheres. Aliás, pode-se constatar — no rádio, na tevê e na internet — que
hoje figuras femininas talvez já ocupem a maior parte das atividades de narração e comentários esportivos. Obviamente,
estava muito longe de ser assim em 2002, ano em que o Brasil se sagrou campeão mundial pela última vez.
Outro detalhe: como é vasta a produção de músicas sobre futebol, a seção ao lado também exibe clipes
de canções populares. Clique nas imagens para ver os videoclipes das canções. Mas chega de prolegômenos. Deixemos a bola
rolar pelos versos.
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Começamos com Carlos Drummond de Andrade
(1902-1987). Poeta e cronista de jornal, Drummond sempre incluiu em sua poesia assuntos do noticiário. Então, naturalmente,
escreveu muito sobre futebol. Tanto que Luís Maurício e Pedro Augusto Graña Drummond, seus netos, reuniram contos, crônicas
e poemas no livro póstumo Quando é dia de futebol, editado pela primeira vez em 2002.
Os dois poemas de Drummond transcritos ao lado vieram desse livro. No primeiro, “Futebol”, o cronista faz uma reflexão sobre
o esporte. Começa com a pergunta: “Futebol se joga no estádio?”. Ele mesmo responde que o lugar do futebol pode ser a praia,
a rua, a alma — na Copa do Mundo ou no alto do morro. “A bola é a mesma”, ressalta o poeta. E, portanto, o jogo é aberto,
democraticamente, “para craques e pernas de pau”.
Minha ideia inicial era dedicar apenas um poema a cada autor. Contudo, a verve de Drummond me forçou a dedicar a ele mais
um poema, “Solução”. Você, leitor, vai me agradecer por ter aberto esta exceção. “Solução” tem, em sua origem, uma história
extraordinária, associada à rivalidade entre os clubes Atlético Mineiro e Cruzeiro. Mas não se trata de um confronto físico
entre torcedores.
O caso envolve uma batalha judicial entre vizinhos, que resultou no “despejo” de um papagaio atleticano. A ave pertencia
a um casal que morava num prédio da Savassi, bairro de Belo Horizonte. O “crime” do louro foi ter aprendido a gritar
“Galoo...” e “Gol do Dario” (o jogador Dadá Maravilha). Além disso, irritava os vizinhos cruzeirenses repetindo frases
como “Cruzeiro é freguês!”. Exasperados, os torcedores do Cruzeiro e o síndico do prédio entraram na Justiça. A ave,
alegaram, “perturbava a ordem pública”.
Por volta de 1972, a Justiça decidiu que o papagaio não poderia mais viver no apartamento. A história conquistou repercussão
nacional. Atento ao noticiário, Drummond, com muito bom humor, apresenta uma “Solução” para o caso. Propõe que os cruzeirenses
treinem outro papagaio para gritar “Gol do Cruzeiro” e o ponham a disputar com a ave atleticana. “O papagaio vitorioso /
proclamado seja campeão”. Aqui entre nós: essa disputa judicial foi uma verdadeira papagaiada (com todo o respeito aos psitacídeos).
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O poema de Vinicius de Moraes
(1913-1980) louva o craque Mané Garrincha, “O Anjo das Pernas Tortas”. O poeta lança mão de sua maestria para descrever um
ataque do time de Garrincha e Didi, ambos jogadores do Botafogo e da vitoriosa seleção brasileira de 1958.
Há momentos em que a gente, lendo, se entusiasma com a descrição: “Dribla mais um, mais dois; a bola trança / Feliz, entre
seus pés — um pé de vento!”. O momento do gol é cheio de invenção poética. A torcida estimula e Garrincha marca. “É pura imagem:
um G que chuta um o / Dentro da meta, um l. É pura dança!”. Gooool de Vinicius! O poema é datado de 1962.
Observação: talvez, para deixar a leitura mais precisa, as letras G, o e l
devessem vir em destaque. É fácil confundir o O minúsculo com o artigo definido e o L minúsculo (o goleiro) com um I, de Inês.
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O carioca Vinicius descreve, entusiasmado, as peripécias de Garrincha. Mais contido e disciplinado, o recifense
João Cabral de Melo Neto
(1920-1999) analisa o estilo de jogo do craque “Ademir da Guia”. Para Cabral,
Ademir da Guia (1942-), considerado o maior ídolo
da história do Palmeiras, impunha ao jogo um “ritmo morno”, “de lesma, de câmara lenta”, que entorpecia os adversários.
Ademir da Guia, também conhecido como “O Divino”, jogou no Palmeiras entre 1961 e 1977.
É interessante observar que Drummond e a maioria dos poetas falam de futebol como meros observadores. Cabral, ao contrário,
teve a oportunidade de conhecer o esporte por dentro. Ele jogou como meio-campista e chegou a ser campeão juvenil pelo
Santa Cruz do Recife, em 1935, aos 15 anos. O poeta manteve o interesse pelo esporte durante toda a vida.
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No poema “Círculo Vicioso - 1959”, o poeta mineiro
Paulo Mendes Campos (1922-1991)
faz uma paródia do soneto de Machado de Assis com o mesmo título. No texto original, um vaga-lume morre de inveja de uma estrela.
Esta, também insatisfeita, queria ser a lua, que por sua vez adoraria ser o sol. Uma cadeia de invejas. Mas o sol põe tudo
de ponta-cabeça: ele se acha cansado de tanta luz e adoraria ser “um simples vaga-lume”.
Paulo Mendes Campos parte do soneto machadiano e transporta a sequência de invejosos para o mundo do futebol. Macalé, um
perna de pau não profissional, inveja Moacir, que joga no Flamengo. Este, por seu turno, vive de olho no Pelé, que brilha
no Santos. Pelé suspira pelas jogadas de Garrincha. E o craque botafoguense, cansado, pensa: “Por que não nasci eu um simples
Macalé?”. [Atenção: Mendes Campos era botafoguista doente. Eis por que, para ele, o grande astro era Garrincha. Pelé vinha em segundo.]
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O próximo texto da seleção é “O Gol”, do maranhense
Ferreira Gullar (1930-2016).
Num poema curto e marcado pela sensação de velocidade, Gullar desenha liricamente a feitura de um gol. A primeira frase é
puro movimento: “A esfera desce / do espaço / veloz / ele a apara / no peito / e a para / no ar”.
Ele? Quem é ele? Ora, um jogador exímio, num campo de várzea ou no Maracanã. O jogo de palavras com os verbos “parar” e
“aparar” ficou sublime. Confere à cena, ao mesmo tempo, a sensação de velocidade e certa confusão. Mais adiante, a sequência
se completa com “dispara”. Mas a esfera não vai para dentro do gol, e sim para o coração dos torcedores. Gol de placa no
gramado da poesia!
Curioso: encontrei esse poema de Gullar em vários sites na internet, porém nenhum deles informa a origem do texto.
Pesquisei nos livros de poesia que tenho de Gullar (quase todos) e não achei “O Gol”. Mesmo assim, resolvi
incluí-lo aqui. Não há registro do momento em que o poema foi escrito, mas é bem provável que tenha
sido nos últimos anos de vida do poeta.
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Quem vem lá? É o baiano Gilberto Gil (1942-), com a primeira letra de canção de nossa seleta, “Meio de Campo”, uma composição
dedicada ao “prezado amigo Afonsinho” — jogador que se destacou como meio-campista em times como Botafogo, Vasco, Santos,
Flamengo, América-MG, Madureira e Fluminense.
Afonsinho [Afonso Celso Garcia Reis (Marília-SP, 1947-)] tornou-se muito conhecido também pelo fato de ter sido o primeiro
jogador a se tornar dono do próprio passe. Com o passe livre, o atleta pode se transferir, sem que o time de destino tenha
de pagar uma indenização ao time anterior. Depois de deixar o futebol, Afonsinho formou-se médico e tornou-se colunista
esportivo na revista Carta Capital.
A música de Gilberto Gil foi lançada num compacto simples em 1973. De um lado, “Meio de Campo” e do outro, “Só Quero um Xodó”
(Dominguinhos/ Anastácia). No mesmo ano, Elis Regina também gravou a homenagem a Afonsinho.
Na letra de “Meio de Campo”, Gil mistura reflexões artísticas e existenciais (“Eu continuo aqui mesmo / Aperfeiçoando o
imperfeito”) com referências ao futebol. Na linha de fundo, o apoio ao atleta, que, por causa de sua luta pelo passe livre,
era mal visto e vigiado pela ditadura (na época, governo do general Médici). De quebra, Gil também homenageia os craques da
seleção brasileira Pelé e Tostão: “E eu não sou Pelé nem nada / Se muito for, sou um Tostão”. Terrível trocadilho.
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Chega agora a segunda letra de canção: “Geraldinos e Arquibaldos”, trazida pelo cantor e compositor Gonzaguinha
(1945-1991), o Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior, filho de Luiz Gonzaga, o rei do baião. Aí,
o que primeiro nos chama a atenção é o título. Geraldinos e arquibaldos são termos criados pelo cronista Nelson Rodrigues
para classificar os torcedores do Maracanã antigo.
Geraldinos eram os que ficavam na geral, lugar mais barato, próximo ao campo. Arquibaldos seriam os da arquibancada
(posições mais altas e mais caras). A canção de Gonzaguinha, gravada em 1975, homenageia as duas alas e, com muita ironia,
reflete sobre a repressão social e política durante a ditadura militar. Com a modernização do Maracanã, em 2005, e sua
transformação em arena, a geral foi destruída e os geraldinos viraram figuras históricas.
A letra começa com uma série interminável de impedimentos e interdições. Tudo é cheio de nãos, mostrando o contexto da
época: não faça, não fale, não corra. O autor conclui que os cidadãos estão dentro de uma “cama de gato”. E ali, claro,
o gato é quem manda: “Olha a garra dele / É cama de gato / Melhor se cuidar”.
E então vem uma sugestão de como resistir: “No campo do adversário / É bom jogar com muita calma / Procurando pela brecha /
Pra poder ganhar”. A linguagem é de futebol, mas o recado é político. Além de ficar atento para achar a brecha,
a recomendação é não confiar: “Você me diz que esse goleiro / É titular da seleção / Só vou saber mas é quando eu chutar”.
Gonzaguinha usa aqui a mesma referência já empregada por Gilberto Gil sobre o goleiro da seleção. Certamente,
o que se diz é que não adianta tentar um chute a gol, porque esse guarda-redes é quase invencível. Gonzaguinha
põe dúvida nisso. Nada, porém, é dito de forma clara. Caso contrário, a música seria vetada pela Censura.
Observem que, no videoclipe
mostrado ao lado, Gonzaguinha canta esta canção com variações na letra. Exemplo:
"De conversa em conversa / De milagre em milagre / Emtupiu o meu gogó”. Milagre? Sim, o “milagre econômico” da ditadura.
“Geraldinos e Arquibaldos” também foi gravada, com sucesso, pela cantora
Simone, em 2009.
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Agora, entra em campo o poeta Paulo Leminski
(1944-1989). Em “[Quero a Vitória]”, um poemeto sem título, Leminski sonha ver o time de várzea derrotar o campeão por 5x0 “em seu próprio chão”.
Seria a glória, apoteose total. Uma situação descrita como o “circo / dentro / do pão”.
Recordemos: na Roma antiga, havia a política do “pão e circo” (panem et circenses), assim chamada pelo poeta Juvenal
(século I d.C.). A ideia do Império Romano era controlar a plebe, distribuindo alimentos (pão e trigo) e oferecendo espetáculos
gratuitos (lutas no Coliseu, corridas de bigas). Na visão de Leminski, o time de várzea humilhar o adversário poderoso por
5x0 equivale aos dois itens integrados: o circo dentro do pão.
Uma curiosidade: o principal álbum da Tropicália, o movimento musical liderado por Caetano Veloso e Gilberto Gil, também
se chama Panis et Circencis (assim mesmo, com o latim duplamente estropiado; o correto seria panem et circenses).
O poeta concreto Décio Pignatari classificou esse erro, proposital, como um “delicioso provincianismo de vanguarda”.
É o latim clássico escrito pela “geleia geral brasileira”.
O poema do 5x0 foi publicado em 1980, no livro independente Não fosse isso e era menos / Não fosse tanto e era quase. Depois,
apareceu em Caprichos & Relaxos (Brasiliense, 1983).
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Chega, enfim, nosso último ataque futebolístico no gramado poético. O
autor agora é Glauco Mattoso (São Paulo, 1951),
recordista mundial na composição de sonetos (já produziu cerca de 6 mil desses poemas). Cego desde 1995 devido ao
glaucoma, ele utiliza métrica rigorosa como forma de resistência e organização mental. Poemas de versos livres seriam mais
difíceis de controlar sem a visão. Glauco Mattoso (glaucomatoso) é na verdade um pseudônimo, também associado à doença.
Oficialmente, o poeta se assina como Pedro José Ferreira da Silva.
Nas 14 linhas do “Soneto para o Jogo Bruto”, Glauco comenta um aspecto comum no futebol: a violência dentro de campo.
A descrição foca num zagueiro desleal, que dá carrinhos por trás, “empurra e soca”. Se a marcação falha e um adversário
avança, o zagueiro mau-caráter “já troca / o jogo limpo pelo pau da pata”. Assim, o placar não sai do zero a zero:
“e, como falta um árbitro severo, / bem alto o zagueirão ergue o solado”. Fim de jogo.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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