Amigas e amigos,
A poeta Maria Thereza Noronha já esteve aqui no poesia.net na edição
n. 252, cerca de oito anos atrás. Retorna agora,
trazida pelo lançamento de seu livro Face de Outono (2025), produção independente da Editora Sopa no Mel.
Mineira de Juiz de Fora, Maria Thereza formou-se em direito na UFJF, trabalhou e reside no Rio de Janeiro. Estreou em livro em 1990,
com o volume de poemas A Faca na Água. Depois, publicou Pedra de Limar (1993); A Face Dissonante (1995);
Alaúde (2001); O Verso Implume (2005); e 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (2008).
Face de Outono constitui uma reunião de poemas produzidos em período mais recente.
A organização do livro é do escritor Ivo Korytowski,
que também elaborou o prefácio. Nesse volume, a poesia de Maria Thereza Noronha mantém os traços fundamentais de sua obra, sempre
marcada pelo lirismo e a reflexão existencial sobre a passagem do tempo. No texto da quarta capa, o poeta Alexei Bueno considera
a autora “um dos nomes plenamente realizados da poesia brasileira contemporânea”.
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Para esta edição do poesia.net, selecionei quatro poemas de Face de Outono, mais dois outros de
O Verso Implume. Vamos à leitura.
Começamos com “A menina, o gato e a bola”, poema alegre e cheio de musicalidade: “A menina viu o gato / jogou o fio de lã /
o bichano achou o fato / bonito à luz da manhã”. São redondilhas maiores cantantes e oferecidas à apreciação de quaisquer
leitores, independentemente da idade.
Vêm a seguir o soneto “Poesia falada”, no qual a poeta expressa seu desagrado com a tarefa de ler poesia em público. Para ela,
trata-se de uma tarefa que corresponde a “ir ao Polo Norte de charrete”. Portanto, algo frio, cansativo, maçante. Ela também
lança dúvidas quanto à satisfação dos ouvintes, que — em sua visão — mantêm “o ouvido atento e a atenção distante”.
Pessoalmente, tendo a concordar com Maria Thereza. Em geral, nos saraus de poesia,
raras pessoas preparam a
leitura e fazem as pausas corretas, realçando o que precisa ter destaque no texto. Na média, lê-se mal, e de improviso.
As coisas se tornam desastrosas quando se combinam poemas longos e leituras mal-arranjadas. Certa vez, num evento, um
sujeito decidiu (de improviso) ler um poema meu que, no livro, ocupa duas páginas. Ele leu apenas a primeira página e parou.
Acreditou, suponho, que o poema terminava ali.
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Vem a seguir o poema “Idade”. Nele, a autora — apaixonada por gatos — relembra: “Quando acolhi meu primeiro gato / em 1985 /
um primo comentou / como quem constata um fato: / ‘Você ainda está muito nova / pra ter gatos’.”. Daí se poderia concluir,
portanto, que adotar felinos é coisa para pessoas de idade avançada. Décadas depois, ela imagina que o mesmo
primo (agora presente apenas num retrato) diria exatamente o contrário: “Você já não tem idade / pra ter gatos”.
No próximo poema, “A Areia Escorre na Ampulheta”, a poeta nos apresenta uma reflexão sobre o passar do tempo. “Inventario
os anos de viagem / O que fazer da minha vida agora? / Tantos anos sumidos na voragem”.
Passamos aqui para os poemas extraídos do livro O Verso Implume. O primeiro deles é “Cipó II”, que parece ter sido
escrito durante uma viagem ecoturística à Serra do Cipó, em Minas Gerais: “(...) o vento nos cabelos, / o sol na cara, o breve
destempero / que a lonjura nos causa ao caminhar”.
Vem, por fim, o musical lirismo de “Instante”. Aqui, a poeta nos envolve, tentando nos contar em
que consiste a sua arte.
Eis o primeiro quarteto: “A poesia é uma lâmpada. Ilumina /só no exato momento em que te fere. / A poesia é uma lâmpada.
Acende-a / e deixa os fios soltos à intempérie”.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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