Número 574 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 17 de junho de 2026

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«Sempre haverá / uma voz / que te chama / de onde o prodígio / não veio.» (Francisco Carvalho) *

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Maria Thereza Noronha
Maria Thereza Noronha



Amigas e amigos,

A poeta Maria Thereza Noronha já esteve aqui no poesia​.net na edição n. 252, cerca de oito anos atrás. Retorna agora, trazida pelo lançamento de seu livro Face de Outono (2025), produção independente da Editora Sopa no Mel.

Mineira de Juiz de Fora, Maria Thereza formou-se em direito na UFJF, trabalhou e reside no Rio de Janeiro. Estreou em livro em 1990, com o volume de poemas A Faca na Água. Depois, publicou Pedra de Limar (1993); A Face Dissonante (1995); Alaúde (2001); O Verso Implume (2005); e 50 Poemas Escolhidos pelo Autor (2008).

Face de Outono constitui uma reunião de poemas produzidos em período mais recente. A organização do livro é do  escritor Ivo Korytowski, que também elaborou o prefácio. Nesse volume, a poesia de Maria Thereza Noronha mantém os traços fundamentais de sua obra, sempre marcada pelo lirismo e a reflexão existencial sobre a passagem do tempo. No texto da quarta capa, o poeta Alexei Bueno considera a autora “um dos nomes plenamente realizados da poesia brasileira contemporânea”.

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Para esta edição do poesia​.net, selecionei quatro poemas de Face de Outono, mais dois outros de O Verso Implume. Vamos à leitura.

Começamos com “A menina, o gato e a bola”, poema alegre e cheio de musicalidade: “A menina viu o gato / jogou o fio de lã / o bichano achou o fato / bonito à luz da manhã”. São redondilhas maiores cantantes e oferecidas à apreciação de quaisquer leitores, independentemente da idade.

Vêm a seguir o soneto “Poesia falada”, no qual a poeta expressa seu desagrado com a tarefa de ler poesia em público. Para ela, trata-se de uma tarefa que corresponde a “ir ao Polo Norte de charrete”. Portanto, algo frio, cansativo, maçante. Ela também lança dúvidas quanto à satisfação dos ouvintes, que — em sua visão — mantêm “o ouvido atento e a atenção distante”.

Pessoalmente, tendo a concordar com Maria Thereza. Em geral, nos saraus de poesia, raras pessoas preparam a leitura e fazem as pausas corretas, realçando o que precisa ter destaque no texto. Na média, lê-se mal, e de improviso. As coisas se tornam desastrosas quando se combinam poemas longos e leituras mal-arranjadas. Certa vez, num evento, um sujeito decidiu (de improviso) ler um poema meu que, no livro, ocupa duas páginas. Ele leu apenas a primeira página e parou. Acreditou, suponho, que o poema terminava ali.

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Vem a seguir o poema “Idade”. Nele, a autora — apaixonada por gatos — relembra: “Quando acolhi meu primeiro gato / em 1985 / um primo comentou / como quem constata um fato: / ‘Você ainda está muito nova / pra ter gatos’.”. Daí se poderia concluir, portanto, que adotar felinos é coisa para pessoas de idade avançada. Décadas depois, ela imagina que o mesmo primo (agora presente apenas num retrato) diria exatamente o contrário: “Você já não tem idade / pra ter gatos”.

No próximo poema, “A Areia Escorre na Ampulheta”, a poeta nos apresenta uma reflexão sobre o passar do tempo. “Inventario os anos de viagem / O que fazer da minha vida agora? / Tantos anos sumidos na voragem”.

Passamos aqui para os poemas extraídos do livro O Verso Implume. O primeiro deles é “Cipó II”, que parece ter sido escrito durante uma viagem ecoturística à Serra do Cipó, em Minas Gerais: “(...) o vento nos cabelos, / o sol na cara, o breve destempero / que a lonjura nos causa ao caminhar”.

Vem, por fim, o musical lirismo de “Instante”. Aqui, a poeta nos envolve, tentando nos contar em que consiste a sua arte. Eis o primeiro quarteto: “A poesia é uma lâmpada. Ilumina /só no exato momento em que te fere. / A poesia é uma lâmpada. Acende-a / e deixa os fios soltos à intempérie”.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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Face de outono


• Maria Thereza Noronha


              



Angela Mia De La Vega - whirlwind
Angela Mia De La Vega, escultora estadunidense, Corrupio


A MENINA, O GATO E A BOLA

A menina viu o gato
jogou o fio de lã
o bichano achou o fato
bonito à luz da manhã.
A bola, dona do fio,
rolou aos pés do felino.
O fato desperta o instinto
e lá se foi o bichano,
a patinha delicada
jogar a bola de volta,
mas a menina levada
agarra a bola e não solta.
O gato levanta o rabo
e pula aos pés da menina
(que os gatos, sabe, são sábios:
têm um olhar que se ilumina).
E alvoroça toda a rua

miando que a bola é sua.

POESIA FALADA

Falar poesia nunca foi meu forte
mas versos escrevi, fosse o que fosse,
imersos em mistério, tal um doce
aos poucos degustado. E que haja sorte!

Falar poesia é ir ao Polo Norte
de charrete. É fraco e desgastante.
Distrair-se em expressões, sem fio ou corte,
e as multidões mui pouco te escutando.

Falar poesia! Oh que ideal estranho!
Palavras saem da boca tal um banho
de espuma. E a todos enternecem

ou aborrecem. Em cada circunstante
o ouvido atento e a atenção distante.
E as palavras, dispersas, não aquecem.



Angela Mia De La Vega - pivotal moment
Angela Mia De La Vega, Momento crucial (detalhe)


IDADE

Quando acolhi meu primeiro gato
em 1985
um primo comentou
como quem constata um fato:
“Você ainda está muito nova
pra ter gatos”.

Hoje, buscando compensar-me
de tantas perdas
adotando outro gato
ouço o comentário (lato sensu)
como voz saída de antigo retrato
ainda que mais ou menos intacto:
“Você já não tem idade
pra ter gatos”.

A AREIA ESCORRE NA AMPULHETA

A areia escorre na ampulheta
Ansiosa, vigio os dias e as horas
Não vá a vida me fazer falseta

Inventario os anos de viagem
O que fazer da minha vida agora?
Tantos anos sumidos na voragem

Armo o salto à distância e os desagravos
Longa é a viagem. Enfrento-a, embora
saiba que encontrar não vou rosas e cravos

Os dias esgarçados na paisagem
a minha mágoa é dentro e inda não chora
Sei que ainda tenho forças que reagem

Sei que encontro no verso meu consolo
Sei que a alegria existe, inda que falsa
Apago antigas feridas no meu colo
e ressurjo ao compasso de uma valsa

    Do livro Face de Outono (2025)




Angela Mia De La Vega - Les-refugies-1931
Angela Mia De La Vega, A delícia da dança


CIPÓ II

Na Serra do Cipó se pode andar
quilômetros, o vento nos cabelos,
o sol na cara, o breve destempero
que a lonjura nos causa ao caminhar.

Na Serra do Cipó retomo o passo
por pedras e por água interrompido.
Sei que foi oceano o hoje florido
solo. Tudo foi mar e acaso.

É o que nos conta o guia. Na aguardente
melhor de Minas refazemos forças
para voltar a andar dia seguinte
tal corcéis que não somos — como corças.

INSTANTE

A poesia é uma lâmpada. Ilumina
só no exato momento em que te fere.
A poesia é uma lâmpada. Acende-a
e deixa os fios soltos à intempérie.

Nem sempre está à tua cabeceira,
é preciso aguardar-lhe o raio breve.
Fica na sombra, preguiçosa e vândala:
ela chega no instante que lhe serve.

A poesia é uma lâmpada indecisa
mas senhora total da tua verve.
Paciência e ternura, necessárias
a percebê-la com seu passo leve.

    Do livro O Verso Implume (2005)





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Carlos Machado, 2026



Maria Thereza Noronha
•  “A Menina, o Gato e a Bola”, “Poesia Falada”, “Idade”,
  “A Areia Escorre na Ampulheta”
  in Face de Outono
  Organização e introdução: Ivo Korytowski
  Editora Sopa no Mel, 2025
•  “Cipó II”, “Instante”
  in O Verso Implume
  Oficina do Livro, Rio de Janeiro, 2005
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* Francisco Carvalho, "Pomar Alheio",
 in O Silêncio É uma Figura Geométrica (2002)
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* Imagens: estátuas em bronze da escultora estadunidense Angela Mia De La Vega (1971-)