Amigas e amigos,
No sábado passado, 27 de junho, fiquei perplexo quando li uma notícia, enviada pelo romancista e poeta baiano Carlos Barbosa. Confesso que a princípio não entendi direito o que acabei de ler. Parei e fui ler tudo de novo. O texto dava conta da morte do poeta carioca Alexei Bueno (1963-2026). Ainda incrédulo (acabara de citá-lo na última edição), procurei na internet e, infelizmente, confirmei a notícia. O poeta estava doente e foi vitimado por um câncer no fígado.
Assim, por esse desagradável motivo, Alexei Bueno é o autor em destaque nesta edição. Tenho apenas dois livros dele:
Um é a Poesia Reunida (Nova Fronteira, 2003), que contém nove títulos; e
o outro, mais recente, O Sono dos Humildes (Patuá, 2021). A seleta de poemas ao lado baseia-se, portanto, nesses dois livros.
Em 2004, o poeta já havia aparecido aqui
(poesia.net n. 95),
com textos extraídos da Poesia Reunida.
Naquele boletim, fiz algumas observações que repito nos dois parágrafos seguintes.
•o•
Embora mais novo que todas as vanguardas, Alexei Bueno decidiu construir uma obra de feição clássica.
Se você compulsar a Poesia Reunida, vai constatar que há nela alguns versos livres, mas o que dá o tom
de toda a obra são sonetos e outros poemas de forma fixa, bem rimados e metrificados.
Além disso, o poeta faz frequentes referências a temas ou personagens da antiguidade. Um de seus livros
chama-se Poemas Gregos. Outro tem por título Lucernário. Desse modo, seu trabalho adquire
características únicas, diferenciadas de todas as vertentes da poesia brasileira desde o modernismo.
•o•
Ao reler, agora, os livros de Bueno, noto sua preferência por títulos exóticos, tais como “Metempsicose”,
“Psicostasia”, “Cenotáfio”. Isso caracteriza sua poesia como algo que aparentemente não se destina aos mesmos
leitores da maior parte dos textos modernistas. Outro traço marcante é a longa extensão de alguns textos.
O poema “Epopeia” (não mostrado aqui), do livro Poesia Reunida, contém 73 quadras e se espalha por
10 páginas. Detalhe: trata-se de um volume de 16x23cm. Se fosse o padrão mais comum, de 14x21cm, seriam mais páginas.
Os temas tendem à observação filosófica da vida, com especial inclinação para a questão específica da morte.
Conhecedor profundo de autores clássicos, Alexei Bueno não titubeia ao incorporar, muitas vezes, hábitos de
escritores antigos. No livro Poemas Gregos, ele abre um texto com os seguintes versos: “Sob os de Hélios
raios, / Sobre a relva fresca” (...). Sim, a inversão gramatical reforça o sentimento de antiguidade do texto.
•o•
Observei também que Alexei escrevia freneticamente. O citado livro Poemas Gregos, por exemplo,
reúne 56 poemas, datados de “setembro e outubro de 1984”. Outra obra, o Livro de Haicais, foi escrita
“de 10 de setembro a 17 de outubro de 1988”. Um terceiro exemplo é o volume Entusiasmo, uma ode em versos
longuíssimos cujo texto se derrama por 24 páginas. Tudo escrito do dia 15 ao dia 24/1/1997. Haja fôlego.
É interessante lembrar que Alexei Bueno não escrevia somente poesia. Ele publicou dezenas de livros em outras
áreas, como a pesquisa literária e a organização de livros. Vale citar títulos como Antologia da Poesia
Portuguesa Contemporânea, um Panorama (1999, com
Alberto da Costa e Silva);
Uma História da Poesia Brasileira (G. Ermakoff, 2007); e a antologia A Escravidão na Poesia Brasileira:
Do Século XVII ao XXI (Record, 2022).
•o•
Mas avancemos para a seleta desta edição. Montei-a (sempre com base nas condições do boletim e em meus gostos
e limites pessoais) procurando textos mais próximos do leitor. Assim, evitei poemas demasiadamente longos ou
muito cheios de abstrações greco-romanas.
Comecemos com o poema “Em Família”, do livro Lucernário (1993). Antes de prosseguir, um esclarecimento:
pode ser que você não encontre esta palavra em seu dicionário. Lucernário é um
ato religioso noturno, realizado à luz de velas. O termo deriva de “lucerna” (lâmpada, luz, lanterna).
No poema “Em Família”, o autor observa o ímpeto e o prazer com que mulheres velhas abraçam as criancinhas.
Em sua visão, elas saúdam, nos bebês, a longa expectativa de vida, que elas próprias não têm mais.
•o•
Em “Cenário” (do livro Em Sonho, 1999), o contexto é uma visita às casas em que o narrador viveu.
O pano de fundo, mais uma vez, traz uma reflexão sobre a morte: “Estas casas (...)/ Nem pelos vidros e as frestas /
Suporão tua partida”. A situação é dúbia. Seria possível admitir que essa “partida” é apenas uma
mudança. Contudo, não: o narrador indica já ter passado a vida naquelas casas. Então, a “partida”, aí, só pode ser a morte.
Vem a seguir “Transmutação” (também do livro Em Sonho), um poema relativamente longo. A ideia mais
geral é dada nos dois primeiros versos: “Nascemos carne. E a cada dia / Vemo-la transformar-se em sonho”.
Na quarta estrofe, um jogo estonteante com a natureza do tempo permite ao eu poético, literalmente, subir
para baixo e descer para cima. E, afinal, insiste, vamos da carne ao sonho.
•o•
Agora, também do livro Em Sonho, o soneto “Guimarães Rosa” homenageia o autor de Grande Sertão: Veredas:
“Por detrás da gravata este trazia / O sangue de animais, homens e auroras, / A terra a se evolar na chuva fria /
E as sádicas estrelas das esporas”.
Vem, por fim, o poema “O Nascimento de Vênus”, do livro O Sono dos Humildes (2021). No quadro “O Nascimento de Vênus”,
o pintor renascentista italiano Sandro Botticelli mostra mostra a deusa Vênus, recém-surgida, de pé sobre uma grande concha marinha.
O texto de Alexei Bueno faz referência a essa imagem. Porém, o contexto ali não é nada olímpico.
Também há uma concha que se abre, mas o ambiente é a “orla imunda da imunda Guanabara, / Entre garrafas PET, entre absorventes, /
Preservativos, metades de pentes(...)”. Então, em vez de surgir da concha aberta a bela Vênus, abre-se uma poça de água suja mostrando
“a cada um a sua própria cara”. Uma dura lição, não de mitologia, mas de ecologia.
•o•
Alexei Bueno (1963-2026). R.I.P.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
•o•
Visite o poesia.net no Facebook e no Instagram.
•o•