Número 575 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 1 de julho de 2026

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«Nasceram-me gaivotas nos sentidos.» (Affonso Manta) *

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Alexei Bueno
Alexei Bueno



Amigas e amigos,

No sábado passado, 27 de junho, fiquei perplexo quando li uma notícia, enviada pelo romancista e poeta baiano Carlos Barbosa. Confesso que a princípio não entendi direito o que acabei de ler. Parei e fui ler tudo de novo. O texto dava conta da morte do poeta carioca Alexei Bueno (1963-2026). Ainda incrédulo (acabara de citá-lo na última edição), procurei na internet e, infelizmente, confirmei a notícia. O poeta estava doente e foi vitimado por um câncer no fígado.

Assim, por esse desagradável motivo, Alexei Bueno é o autor em destaque nesta edição. Tenho apenas dois livros dele: Um é a Poesia Reunida (Nova Fronteira, 2003), que contém nove títulos; e o outro, mais recente, O Sono dos Humildes (Patuá, 2021). A seleta de poemas ao lado baseia-se, portanto, nesses dois livros. Em 2004, o poeta já havia aparecido aqui (poesia.net n. 95), com textos extraídos da Poesia Reunida.

Naquele boletim, fiz algumas observações que repito nos dois parágrafos seguintes.

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Embora mais novo que todas as vanguardas, Alexei Bueno decidiu construir uma obra de feição clássica. Se você compulsar a Poesia Reunida, vai constatar que há nela alguns versos livres, mas o que dá o tom de toda a obra são sonetos e outros poemas de forma fixa, bem rimados e metrificados.

Além disso, o poeta faz frequentes referências a temas ou personagens da antiguidade. Um de seus livros chama-se Poemas Gregos. Outro tem por título Lucernário. Desse modo, seu trabalho adquire características únicas, diferenciadas de todas as vertentes da poesia brasileira desde o modernismo.

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Ao reler, agora, os livros de Bueno, noto sua preferência por títulos exóticos, tais como “Metempsicose”, “Psicostasia”, “Cenotáfio”. Isso caracteriza sua poesia como algo que aparentemente não se destina aos mesmos leitores da maior parte dos textos modernistas. Outro traço marcante é a longa extensão de alguns textos. O poema “Epopeia” (não mostrado aqui), do livro Poesia Reunida, contém 73 quadras e se espalha por 10 páginas. Detalhe: trata-se de um volume de 16x23cm. Se fosse o padrão mais comum, de 14x21cm, seriam mais páginas.

Os temas tendem à observação filosófica da vida, com especial inclinação para a questão específica da morte. Conhecedor profundo de autores clássicos, Alexei Bueno não titubeia ao incorporar, muitas vezes, hábitos de escritores antigos. No livro Poemas Gregos, ele abre um texto com os seguintes versos: “Sob os de Hélios raios, / Sobre a relva fresca” (...). Sim, a inversão gramatical reforça o sentimento de antiguidade do texto.

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Observei também que Alexei escrevia freneticamente. O citado livro Poemas Gregos, por exemplo, reúne 56 poemas, datados de “setembro e outubro de 1984”. Outra obra, o Livro de Haicais, foi escrita “de 10 de setembro a 17 de outubro de 1988”. Um terceiro exemplo é o volume Entusiasmo, uma ode em versos longuíssimos cujo texto se derrama por 24 páginas. Tudo escrito do dia 15 ao dia 24/1/1997. Haja fôlego.

É interessante lembrar que Alexei Bueno não escrevia somente poesia. Ele publicou dezenas de livros em outras áreas, como a pesquisa literária e a organização de livros. Vale citar títulos como Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea, um Panorama (1999, com Alberto da Costa e Silva); Uma História da Poesia Brasileira (G. Ermakoff, 2007); e a antologia A Escravidão na Poesia Brasileira: Do Século XVII ao XXI (Record, 2022).

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Mas avancemos para a seleta desta edição. Montei-a (sempre com base nas condições do boletim e em meus gostos e limites pessoais) procurando textos mais próximos do leitor. Assim, evitei poemas demasiadamente longos ou muito cheios de abstrações greco-romanas.

Comecemos com o poema “Em Família”, do livro Lucernário (1993). Antes de prosseguir, um esclarecimento: pode ser que você não encontre esta palavra em seu dicionário. Lucernário é um ato religioso noturno, realizado à luz de velas. O termo deriva de “lucerna” (lâmpada, luz, lanterna).

No poema “Em Família”, o autor observa o ímpeto e o prazer com que mulheres velhas abraçam as criancinhas. Em sua visão, elas saúdam, nos bebês, a longa expectativa de vida, que elas próprias não têm mais.

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Em “Cenário” (do livro Em Sonho, 1999), o contexto é uma visita às casas em que o narrador viveu. O pano de fundo, mais uma vez, traz uma reflexão sobre a morte: “Estas casas (...)/ Nem pelos vidros e as frestas / Suporão tua partida”. A situação é dúbia. Seria possível admitir que essa “partida” é apenas uma mudança. Contudo, não: o narrador indica já ter passado a vida naquelas casas. Então, a “partida”, aí, só pode ser a morte.

Vem a seguir “Transmutação” (também do livro Em Sonho), um poema relativamente longo. A ideia mais geral é dada nos dois primeiros versos: “Nascemos carne. E a cada dia / Vemo-la transformar-se em sonho”. Na quarta estrofe, um jogo estonteante com a natureza do tempo permite ao eu poético, literalmente, subir para baixo e descer para cima. E, afinal, insiste, vamos da carne ao sonho.

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Agora, também do livro Em Sonho, o soneto “Guimarães Rosa” homenageia o autor de Grande Sertão: Veredas: “Por detrás da gravata este trazia / O sangue de animais, homens e auroras, / A terra a se evolar na chuva fria / E as sádicas estrelas das esporas”.

Vem, por fim, o poema “O Nascimento de Vênus”, do livro O Sono dos Humildes (2021). No quadro “O Nascimento de Vênus”, o pintor renascentista italiano Sandro Botticelli mostra mostra a deusa Vênus, recém-surgida, de pé sobre uma grande concha marinha. O texto de Alexei Bueno faz referência a essa imagem. Porém, o contexto ali não é nada olímpico.

Também há uma concha que se abre, mas o ambiente é a “orla imunda da imunda Guanabara, / Entre garrafas PET, entre absorventes, / Preservativos, metades de pentes(...)”. Então, em vez de surgir da concha aberta a bela Vênus, abre-se uma poça de água suja mostrando “a cada um a sua própria cara”. Uma dura lição, não de mitologia, mas de ecologia.

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Alexei Bueno (1963-2026). R.I.P.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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A carne e o sonho


• Alexei Bueno


              



Laura Knight - The Gyppos-1934
Laura Knight, pintora britânica, Ciganas (1934)


EM FAMÍLIA

Com que volúpia as pobres velhas beijam
E apertam as criancinhas que se esquivam
De seus trêmulos dedos que farejam
	As coisas que ainda vivam

Longamente, bem mais do que a elas resta!...
Como elas em abraços se apoderam
Desse sonhar inquieto que as detesta
	E há tanto já perderam...

30/6/1992

    Do livro Lucernário (1993)


CENÁRIO

Estas casas, estas, estas
Junto às quais passaste a vida,
Nem pelos vidros e as frestas
Suporão tua partida.

É este o ofício das casas.
Nas suas cãs ervas afloram.
Seus olhos abrem-se em asas.
Vítreos, não sabem, não choram.

29/12/1998

    Do livro Em Sonho (1999)




Laura Knight - the-ballet-shoe-1932
Laura Knight, Sapatilha de balé (1932)


TRANSMUTAÇÃO

Nascemos carne. E a cada dia
Vemo-la transformar-se em sonho.
Há sempre um patamar tristonho
Na escada em que antes não havia.

Há sempre um quarto em que vivemos
E nunca vimos. Sempre há um morto
Que bate à porta. Há sempre um porto
Que jamais houve e de onde viemos.

Há uma manhã cinza na feira
Que não se acaba há muitos anos.
Há uma mulher, nua entre panos,
Que não é nossa a vida inteira.

O tempo espera, inalterado
Como um licor, que nós subamos
Por ele abaixo, nós que vamos
Descendo-o acima em passo ousado.

Atrás há a aurora. À frente o nada.
No meio a confusão das luas.
Ah! quem voltasse às mesmas ruas
Em senso inverso, até a entrada.

Quem desse as costas à saída
Certa e voraz, e, dessa sorte,
Fosse afastando-se da morte
Até a primeira hora da vida

E seu mistério, e se encarnasse
Nos seus eus idos, e fugisse
Por si acima, até que ouvisse
O choro antigo, e ainda o passasse.

Nascemos carne, e ao sonho vamos.
Somos o fio que desfaz
Toda a tapeçaria, mas
Quem é que o puxa, nem sonhamos.

Vamos fazendo-nos de ar
De crianças rijas que já fomos,
Vamos como explodindo em gomos
De ser, um fruto a se espalhar.

Nossos amigos são de vento
Cada vez mais. As nossas casas
Grãos que o sol doura. Soam asas
No nosso cofre mais sedento.

Para isso apenas nos gerastes,
Para ser sonho, mães de sonho.
Há sempre um pássaro medonho
Nos nomeando entre umas hastes.

Há sempre um baile de sumidos
Na íntima praça inexistente.
Há um branco sol sempre presente
Na noite em que vamos perdidos.

Há um rosto cruel que nos exorta.
E escadas. E a manhã na feira
Que vai durando a vida inteira.
Há o patamar. E um beijo. E a porta.

26/10/1998

    Do livro Em Sonho (1999)




Laura Knight - A musical clown-1929
Laura Knight, Palhaço musical (1929)


GUIMARÃES ROSA

Por detrás da gravata este trazia
O sangue de animais, homens e auroras,
A terra a se evolar na chuva fria
E as sádicas estrelas das esporas.

Sob o terno uma lua irreal luzia,
Torrentes erodiam vales e horas,
E a mata verde e gorda deglutia
Corpos hirtos e inertes como toras.

Sobre os sapatos uivos e estampidos
Vazavam o alvejar das madrugadas
Prenhes das tramas torpes dos descridos.

Atrás das lentes, a esperança e a sorte
Batiam-se entre o pó das cavalgadas
Sujas de barro, de alegria e morte.

4/11/1998

    Do livro Em Sonho (1999)


O NASCIMENTO DE VÊNUS

Quando a concha se abriu, enorme e clara,
Na orla imunda da imunda Guanabara,
Entre garrafas PET, entre absorventes,
Preservativos, metades de pentes,
	E até uma dentadura,
	Cada um olhou lá dentro
	Mas só havia, no centro,
Uma espelhada poça de água amara,
	Parada, densa, escura,
Que só mostrava, Verônica impura,
A cada um a sua própria cara.

(12-11-2020)

    Do livro O Sono dos Humildes (2021)





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Carlos Machado, 2026



Alexei Bueno
•  “Iluminação”, “Em Família”, “Transmutação”,
  “Cenário” e “Guimarães Rosa”
  in Poesia Reunida
  Organização e introdução: Ivo Korytowski
  Nova Fronteira, 2003
•  “O Nascimento de Vênus”
  in O Sono dos Humildes
  Patuá, São Paulo, 2021
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* Affonso Manta, in Antologia Poética (2013)
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* Imagens: quadros da pintora britânica Laura Knight (1877-1970)