Número 576 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 15 de julho de 2026

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«Porque essas honras vãs, esse ouro puro / verdadeiro valor não dão à gente: / melhor é merecê-los sem os ter /
que possuí-los sem os merecer.
» (Luís Vaz de Camões) *

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Fabrício Oliveira
Fabrício Oliveira


Amigas e amigos,

Natural de Santo Estêvão-BA, o jovem poeta Fabrício Oliveira (1996-) já esteve conosco, no poesia​.net, em dois boletins anteriores: n. 496, de 2022; e n. 533, de 2024. Desta vez, ele retorna por duplo motivo. Primeiro, o lançamento da coletânea Noite Obscena (Mondrongo, 2025); depois, a conquista, por esse mesmo livro, do Prêmio Manuel Bandeira de 2025, que será entregue este mês (23 de julho).

Desde quando li pela primeira vez a poesia de Fabrício Oliveira, um dos aspectos que se destacaram para mim foi notar que (texto do boletim n. 496) “ele constrói seus artefatos líricos sempre a partir da realidade”. Noto que essa característica continua presente em Noite obscena, seu quarto livro.

“Poeta de lirismo denso, ele nos guia num mundo que bem conhece e é tanto áspero quanto comovente de humanidade”. Esta frase foi escrita pelo poeta Ruy Espinheira Filho a propósito do livro Viração, de Fabrício Oliveira. Creio que a avaliação do mestre baiano é igualmente válida para os poemas de Noite Obscena.

•o•

Para esta edição, selecionei alguns textos dessa premiada coletânea. O primeiro é “Taipa de Sangue”, que destaca a personagem Francelina Parteira, que aparece em outros poemas do autor. O narrador é um menino, certamente encarregado de ir chamar Francelina para prestar seus serviços obstétricos a alguma grávida prestes à hora de dar à luz:

Mediante o trabalho da parteira, o poeta denuncia a condição de abandono dos moradores de sua região do interior baiano: “Francelina Parteira pegou muito menino / que vinha ao mundo com as gengivas podres, / o umbigo queimado / e os olhinhos se abrindo em rasgos de esporão / como se nascer fosse condenação / e desastre”.

Vem a seguir o poema curto “Cruz das Almas”. Aqui, o poeta faz referência direta à cidade do Recôncavo com esse nome, vizinha ao seu município natal. E do nome da cidade, escorrega para a história de escravidão (“vestígios / do derradeiro açoite”.

Em “Genealogia”, aparece de novo a parteira, desta vez não nomeada. Ela fez o parto e mandou o eu poético (possivelmente o mesmo menino que foi chamá-la no poema “Tipo de Sangue”) para “pendurar / o cordão umbilical da recém-nascida / na porteira do curral”. Não sei se isso representa algum costume da região. O certo é que o moço tenta “colher uma nesga de sol / e, com ela, transformar o pranto em jirau”. Depois, ele afirma: “há um sertão umbilical mapeando / o mundo da recém-nascida em meus ossos”.

•o•

Vem a seguir o poema “Cavunge”, nome de um povoado de 2 mil pessoas, no município de Ipacaetá, vizinho a Santo Estêvão e localizado a 170 km de Salvador. O texto fala da vida das crianças nesse lugar. Detalhe: “farinha de guerra”, para quem não sabe, é farinha de mandioca.

Em “Relógio Urbano”, o tique-taque “deixa rastros, presságios / nas paredes da casa”. Um relógio cujo ressoar metálico cria um estranho processo psicológico na mente do narrador.

No último poema da pequena seleta ao lado, o soneto “Canções Desfeitas”, o poeta exibe um exemplo de lirismo amoroso. Mas não se trata de uma relação entre homem e mulher. Trata-se, pelo que tudo indica, de um texto de alguém que perdeu um filho já grandinho e capaz de escrever. O sentimento de perda irreparável é expresso no último terceto: “Um avião / de papel partiu pela janela, / em busca do que nunca encontrará”.

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Fabrício Oliveira (Santo Estêvão-BA, 1996) é licenciado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Feira de Santana. Até o momento, lançou os seguintes livros: Gramática das Pedras (Patuá, 2020); Viração (Patuá, 2022); Corações Arenosos (Mondrongo, 2023); e Noite Obscena (Mondrongo, 2025).


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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Nesga de sol


• Fabrício Oliveira


              


Carybé - Bate-papo-1986
Carybé, argentino-baiano, Bate-papo (1986)


TAIPA DE SANGUE

Enquanto corro por dentro dos matos
para acordar Francelina Parteira,
minha carne se dilacera
nas candeias,
nos espinhos de carandá,
nos espinhos de tucumã.

Meu grito (convulsão em estilhaços)
refaz o sertão de minha pobre infância
nos olhos de um assum-preto.

Francelina Parteira mora na mata
dentro das terras do finado Lió.
Sua voz é grossa e forte como as águas
do Paraguaçu quando enche e transborda.

Francelina Parteira pegou muito menino
que vinha ao mundo com as gengivas podres,
o umbigo queimado
e os olhinhos se abrindo em rasgos de esporão
como se nascer fosse condenação
e desastre.

CRUZ DAS ALMAS

Cidade erguida sobre os vestígios
do derradeiro açoite.

Na casa grande,
a sombra errante de meu pai abre as janelas
e exibe aos herdeiros
a cicatriz das cortinas.


Carybé - Chuva
Carybé, Chuva


GENEALOGIA

Quando a filha mais nova de Dona Sarça
pariu capinando a roça de feijão,
a parteira me mandou pendurar
o cordão umbilical da recém-nascida
na porteira do curral.
Mas, no caminho, havia uma nesga de sol
escorrendo sobre os sonhos de um pardal.
Havia também a reminiscência das nuvens
cobrindo a palidez de minha face.
E eu tinha nas mãos um badogue e uma taça.
Tentei colher a nesga de sol
e, com ela, transformar o pranto em jirau.

Há um sertão aboiando pardais em minha voz,
há um sertão umbilical mapeando
o mundo da recém-nascida em meus ossos.

CAVUNGE

Éramos meninos — nus
da cintura pra cima,
atrás das mulheres, mães da gente,
que iam apanhar lenhas na caatinga
sem tempo para grandes tristezas.

No céu, um pano de nuvens esgarçando-se
sobre o rumor que se ouvia das cascavéis
arrastando seu manto de guizos, cansado.

Um cheiro de naco de carne gorda
— repassada na farinha de guerra —
saía do bocapiu da mulher
			de Seu Vavá
e enchia de água nossas bocas famintas.

Éramos pequenos, fazíamos
bonecos de capim e de luz
— camisas velhas, chapéus de palha rotos
e braços de pau abertos em cruz.


Carybé - Oxóssi
Carybé, Oxóssi (1971)


RELÓGIO URBANO

Escuto o tique-taque do relógio
que deixa rastros, presságios
nas paredes da casa.

As sombras da cortina pairam
sobre o prato branco
onde pousa em silêncio
um canário.

Lentamente, o tique-taque
corrói as portas da casa,
os corações, as cortinas
		                 e desce
até o assoalho
para encantar o alicerce.
E encanta.

CANÇÕES DESFEITAS

Arrumei teu quarto. E ao tocar a cama,
vi as paredes, febris, se abrindo em fendas.
O lençol, no formato da lembrança,
exalava teu perfume em meu silêncio.

Do chão, recolhi teu caderno antigo:
tua escrita que sussurra e abre
a janela que teima em se fechar
ao que restou de belo em teu sorriso.

As roupas, sem teu corpo, são canções
desfeitas. Teus brinquedos, eternos,
velam anjos no sonho da manhã

que nunca chegará. Um avião
de papel partiu pela janela,
em busca do que nunca encontrará.



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Carlos Machado, 2026


 Fabrício Oliveira
      in Noite Obscena
      Mondrongo, Itabuna-BA, 2025

* Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto Nono, estrofe 93 (1572)

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* Imagens: quadros do pintor argentino radicado na Bahia Carybé (1911-1997)