Amigas e amigos,
Natural de Santo Estêvão-BA, o jovem poeta Fabrício Oliveira (1996-) já esteve conosco, no poesia.net, em dois boletins anteriores:
n. 496, de 2022; e
n. 533, de 2024. Desta vez, ele retorna por duplo motivo.
Primeiro, o lançamento da coletânea Noite Obscena (Mondrongo, 2025); depois, a conquista, por esse mesmo livro, do Prêmio Manuel Bandeira
de 2025, que será entregue este mês (23 de julho).
Desde quando li pela primeira vez a poesia de Fabrício Oliveira, um dos aspectos que se destacaram para mim foi notar que (texto do boletim n. 496)
“ele constrói seus artefatos líricos sempre a partir da realidade”. Noto que essa característica continua presente em Noite obscena, seu quarto livro.
“Poeta de lirismo denso, ele nos guia num mundo que bem conhece e é tanto áspero quanto comovente de humanidade”. Esta frase foi escrita pelo poeta
Ruy Espinheira Filho a propósito do livro Viração,
de Fabrício Oliveira. Creio que a avaliação do mestre baiano é igualmente válida para os poemas de Noite Obscena.
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Para esta edição, selecionei alguns textos dessa premiada coletânea. O primeiro é “Taipa de Sangue”, que destaca a personagem Francelina Parteira,
que aparece em outros poemas do autor. O narrador é um menino, certamente encarregado de ir chamar Francelina para prestar seus serviços obstétricos
a alguma grávida prestes à hora de dar à luz:
Mediante o trabalho da parteira, o poeta denuncia a condição de abandono dos moradores de sua região do interior baiano: “Francelina Parteira pegou
muito menino / que vinha ao mundo com as gengivas podres, / o umbigo queimado / e os olhinhos se abrindo em rasgos de esporão / como se nascer fosse condenação /
e desastre”.
Vem a seguir o poema curto “Cruz das Almas”. Aqui, o poeta faz referência direta à cidade do Recôncavo com esse nome, vizinha ao seu município natal.
E do nome da cidade, escorrega para a história de escravidão (“vestígios / do derradeiro açoite”.
Em “Genealogia”, aparece de novo a parteira, desta vez não nomeada. Ela fez o parto e mandou o eu poético (possivelmente o mesmo menino que foi
chamá-la no poema “Tipo de Sangue”) para “pendurar / o cordão umbilical da recém-nascida / na porteira do curral”. Não sei se isso representa algum
costume da região. O certo é que o moço tenta “colher uma nesga de sol / e, com ela, transformar o pranto em jirau”. Depois, ele afirma: “há um sertão
umbilical mapeando / o mundo da recém-nascida em meus ossos”.
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Vem a seguir o poema “Cavunge”, nome de um povoado de 2 mil pessoas, no município de Ipacaetá, vizinho a Santo Estêvão e localizado a 170 km de Salvador.
O texto fala da vida das crianças nesse lugar. Detalhe: “farinha de guerra”, para quem não sabe, é farinha de mandioca.
Em “Relógio Urbano”, o tique-taque “deixa rastros, presságios / nas paredes da casa”. Um relógio cujo ressoar metálico cria um estranho processo psicológico
na mente do narrador.
No último poema da pequena seleta ao lado, o soneto “Canções Desfeitas”, o poeta exibe um exemplo de lirismo amoroso. Mas não se trata de uma relação entre
homem e mulher. Trata-se, pelo que tudo indica, de um texto de alguém que perdeu um filho já grandinho e capaz de escrever. O sentimento de perda irreparável
é expresso no último terceto: “Um avião / de papel partiu pela janela, / em busca do que nunca encontrará”.
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Fabrício Oliveira (Santo Estêvão-BA, 1996) é licenciado em Língua Portuguesa pela Universidade Federal de Feira de Santana. Até o momento,
lançou os seguintes livros: Gramática das Pedras (Patuá, 2020); Viração (Patuá, 2022); Corações Arenosos (Mondrongo, 2023);
e Noite Obscena (Mondrongo, 2025).
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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