Número 577 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 2 de agosto de 2026

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«Rosa, ó pura contradição, volúpia / de ser o sono de ninguém sob tantas / pálpebras.» (Rainer Maria Rilke) *

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Júlio Polidoro
Júlio Polidoro



Amigas e amigos,

O poeta mineiro Júlio Polidoro esteve aqui nesta página, pela primeira vez, em agosto de 2005, exatamente 21 anos atrás. Retorna agora, graças a dois lançamentos recentes: os livros Tríade (edição do Autor, 2025) e Daroês (Caravana, 2024).

Nascido em Juiz de Fora (1959-), Júlio Polidoro estudou filosofia na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Nos anos 1980, participou do grupo juiz-forano que editou o folheto Abre Alas e a revista D'Lira, ao lado de nomes como Edimilson de Almeida Pereira, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Iacyr Anderson Freitas e Luiz Ruffato.

Polidoro lançou os seguintes livros de poesia: Treze Poemas Essenciais (1979); Pequenos Assaltos (1990); Orla dos Signos (2001); Outro Sol (2004); Daroês (Caravana, 2024); e Tríade (Edição do Autor, 2025).

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A pequena amostra de poemas ao lado inclui quatro poemas de Tríade e dois de Daroês. Comecemos a leitura.

O texto “Uma Menina” representa bem a dicção poética de Polidoro. Inicialmente, fala de uma brisa que sopra e “deixa um gosto / de saudade”. Em seguida, lembra a menina, “que ia pegar as nuvens / para comê-las”. Daí avança para uma reflexão sobre a natureza da felicidade. Lirismo puro, raciocínios fluidos e leves, como “flocos de nácar e sonho”.

Em “Eu Sei”, Polidoro envereda pelos territórios incertos daquilo que alguns poetas chamam “os desvãos de mim”. Ele anuncia: “Eu sei que existe em mim um quarto / contíguo, onde já estive / e aonde às vezes vou”. O eu poético admite que, ao visitar essa dependência imprecisa, de repente está lá e, logo depois, não está mais.

Na última estrofe, o sujeito da ação não é mais a primeira pessoa. “Quando me dou conta”(...), “do quarto já saiu” (...) “como / aquele que nem sabe como entrou”. Surge aí a figura do Outro, uma terceira pessoa que opera em lugar do eu. Ao escrever estas notas, pensei, por um momento, que havia transcrito o verso com erro. Só depois percebi a astúcia: Como já disse Arthur Rimbaud, “eu é um outro”.

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Vem a seguir o soneto “Outro Epitáfio”. Aqui, o poeta, com graça e ironia, imagina o próprio epitáfio e brinca com o próprio nome, Júlio César Polidoro: “foi césar / sem ser dono do império”. Além disso, faz questão de declarar que ali jaz uma criança, embora muitos possam ter pensado nela como um hierofante, velho sacerdote greco-romano, alto conhecedor de mistérios e ciências ocultas. Enfim, um “escravo de jó / que jogava caxangá”. Infante brilhante.

Agora, no poema “Talvez”, o último do livro Tríade, de fato entra em cena o hierofante, discorrendo sobre o galope das horas: “até que a pálpebra sele / o que o olhar testemunha / e o cavaleiro desvele / outro trotar, sem cavalo”. Enfim, as ocultas ciências do outro lado da vida, se é que há esse outro lado.

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Passamos aos dois poemas do livro Daroês. Antes de tudo, é bom descobrir o que significa “daroês” (eu também não sabia). Trata-se de um religioso muçulmano que faz votos de pobreza, humildade e castidade. Também é conhecido como “dervis” ou “dervixe”.

O soneto “Tributo ao Silêncio” contém reflexões bem próprias de um daroês. O religioso sofre com o que fala, mas sente que não pode deixar de falar. “Eu queria dizer, bem, o que sinto, / quando digo, porém, eu sei que minto, / misturando razão com sentimento”.

Por fim, em “O Que Persigo” continuam as dúvidas existenciais do monge muçulmano: “faço promessas que não cumpro / cumpro promessas que não faço / separo agora o que ajunto / ajunto agora o que separo”.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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LANÇAMENTO

Relógio sem rosto
• Carlos Machado

LançamentoA União Brasileira de Escritores (UBE), a Editora Patuá e o autor Carlos Machado convidam para o lançamento da coletânea de poemas Relógio sem Rosto. Este livro foi o vencedor do Prêmio Claudio Willer de Poesia 2025, da UBE.


Quando: quinta-feira, 06/08/2026, das 19h às 22h.

Onde: Livraria Patuscada - Rua Luís Murat, 40 - Vila Madalena - CEP 05436-050, São Paulo-SP.

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No galope das horas


• Júlio Polidoro


              



Abel Manta - Retrato de Berta Mendes-1934
Abel Manta, português, Retrato de Berta Mendes (1934)


UMA MENINA

a brisa
soprando meu rosto
deixa um gosto
de saudade

não tenho como segui-la
pois não adivinho seu curso

esta semana
uma menina me disse
que ia pegar as nuvens
para comê-las

talvez a felicidade
seja um fausto repasto
de coisas sem importância
em cada instante que passa:
é necessário comê-las
com olhos e coração —
reter as impressões
em flocos de nácar e sonho

e nacos de algodão
tão doces quanto seus olhos

EU SEI

Eu sei que existe em mim um quarto
contíguo, onde já estive
e aonde às vezes vou.

Mas não recordo nunca como entro:
quando me dou conta já estou.

E quando me dou conta, nem percebo:
do quarto já saiu sem saber como
aquele que nem sabe como entrou.


Abel Manta - Silvinha-1953
Abel Manta, Silvinha (1953)


OUTRO EPITÁFIO

aqui jaz polidoro
sobrenome de júlio
que ainda foi césar
sem ser dono do império

mais risonho que sério
deu rasteira em si próprio
e apupou o juiz
que roubou pro seu time

aqui jaz um infante
não importa o hierofante
que se tenha pensado

menino malcriado
teimoso escravo de jó
que jogava caxangá

TALVEZ

há o desgaste das coisas
há o galope das horas
a bota, o estribo, a espora
deixando marcas no dorso

marcando rastos no rosto
de cada um, uma história
que o narrador nunca conta
mas fica impressa na pele

até que a pálpebra sele
o que o olhar testemunha
e o cavaleiro desvele
outro trotar, sem cavalo

andando pela penumbra
que aponta num fim de túnel
(talvez) a luz da alforria


Abel Manta- Autorretrato-1939
Abel Manta, Autorretrato (1939)


TRIBUTO AO SILÊNCIO

Quanto mais tagarelo me confundo
tanto mais confundido me atrapalho,
minha língua é refém de ato falho
e eu falho falando a todo mundo

a rota do desejo mais profundo
que fulgura em meus olhos, feito atalho
e permite que os outros, sem trabalho
mais que eu, me conheçam, e mais fundo.

Me abster do discurso? Sofro e calo.
Mas calado mais sofro, então eu falo,
mas falando também não me contento.

Eu queria dizer, bem, o que sinto,
quando digo, porém, eu sei que minto,
misturando razão com sentimento.

O QUE PERSIGO

faço promessas que não cumpro
cumpro promessas que não faço
separo agora o que ajunto
ajunto agora o que separo

se sigo à frente não alcanço
se volto atrás me faltam passos
mais longe estou se mais avanço
se mais avanço mais me afasto

o que persigo não tem norte
nem sul nem leste nem oeste
nem lados tem o que persigo
nem alto médio e nem baixo

o que persigo é o contrário
do que procuro e encontro
ao me encontrar o que procuro
bem antes de ser encontrado




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Carlos Machado, 2026



Júlio Polidoro
•  “Uma Menina”, “Eu Sei”, “Outro Epitáfio”, “Talvez”
  in Tríade
  Ed. do Autor, Juiz de Fora, 2025
•  “Tributo ao Silêncio”, “O que Persigo”
  in Daroês
  Caravana, Ouro Preto-MG, 2024
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* Rainer Maria Rilke (1875-1926), em seu epitáfio.
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* Imagens: quadros do pintor português Abel Manta (1888-1982)