Amigas e amigos,
Nesta edição, o poesia.net revisita a obra da poeta e publicitária paulistana Rosana Piccolo. Rosana já esteve aqui
na edição n. 83, em agosto de 2004. Agora, 22 anos depois,
ela retorna, trazida pela antologia poética Escrever como as águias (Cavalo Azul, 2025), organizada e prefaciada pelo poeta e professor
Alexandre Bonafim.
Quando figurou pela primeira vez nesta página, a poeta já havia publicado duas coletâneas de poesia: Ruelas Profanas
(Nankin, 1999); e Meio-fio (Iluminuras, 2003). Depois, vieram Sopro de Vitrines (Alameda, 2010); Refrão da Fuligem
(Patuá, 2013); Bocas de Lobo (Patuá, 2015); O Pão (Lumme, 2017); Alla Prima (Patuá, 2019); Quando Chegam os Tártaros?
(Ofícios Terrestres, 2023); e a já citada antologia Escrever como as Águias (Cavalo Azul, 2025). Nesta última encontram-se poemas de
todos os livros anteriores.
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Uma característica marcante na poesia de Rosana Piccolo é sua profunda identificação com o poema em prosa. De fato, se o leitor folheia a
antologia Escrever como as águias, só aparecem textos em versos a partir do livro Bocas de Lobo. Em todos os volumes anteriores,
os poemas têm a forma de prosa.
Outro traço fundamental — este válido para a totalidade da obra — é a ambientação urbana. Isso, conforme escrevi em 2004, já se evidencia nos
próprios títulos dos volumes: Ruelas Profanas, Meio-fio; Sopro de Vitrines; Bocas de Lobo...
Contudo, o que aparece nesses versos não é apenas a cidade, como também acentuei desde o primeiro boletim: “Coisas e personagens se movem
dentro de um ambiente estranho, que é a cidade, sim, mas coada por filtros poéticos, em cuja química entra uma dose de
nonsense e surrealismo”.
Para o poeta e ensaísta Alexandre Bonafim, organizador da antologia, “a poesia de Rosana Piccolo percorre o território instável da metrópole
com o olhar de quem reconhece no caos um forma secreta de beleza”.
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Como vimos, este boletim baseia-se no livro Escrever como as águias. Nela selecionei seis poemas: três em prosa e três em verso,
um de cada livro formador da antologia. Passemos à leitura.
Começamos com o poema “Alva”, extraído de Ruelas Profanas, o volume de estreia da poeta. Aqui, a bailarina da caixinha de música
simplesmente escapou, “nem lembrou da despedida”. No tom lírico e singelo deste poema, surge, desde já, a inclinação ao surrealismo:
“A bailarina se foi (...) Virou vento, garça aflita, verso branco, sem final”.
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O poema seguinte, “Boletim de Ocorrência Possível”, também em prosa, vem do livro Meio-fio. Nele, a geografia urbana (“outra rua
de músculo e treva”) se funde ao fantástico: “No excesso do chuveiro derramam-se caranguejos”. Há ainda “árvores que dão na Lua” e
“a pétala de um fígado pulsando em redomas”.
Logo depois, vem “Compulsão”, poema extraído do livro Sopro de Vitrines. Mais uma vez, um estranho exercício urbano:
“É que nesta cidade mora um cavalo. (...) Tranço-lhe a crina à moda do apache — longa, como um relincho sofrido”.
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Vêm agora os poemas em versos. O primeiro deles é a divisão “XII” de “Refrão da Fuligem”, poema longo, homônimo do livro,
com partes identificadas por números romanos. O ambiente, mais uma vez, é a cidade, aqui caracterizada por um “céu oxidado de cetáceos”.
Após a chuva, “sereias cantam na poça d’água”.
O próximo poema, “Copo de borboletas”, provém do livro Bocas de Lobo. O texto se inicia com um choque de surrealismo:
“e bebo um copo de borboletas”. Diante de tal enunciado, o leitor, em choque, não faz a menor ideia do que pode vir em seguida.
Contudo, o que se segue é consequência lógica: as borboletas, de várias cores, invadem a casa, “costuram-me as pálpebras /
e me apunhalam com lâminas soníferas”.
Chegamos por fim, ao último texto, “Baile”, extraído originalmente do livro Quando chegam os tártaros?. O contexto
é praça. E surge a indagação: “quem sabe o que vai / no coração das estátuas?” Pelo jeito, ninguém sabe. Enquanto isso,
“no chafariz / o cavalo / baba saias refrescantes”.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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PRÊMIOS UBE
Caros,
no último boletim, publiquei o convite para o lançamento, em São Paulo, no dia 06/08, de meu livro Relógio sem Rosto,
vencedor do Prêmio Claudio Willer de Poesia 2025, da União Brasileira de Escritores (UBE). Aqui, um vídeo da UBE sobre o
lançamento:
A sessão de autógrafos de Relógio sem Rosto realizou-se no mesmo evento em que a UBE anunciou os vencedores do Prêmio
de 2026: Carolina Fernandes Lobo Silva, com Todos os poemas de amor são ridículos (1° lugar); Sullamy Dayse Gomes Aciole
Salgueiro, com Entre o grito e o abraço (2°); e
Antônio Donizete Pires, com Triplo (3°).
Relógio sem Rosto deverá ser lançado aqui em Salvador, mas ainda não tem data fixada. Aguardem.
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