Número 578 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 26 de agosto de 2026

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«Só na morte não somos estrangeiros.» (Eugénio de Andrade) *

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Rosana Piccolo
Rosana Piccolo


Amigas e amigos,

Nesta edição, o poesia​.​net revisita a obra da poeta e publicitária paulistana Rosana Piccolo. Rosana já esteve aqui na edição n. 83, em agosto de 2004. Agora, 22 anos depois, ela retorna, trazida pela antologia poética Escrever como as águias (Cavalo Azul, 2025), organizada e prefaciada pelo poeta e professor Alexandre Bonafim.

Quando figurou pela primeira vez nesta página, a poeta já havia publicado duas coletâneas de poesia: Ruelas Profanas (Nankin, 1999); e Meio-fio (Iluminuras, 2003). Depois, vieram Sopro de Vitrines (Alameda, 2010); Refrão da Fuligem (Patuá, 2013); Bocas de Lobo (Patuá, 2015); O Pão (Lumme, 2017); Alla Prima (Patuá, 2019); Quando Chegam os Tártaros? (Ofícios Terrestres, 2023); e a já citada antologia Escrever como as Águias (Cavalo Azul, 2025). Nesta última encontram-se poemas de todos os livros anteriores.

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Uma característica marcante na poesia de Rosana Piccolo é sua profunda identificação com o poema em prosa. De fato, se o leitor folheia a antologia Escrever como as águias, só aparecem textos em versos a partir do livro Bocas de Lobo. Em todos os volumes anteriores, os poemas têm a forma de prosa.

Outro traço fundamental — este válido para a totalidade da obra — é a ambientação urbana. Isso, conforme escrevi em 2004, já se evidencia nos próprios títulos dos volumes: Ruelas Profanas, Meio-fio; Sopro de Vitrines; Bocas de Lobo...

Contudo, o que aparece nesses versos não é apenas a cidade, como também acentuei desde o primeiro boletim: “Coisas e personagens se movem dentro de um ambiente estranho, que é a cidade, sim, mas coada por filtros poéticos, em cuja química entra uma dose de nonsense e surrealismo”.

Para o poeta e ensaísta Alexandre Bonafim, organizador da antologia, “a poesia de Rosana Piccolo percorre o território instável da metrópole com o olhar de quem reconhece no caos um forma secreta de beleza”.

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Como vimos, este boletim baseia-se no livro Escrever como as águias. Nela selecionei seis poemas: três em prosa e três em verso, um de cada livro formador da antologia. Passemos à leitura.

Começamos com o poema “Alva”, extraído de Ruelas Profanas, o volume de estreia da poeta. Aqui, a bailarina da caixinha de música simplesmente escapou, “nem lembrou da despedida”. No tom lírico e singelo deste poema, surge, desde já, a inclinação ao surrealismo: “A bailarina se foi (...) Virou vento, garça aflita, verso branco, sem final”.

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O poema seguinte, “Boletim de Ocorrência Possível”, também em prosa, vem do livro Meio-fio. Nele, a geografia urbana (“outra rua de músculo e treva”) se funde ao fantástico: “No excesso do chuveiro derramam-se caranguejos”. Há ainda “árvores que dão na Lua” e “a pétala de um fígado pulsando em redomas”.

Logo depois, vem “Compulsão”, poema extraído do livro Sopro de Vitrines. Mais uma vez, um estranho exercício urbano: “É que nesta cidade mora um cavalo. (...) Tranço-lhe a crina à moda do apache — longa, como um relincho sofrido”.

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Vêm agora os poemas em versos. O primeiro deles é a divisão “XII” de “Refrão da Fuligem”, poema longo, homônimo do livro, com partes identificadas por números romanos. O ambiente, mais uma vez, é a cidade, aqui caracterizada por um “céu oxidado de cetáceos”. Após a chuva, “sereias cantam na poça d’água”.

O próximo poema, “Copo de borboletas”, provém do livro Bocas de Lobo. O texto se inicia com um choque de surrealismo: “e bebo um copo de borboletas”. Diante de tal enunciado, o leitor, em choque, não faz a menor ideia do que pode vir em seguida. Contudo, o que se segue é consequência lógica: as borboletas, de várias cores, invadem a casa, “costuram-me as pálpebras / e me apunhalam com lâminas soníferas”.

Chegamos por fim, ao último texto, “Baile”, extraído originalmente do livro Quando chegam os tártaros?. O contexto é praça. E surge a indagação: “quem sabe o que vai / no coração das estátuas?” Pelo jeito, ninguém sabe. Enquanto isso, “no chafariz / o cavalo / baba saias refrescantes”.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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PRÊMIOS UBE

LançamentoCaros, no último boletim, publiquei o convite para o lançamento, em São Paulo, no dia 06/08, de meu livro Relógio sem Rosto, vencedor do Prêmio Claudio Willer de Poesia 2025, da União Brasileira de Escritores (UBE). Aqui, um vídeo da UBE sobre o lançamento:

A sessão de autógrafos de Relógio sem Rosto realizou-se no mesmo evento em que a UBE anunciou os vencedores do Prêmio de 2026: Carolina Fernandes Lobo Silva, com Todos os poemas de amor são ridículos (1° lugar); Sullamy Dayse Gomes Aciole Salgueiro, com Entre o grito e o abraço (2°); e Antônio Donizete Pires, com Triplo (3°).

Relógio sem Rosto deverá ser lançado aqui em Salvador, mas ainda não tem data fixada. Aguardem.

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Escrever como as águias


• Rosana Piccolo


              


Anastasiya Matveeva - Retrato duplo
Anastasiya Matveeva, russa, Retrato duplo


ALVA

A bailarina escapou da caixinha, nem lembrou da despedida. Parecia feita de talco, não fosse o giro tão vago, nas varredelas do ar.

Fugiu em surdina. Pelo ralo, pela pia, pelo olhar da fechadura. Teria sido manso orvalho, não fosse a estrela descalça, tinha o cadarço nas mãos.

A bailarina se foi, lenço algum no corredor. Virou vento, garça aflita, verso branco, sem final.


BOLETIM DE OCORRÊNCIA POSSÍVEL

Tenho a rua. Finda em outra rua de músculo e treva num braço de ferro. Tenho as asas curvas de um anjo esverdeado, dois orelhões. Debaixo de um fala o carrasco, noutro fala o violinista. Tenho o pulso público, noturno, o telefonema obscuro. Tenho a mágoa retorcida do recém-nascido, a meia-parede. No excesso do chuveiro derramam-se caranguejos. O chaveiro conheço, tenho o olho da coruja que choca nas árvores que dão na Lua. Eu teria a pétala de um fígado pulsando em redomas, a exclusividade do crime — não fosse a porta, bocarra do vento batendo forte.



Anastasiya Matveeva - Cordiais saudações
Anastasiya Matveeva, Cordiais saudações


COMPULSÃO

E então esta lua, relógio branco no céu sem moldura, lembra-me a rua que inelutavelmente desço. É que nesta cidade mora um cavalo. Sou eu a seguir suas patas-viadutos ate o lábio da mansão apodrecida, eu a queimar perfumes no bolso negro da noite. Tranço-lhe a crina à moda do apache - longa, como um relincho sofrido.


REFRÃO DA FULIGEM - XII

e voltamos para casa

céu oxidado de cetáceos
debulha a chuva da semana útil

mar de guelras ardentes
cardume de ruas e avenidas brutas

a tarde exige naufrágio

aço é o rochedo
sereias cantam na poça d’água


Anastasiya Matveeva - Autoretrato com pincel verde
Anastasiya Matveeva, Autorretrato com pincel verde


COPO DE BORBOLETAS

e bebo um copo de borboletas

a primeira, súdita da névoa
outra me vem com asas de chita
estrelas amarelas
alta patente em asas militares

asas querendo ser braços
procuram colares e camisolas negras no armário
todas da mesma ordem
todas à mesma hora
costuram-me as pálpebras
e me apunhalam com lâminas soníferas

BAILE

quem sabe o que vai
no coração das estátuas?

mármore
cinzel da névoa
artérias saídas da pedra

ninguém lhes ouve o grito
foge a ninfa por instinto, pérola solta

não se dança na praça
nem a garça
nem agosto
nem folha de agosto
nem por sonho
nem em filme

por nada

no chafariz
o cavalo
baba saias refrescantes
ninguém usa



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Carlos Machado, 2026


 Rosana Piccolo
      in Escrever como as águias
      Seleção, organização e prefácio de Alexandre Bonafim
      Cavalo Azul, Franca-SP, 2025

* Eugénio de Andrade, “XLIX”, in Branco no Branco (1984)

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* Imagens: quadros da pintora russa Anastasiya Matveeva (1988-)