Número 579 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 9 de setembro de 2026

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«A sombra do berço traça na parede / uma gaiola enorme.» (Elizabeth Bishop) *

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Armando Liguori Junior
Armando Liguori Junior



Amigas e amigos,

O poeta em destaque nesta edição é o paulistano Armando Liguori Junior, ator e jornalista. Homem de teatro, Liguori trabalha com textos cênicos e também com poesia. Além disso, na internet, usa as redes sociais para a leitura de textos poéticos.

Conheci o trabalho de Liguori depois que ele incluiu em suas leituras um poema de minha autoria. Em seguida, ele me enviou duas coletâneas de sua obra: Eu Poderia Estar Matando (2022) e Toda Saída é de Emergência (2021). A seleção de textos deste boletim baseia-se nestes dois livros.

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Passemos à leitura. Comecemos com quatro poemas extraídos do livro Eu Poderia Estar Matando. A propósito, nesse título o poeta lança mão daquela frase humorística “Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando...”.

O primeiro poema é "Entre Nós o Abismo". Trata-se de uma breve declaração de amor, ambientada sobre um abismo transposto pelo amante com a ajuda de um cabo de aço. No final, uma declaração bem teatral: “Heróis salvam o mundo / Eu me salvo em você // E faço tudo sem dublê”.

O próximo poema, sem título e em prosa, é citado aqui pelas suas primeiras palavras: “O Poeta Fernando Tinha]”. O tema, aqui, são as dezenas de heterônimos de Fernando Pessoa. Trecho: “O poeta Fernando não tinha sossego. Dizem que nasceu com tendência orgânica para a despersonalização e simulação. Na verdade, ele mesmo dizia isso para se justificar. Era doidinho de pedra. Doidinho do bem”.

Liguori destaca, entre os muitos “despersonagens” de Pessoa, a presença de Maria José. Talvez ela, diz o poema, “única outra dessa história toda, fosse quem conseguisse colocar ordem na casa. Vai saber!”.

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A seguir, o poema “Os Tempos São Outros”. Aliás, não só os tempos: todas as coisas são outras. Aí está mais uma observação sobre as mudanças do mundo, algo que nos remete ao vetusto soneto de Luís Vaz de Camões “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”. Para concluir, Camões lembra que, no ritmo frenético de todas as mudanças, mudam até as formas de mudar. No mesmo diapasão, Liguori diz que “Mesmo / Os mesmos / São outros”.

Vem agora “[Antes de Nascer]”, outro poema em prosa e sem título. Nele o poeta ironiza as opções abertas com as possibilidades de manipulação genética: “E pagando um pouco mais, os pais podem até escolher se as crianças serão atletas, cientistas, artistas, advogados, engenheiros, médicos... tudo à disposição”.

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Passamos agora para três poemas do livro Toda Saída É de Emergência. Primeiro, vem “Nenhum Poema é Inocente”, uma reflexão sobre o conteúdo e o significado mais fundo da poesia: “Sempre ficará uma dose de veneno / No sangue de quem lê”.

Em “Nem Aí”, o poeta observa que, durante todo o tempo, nós, humanos, nos dedicamos ao tempo: “cortamos o tempo / emendamos o tempo penduramos o tempo em calendários”. Apesar disso, a resposta dele, nossa preocupação central, é ridiculamente cruel: “O tempo não tá nem aí”.

A seleta se encerra com o poema “Algo em Comum”. Aqui, a mensagem gira em torno de nossas dessemelhanças: “Não. Não somos todos iguais. / Não temos a mesma casca, nem a mesma raiz”. Apesar disso, e ainda bem, “em algum momento somamos / E a vida ganha algum sentido. / E, nesses momentos, temos algo em comum”.

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Armando Liguori Junior (São Paulo, 1964) é formado em jornalismo pela PUC-SP e artes cênicas pelo Teatro-Escola Célia Helena. Trabalha como roteirista, diretor e ator. Tem quatro livros publicados, dos quais três de poesia: Toda Saída É de Emergência (Prod. independente, 2021); A Poesia Está em Tudo (Patuá, 2020); e Territórios (Scortecci, 2009). O quarto livro é de dramaturgia: Textos Curtos para Teatro e Cinema (Giostri, 2017).

Liguori é um dos fundadores da companhia de teatro Os Tios. Além disso, mantém canais de leituras literárias no YouTube e no Instagram.


Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado


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Uma dose de veneno


• Armando Liguori Junior


              



Hasan Saygin - girl.with.a.pitcher-1937
Tamara de Lempicka, polonesa, Garota com jarro (1937)


ENTRE NÓS O ABISMO

Estico o cabo de aço
E deslizo até chegar
Onde você está

Heróis salvam o mundo
Eu me salvo em você

E faço tudo sem dublê

[O POETA FERNANDO TINHA]

O poeta Fernando tinha vários outros dentro de si. Nenhum engenheiro, nenhum médico, nenhum motorista, nenhum policial. Todos, poetas. O poeta Fernando tinha muitos poemas por dentro e precisou de 24 outros poetas para escoar e ecoar sua poesia. O poeta Fernando não tinha sossego. Dizem que nasceu com tendência orgânica para a despersonalização e simulação. Na verdade, ele mesmo dizia isso para se justificar. Era doidinho de pedra. Doidinho do bem. Começou a criar seus poetas imaginários de pequeno quando escrevia cartas para ele mesmo só que com outro nome. Já adulto sentia saudades dessa época. O poeta Fernando era uma pessoa real. Quem o conheceu pode confirmar. Não era nem mais nem menos real do que seus fictícios. Fico imaginando, quando todos se reuniam para um simpósio ou uma feira literária na cabeça do Fernando. Que loucura não deveria ser?! Alberto, Álvaro, Ricardo, Bernardo, Charles, Alexander, Carlos, Coelho... todos querendo falar ao mesmo tempo. Talvez, a Maria José, única outra dessa história toda, fosse quem conseguisse colocar ordem na casa. Vai saber! O poeta Fernando nasceu em 1888. Os outros foram nascendo ao longo do tempo. Mas quando o poeta Fernando faleceu, todos os seus outros morreram também. Nunca o mundo havia perdido tantos poetas num único dia. O poeta Fernando foi vários em uma só pessoa.




Tamara de Lempicka - l'echarpe.orange-1927.jpg
Tamara de Lempicka, O echarpe cor de laranja (1927)


OS TEMPOS
SÃO OUTROS

Os dias
São outros

O mundo
É outro

Os caminhos
São outros

O rio
É sempre
Outro

Eu e você
Somos outros

Os outros
São outros

Mesmo
Os mesmos
São outros

[ANTES DE NASCER]

Antes de nascer, a maternidade apresenta o cardápio
de atributos físicos de futuros bebês para a escolha dos pais.
O tempo é de edição genética. São muitas as possibilidades de
olhos, bocas, narizes, peles, cabelos etc. E pagando um pouco
mais, os pais podem até escolher se as crianças serão atletas,
cientistas, artistas, advogados, engenheiros, médicos... tudo à
disposição. A tela simula a escolha feita pelos pais. Acham que
ainda dá para mudar o tamanho dos pés. Ok. Escolhas feitas
é só editar os genes e fazer nascer o futuro ser humaninho
perfeitinho. Sem predisposição para doenças. Com atributos
definidos. O cardápio só não oferece, ainda, valores éticos,
então nada se sabe sobre as propensões nesse sentido. Mas
os engenheiros genéticos garantem que é só uma questão de
tempo. Já que a vida é ficção que, pelo menos, seja científica.



Tamara de Lempicka - Les-refugies-1931
Tamara de Lempicka, Os refugiados (1931)


NENHUM POEMA É INOCENTE

Alguns poetas podem até ser
Mas nenhum poema é inocente

Há sempre um escorpião
Adormecido entre os versos
Pesando sobre a pele da página

Nenhum poema é inocente

Alguns leitores talvez
Mas nenhum poema é inocente

Sempre ficará uma dose de veneno
No sangue de quem lê

NEM AÍ

O tempo todo dobramos o tempo cortamos o tempo
emendamos o tempo penduramos o tempo em calendários
anotamos o tempo em agendas perdemos tempo marcamos
o tempo em horas dias meses anos idades períodos
contamos o tempo ontem tarde cedo antes agora breve
antigamente enfim...

E o tempo? O tempo não tá nem aí.

ALGO EM COMUM

Não. Não somos todos iguais.
Não temos a mesma casca, nem a mesma raiz.
Dos que darão frutos (e não serão muitos)
Sairão sabores e texturas diferentes.
Dos que darão flores (e serão poucos)
Sairão cores e aromas distintos.

Não atraímos as mesmas abelhas e pássaros.
Não nos molhamos igualmente de chuva.
Não resistimos da mesma forma aos ventos.
Nem proporcionamos a mesma sombra.

Não somos todos fortes.
Não somos todos fracos.

Mas sim, em algum momento somamos
E a vida ganha algum sentido.
E, nesses momentos, temos algo em comum.




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Carlos Machado, 2026



Armando Liguori Junior
•  “Entre Nós o Abismo”, “[O Poeta Fernando Tinha]”, “Os Tempos São Outros”,
  “Antes de Nascer”
  in Eu Poderia Estar Matando
  Desconcertos Editora, São Paulo, 2022
•  “Nenhum Poema É Inocente”, “Nem Aí”, “Algo em Comum”
  in Toda Saída É de Emergência
  Edição do Autor, São Paulo, 2021
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* Elizabeth Bishop, "Canções para uma cantora de cor",
 in Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop,
 trad. Paulo Henriques Britto
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* Imagens: quadros da pintora polonesa Tamara de Lempicka (1898-1980)