Amigas e amigos,
O poeta em destaque nesta edição é o paulistano Armando Liguori Junior, ator e jornalista. Homem de teatro, Liguori trabalha
com textos cênicos e também com poesia. Além disso, na internet, usa as redes sociais para a leitura de textos poéticos.
Conheci o trabalho de Liguori depois que ele incluiu em suas leituras
um poema de minha autoria.
Em seguida, ele me enviou duas coletâneas de sua obra: Eu Poderia Estar Matando (2022) e Toda Saída é de Emergência (2021).
A seleção de textos deste boletim baseia-se nestes dois livros.
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Passemos à leitura. Comecemos com quatro poemas extraídos do livro Eu Poderia Estar Matando. A propósito, nesse título
o poeta lança mão daquela frase humorística “Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando...”.
O primeiro poema é "Entre Nós o Abismo". Trata-se de uma breve declaração de amor, ambientada sobre um abismo transposto
pelo amante com a ajuda de um cabo de aço. No final, uma declaração bem teatral: “Heróis salvam o mundo /
Eu me salvo em você // E faço tudo sem dublê”.
O próximo poema, sem título e em prosa, é citado aqui pelas suas primeiras palavras: “O Poeta Fernando Tinha]”.
O tema, aqui, são as dezenas de heterônimos de Fernando Pessoa. Trecho: “O poeta Fernando não tinha sossego.
Dizem que nasceu com tendência orgânica para a despersonalização e simulação. Na verdade, ele mesmo dizia isso para
se justificar. Era doidinho de pedra. Doidinho do bem”.
Liguori destaca, entre os muitos “despersonagens” de Pessoa, a presença de Maria José. Talvez ela, diz o poema,
“única outra dessa história toda, fosse quem conseguisse colocar ordem na casa. Vai saber!”.
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A seguir, o poema “Os Tempos São Outros”. Aliás, não só os tempos: todas as coisas são outras. Aí está mais uma
observação sobre as mudanças do mundo, algo que nos remete ao vetusto soneto de Luís Vaz de Camões “Mudam-se os
tempos, mudam-se as vontades”. Para concluir, Camões lembra que, no ritmo frenético de todas as mudanças, mudam até
as formas de mudar. No mesmo diapasão, Liguori diz que “Mesmo / Os mesmos / São outros”.
Vem agora “[Antes de Nascer]”, outro poema em prosa e sem título. Nele o poeta ironiza as opções abertas
com as possibilidades de manipulação genética: “E pagando um pouco mais, os pais podem até escolher se as
crianças serão atletas, cientistas, artistas, advogados, engenheiros, médicos... tudo à disposição”.
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Passamos agora para três poemas do livro Toda Saída É de Emergência. Primeiro, vem “Nenhum Poema é
Inocente”, uma reflexão sobre o conteúdo e o significado mais fundo da poesia: “Sempre ficará uma dose de veneno /
No sangue de quem lê”.
Em “Nem Aí”, o poeta observa que, durante todo o tempo, nós, humanos, nos dedicamos ao tempo: “cortamos o tempo /
emendamos o tempo penduramos o tempo em calendários”. Apesar disso, a resposta dele, nossa preocupação central,
é ridiculamente cruel: “O tempo não tá nem aí”.
A seleta se encerra com o poema “Algo em Comum”. Aqui, a mensagem gira em torno de nossas dessemelhanças:
“Não. Não somos todos iguais. / Não temos a mesma casca, nem a mesma raiz”. Apesar disso, e ainda bem,
“em algum momento somamos / E a vida ganha algum sentido. / E, nesses momentos, temos algo em comum”.
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Armando Liguori Junior (São Paulo, 1964) é formado em jornalismo pela PUC-SP e artes cênicas pelo
Teatro-Escola Célia Helena. Trabalha como roteirista, diretor e ator. Tem quatro livros publicados, dos
quais três de poesia: Toda Saída É de Emergência (Prod. independente, 2021); A Poesia Está em Tudo
(Patuá, 2020); e Territórios (Scortecci, 2009). O quarto livro é de dramaturgia:
Textos Curtos para Teatro e Cinema (Giostri, 2017).
Liguori é um dos fundadores da companhia de teatro Os Tios. Além disso, mantém canais de leituras
literárias no YouTube
e no Instagram.
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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