Amigas e amigos,
A poeta belo-horizontina Adriane Garcia é sobejamente conhecida por quem acompanha este boletim. Adriane já esteve aqui em quatro edições
anteriores: n. 505 (março/ 2023);
n. 422 (maio/ 2019);
n. 389 (novembro/ 2017); e
n. 334 (junho/ 2015).
Ela retorna agora, graças ao lançamento recente de seu livro Atlas de Anatomia (Caos & Letras, 2026). Nesse livro, a autora
adota uma estratégia criativa com que, confessadamente, adora trabalhar: elege um tema e, a partir dele, desenvolve todo um volume
de poemas. Foi assim, por exemplo, com A Bandeja de Salomé (2022) e com Fábulas para Adulto Perder o Sono (2013).
Neste Atlas de Anatomia, a poeta toma o corpo humano como ponto de partida. Daí, avança criativamente para poemas com títulos
como "Costela", "Dentes", "Dorso", "Fígado", "Estômago" (enfim, partes do corpo). Mas as palavras não se contentam em ficar presas
ao arcabouço corporal: deslizam, ariscas, para o mundo e para a sociedade, sempre com a visão crítica afiada de Adriane.
•o•
Como aplicados estudantes de medicina poética, façamos um passeio pelas partes anatômicas dissecadas nesse atlas. Comecemos
com o poema breve “Este Corpo”. Aqui, a poeta estranha as lâminas de estudo: “Falam de glândulas lacrimais como se / Chorar /
Fosse / Apenas / Escoamento”. No final, ela chega a uma conclusão discordante: “Meu atlas é feito de carne / E desordem”.
Aí está: com estes dois versos, percebe-se logo que não temos nas mãos um simples livro que descreve funções corporais.
Em “Clavícula”, esse osso pertence a uma mulher. Além das dores de parto, o sexo feminino carrega
“O tempo / O espelho // E um mundo / Jogando contra”. Conforme se vê, é mesmo um atlas feito de carne e desordem.
Vem agora o poema “Língua”. Nele a poeta se vale da informação de que o coração é o primeiro órgão a se formar no embrião
humano. De forma inventiva, ela o chama de “coração-língua”, possivelmente porque o coração está sempre doidinho para dizer coisas.
E conclui, poeticamente: “Deve ser por isso que / O coração / Vive saindo pela boca”.
•o•
Os poemas “Membros Superiores” e “Membros Inferiores” saltam para fora da pele e caem no meio da sociedade de classes,
com suas injustiças e desigualdades. “Em meu país, os membros superiores são responsáveis por / Não levarem alimento às
bocas durante a fome / Não levarem cobertores aos corpos durante o frio”.
Inicialmente, parece que esses membros superiores, os braços,
apenas se recusam a dar de comer às bocas e proteger
os corpos do frio. Mas logo depois se nota que eles só cuidam dos próprios interesses e odeiam as próprias pernas. E estas,
os membros inferiores?
Ah, as pernas, trabalhadoras, mantêm o país de pé. "Caminham, povoam os ônibus lotados”. E aí vem Drummond, o poeta que
morreu em 1987: “Pra que tanta perna, meu Deus?”. Enfim, as pernas que sustentam o país são declaradas “Membros /
De segunda classe”. O velho Carlos, por trás dos óculos e do bigode, aplaudiria a homenagem da conterrânea já no
segundo quarto deste complicado século.
•o•
Chegou a hora de abrir os “Olhos”. Estamos num ritmo circadiano, com o corpo funcionando conforme a alternância entre
luz e escuridão. Então, a poeta se permite chamar os olhos de “janelas de minha alma”. Mas coisas horríveis são vistas
por essas janelas: “vejo a criança palestina /carregando sua irmã atropelada / ela segue por quilômetros / na mais
absoluta das misérias / humanas”.
Vem, por fim, o poema “Articulações”. Aqui o atlas de anatomia se volta para a idade provecta.
Surgem a tristeza e o desemparo
da senhora idosa, e pobre, que brinca com o tempo: “É problema de junta, meu filho / Junta tudo e joga fora”.
•o•
Adriane Garcia é uma das poetas mais ativas da atualidade. Trabalhadora contumaz, tem sempre uma criação nova pronta para
mostrar aos leitores. Neste mês, além do livro Atlas de Anatomia, enviou-me a coletânea Círculos Onde Envelheço
(Tercetto, 2026), escrita em parceria com a conterrânea Thaís Guimarães (Belo Horizonte, 1961).
Nesse livro, as duas poetas apresentam 34 poemas (17 de cada) que homenageiam destacadas figuras femininas, entre as quais
Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Carolina Maria de Jesus, Renata Pallottini, Maria Valéria Rezende, Adélia Prado,
Conceição Evaristo e Alice Ruiz. Os poemas resultam de leituras da obra das homenageadas.
•o•
Adriane Garcia (Belo Horizonte, 1973) é graduada em História pela UFMG e especializou-se em Arte-Educação na UEMG.
Publicou os seguintes livros de poemas: Atlas de Anatomia (Caos & Letras, 2026); Círculos Onde Envelheço
(em parceria com Thaís Guimarães); Terceto, 2026); A Bandeja de Salomé (2022, Caos & Letras); Eva-Proto-Poeta (2020, Caos & Letras);
Garrafas ao Mar (2018, Penalux); Embrulhado para Viagem (2016 - Coleção Leve um Livro, orgs. Ana Elisa Ribeiro e Bruno Brum);
Enlouquecer é Ganhar Mil Pássaros (2015, e-book, Vida Secreta); O Nome no Mundo (2014, Armazém da Cultura);
Só, com Peixes (2015, Confraria do Vento); e Fábulas para Adulto Perder o Sono (2013, Biblioteca do Paraná).
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
•o•
RELÓGIO SEM ROSTO
No penúltimo boletim, falei sobre o lançamento de meu livro Relógio sem rosto, ocorrido em São Paulo no dia 06/08.
Publicado pela Editora Patuá, em parceria com a UBE (União Brasileira de Escritores), o livro foi vencedor do
Prêmio Claudio Willer de Poesia 2025, da UBE.
Na edição seguinte, esqueci completamente de fazer uma nota sobre a novidade
em torno desse livro. No final de agosto, o Relógio sem rosto foi anunciado como semifinalista do Prêmio Oceanos 2026. Para quem quiser conhecer
o livro, ele se encontra no site da editora
e em meu site Alguma Poesia.
Relógio sem Rosto deverá ser lançado aqui em Salvador, em data ainda a ser fixada.
•o•