Número 580 - Ano 24

Salvador, quarta-feira, 23 de setembro de 2026

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«A vida — na vida só há ida, / não há retorno no que me torno.» (Ronaldo Costa Fernandes) *

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Adriane Garcia
Adriane Garcia



Amigas e amigos,

A poeta belo-horizontina Adriane Garcia é sobejamente conhecida por quem acompanha este boletim. Adriane já esteve aqui em quatro edições anteriores: n. 505 (março/ 2023); n. 422 (maio/ 2019); n. 389 (novembro/ 2017); e n. 334 (junho/ 2015).

Ela retorna agora, graças ao lançamento recente de seu livro Atlas de Anatomia (Caos & Letras, 2026). Nesse livro, a autora adota uma estratégia criativa com que, confessadamente, adora trabalhar: elege um tema e, a partir dele, desenvolve todo um volume de poemas. Foi assim, por exemplo, com A Bandeja de Salomé (2022) e com Fábulas para Adulto Perder o Sono (2013).

Neste Atlas de Anatomia, a poeta toma o corpo humano como ponto de partida. Daí, avança criativamente para poemas com títulos como "Costela", "Dentes", "Dorso", "Fígado", "Estômago" (enfim, partes do corpo). Mas as palavras não se contentam em ficar presas ao arcabouço corporal: deslizam, ariscas, para o mundo e para a sociedade, sempre com a visão crítica afiada de Adriane.

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Como aplicados estudantes de medicina poética, façamos um passeio pelas partes anatômicas dissecadas nesse atlas. Comecemos com o poema breve “Este Corpo”. Aqui, a poeta estranha as lâminas de estudo: “Falam de glândulas lacrimais como se / Chorar / Fosse / Apenas / Escoamento”. No final, ela chega a uma conclusão discordante: “Meu atlas é feito de carne / E desordem”. Aí está: com estes dois versos, percebe-se logo que não temos nas mãos um simples livro que descreve funções corporais.

Em “Clavícula”, esse osso pertence a uma mulher. Além das dores de parto, o sexo feminino carrega “O tempo / O espelho // E um mundo / Jogando contra”. Conforme se vê, é mesmo um atlas feito de carne e desordem.

Vem agora o poema “Língua”. Nele a poeta se vale da informação de que o coração é o primeiro órgão a se formar no embrião humano. De forma inventiva, ela o chama de “coração-língua”, possivelmente porque o coração está sempre doidinho para dizer coisas. E conclui, poeticamente: “Deve ser por isso que / O coração / Vive saindo pela boca”.

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Os poemas “Membros Superiores” e “Membros Inferiores” saltam para fora da pele e caem no meio da sociedade de classes, com suas injustiças e desigualdades. “Em meu país, os membros superiores são responsáveis por / Não levarem alimento às bocas durante a fome / Não levarem cobertores aos corpos durante o frio”.

Inicialmente, parece que esses membros superiores, os braços, apenas se recusam a dar de comer às bocas e proteger os corpos do frio. Mas logo depois se nota que eles só cuidam dos próprios interesses e odeiam as próprias pernas. E estas, os membros inferiores?

Ah, as pernas, trabalhadoras, mantêm o país de pé. "Caminham, povoam os ônibus lotados”. E aí vem Drummond, o poeta que morreu em 1987: “Pra que tanta perna, meu Deus?”. Enfim, as pernas que sustentam o país são declaradas “Membros / De segunda classe”. O velho Carlos, por trás dos óculos e do bigode, aplaudiria a homenagem da conterrânea já no segundo quarto deste complicado século.

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Chegou a hora de abrir os “Olhos”. Estamos num ritmo circadiano, com o corpo funcionando conforme a alternância entre luz e escuridão. Então, a poeta se permite chamar os olhos de “janelas de minha alma”. Mas coisas horríveis são vistas por essas janelas: “vejo a criança palestina /carregando sua irmã atropelada / ela segue por quilômetros / na mais absoluta das misérias / humanas”.

Vem, por fim, o poema “Articulações”. Aqui o atlas de anatomia se volta para a idade provecta. Surgem a tristeza e o desemparo da senhora idosa, e pobre, que brinca com o tempo: “É problema de junta, meu filho / Junta tudo e joga fora”.

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Adriane Garcia é uma das poetas mais ativas da atualidade. Trabalhadora contumaz, tem sempre uma criação nova pronta para mostrar aos leitores. Neste mês, além do livro Atlas de Anatomia, enviou-me a coletânea Círculos Onde Envelheço (Tercetto, 2026), escrita em parceria com a conterrânea Thaís Guimarães (Belo Horizonte, 1961).

Nesse livro, as duas poetas apresentam 34 poemas (17 de cada) que homenageiam destacadas figuras femininas, entre as quais Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Carolina Maria de Jesus, Renata Pallottini, Maria Valéria Rezende, Adélia Prado, Conceição Evaristo e Alice Ruiz. Os poemas resultam de leituras da obra das homenageadas.

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Adriane Garcia (Belo Horizonte, 1973) é graduada em História pela UFMG e especializou-se em Arte-Educação na UEMG. Publicou os seguintes livros de poemas: Atlas de Anatomia (Caos & Letras, 2026); Círculos Onde Envelheço (em parceria com Thaís Guimarães); Terceto, 2026); A Bandeja de Salomé (2022, Caos & Letras); Eva-Proto-Poeta (2020, Caos & Letras); Garrafas ao Mar (2018, Penalux); Embrulhado para Viagem (2016 - Coleção Leve um Livro, orgs. Ana Elisa Ribeiro e Bruno Brum); Enlouquecer é Ganhar Mil Pássaros (2015, e-book, Vida Secreta); O Nome no Mundo (2014, Armazém da Cultura); Só, com Peixes (2015, Confraria do Vento); e Fábulas para Adulto Perder o Sono (2013, Biblioteca do Paraná).

Um abraço, e até a próxima,

Carlos Machado



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RELÓGIO SEM ROSTO

Relógio sem rosto No penúltimo boletim, falei sobre o lançamento de meu livro Relógio sem rosto, ocorrido em São Paulo no dia 06/08. Publicado pela Editora Patuá, em parceria com a UBE (União Brasileira de Escritores), o livro foi vencedor do Prêmio  Claudio Willer de Poesia 2025, da UBE.

Na edição seguinte, esqueci completamente de fazer uma nota sobre a novidade em torno desse livro. No final de agosto, o Relógio sem rosto foi anunciado como semifinalista do Prêmio Oceanos 2026. Para quem quiser conhecer o livro, ele se encontra no site da editora e em meu site Alguma Poesia.

Relógio sem Rosto deverá ser lançado aqui em Salvador, em data ainda a ser fixada.

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Atlas de anatomia


• Adriane Garcia


              



Will Barnet - girl.with.a.pitcher-1937
Will Barnet, estadunidense, Jogo de xadrez (1975)


ESTE CORPO

Verifico (versifico?)
As lâminas de anatomia
Frias
Falam de glândulas lacrimais como se
Chorar fosse
Apenas
Escoamento

Tomo papel
(desenho mal)
Meu atlas é feito de carne
E desordem.

CLAVÍCULA

Segue
De ombros curvados
A Mulher-Atlas

Em escala
Ininterrupta
Pesam-lhe casa, emprego
Solidão e filhos

Eva culpada e expulsa
Deram a ela dores/ de parto mas
Ninguém lhe avisou que
Carregaria:

O tempo
O espelho

E um mundo
Jogando contra.

LÍNGUA

A língua é uma extensão
Do coração
Independente da rima

Junto com isso descobri
A palavra
Embriogênese

Primeiro órgão
Nasce em nós
Coração-língua

Do mesmo tecido
Se tecem
Um e outro

Deve ser por isso que
O coração
Vive saindo pela boca



Will Barnet - ot-190
Will Barnet, Juventude (1970)


MEMBROS SUPERIORES

Os membros superiores são responsáveis por funções importantes
Por exemplo, em meu país, os membros superiores são responsáveis por
Não levarem alimento às bocas durante a fome
Não levarem cobertores aos corpos durante o frio
Acometidos de estranha paralisia
Os membros superiores, em meu país, agem
Somente em proveito próprio
Por exemplo, recuperando o movimento
Para assinar papéis que os beneficiem
Enquanto prejudicam todo o corpo
Os membros superiores, em meu país
Desenvolveram a estranha anomalia
De odiar as próprias pernas.

MEMBROS INFERIORES

Os membros inferiores são responsáveis por funções importantes
Por exemplo, em meu país, os membros inferiores são responsáveis por
Manter o país em pé

Acometidos de extremo cansaço
Os membros inferiores, em meu país, andam
Caminham, povoam os ônibus lotados, indo e vindo
Pra que tanta perna, meu Deus?
Ninguém pergunta, na exaustão
(além do que, o último poeta morreu
em mil novecentos e oitenta e sete)

Em meu país, os membros inferiores suportam
Toda a carga (é um país pesado)
Que insiste em declarar as pernas
Membros
De segunda classe.



Will Barnet - cat lover-1987
Will Barnet, Apaixonada por gatos (1987)


OLHOS

As janelas de minha alma
Estão abertas
Quero ver árvores
E bichos
Quero ver a luz amena
Da manhã crescendo
Ate o meio-dia
Decrescendo
Até poder dormir
Quero uma vista
Circadiana

Mas as janelas de minha alma
Estão abertas
E lá fora
O mundo imunda-se
(vejo a criança palestina
carregando sua irmã atropelada
ela segue por quilômetros
na mais absoluta das misérias
humanas).

ARTICULAÇÕES

As velhinhas que sabem
Que a pior das mortes
É perder o humor
Brincam:
“É problema de junta, meu filho
Junta tudo e joga fora”

Depois limpam os olhos
No lenço e
Guardam-no
Lacrimosamente
Na sacola

Continuam seguindo
Pela rua
Entre pedras de demolição

Obsoletas e
Invisíveis.




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Carlos Machado, 2026



Adriane Garcia
  in Atlas de Anatomia
  Caos & Letras, Nova Lima-MG, 2026
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* Ronaldo Costa Fernandes, "Tíquete para o futuro", in Memória dos Porcos (2012)
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* Imagens: quadros do pintor estadunidense Will Barnet (1911-2012)