
Alcione canta “Figa de guiné” (clique na imagem para ver o clipe no
YouTube). Foi ela a primeira a gravar esse samba, em 1972
Você está acostumado
a usar ou escutar o verbo “vingar” com o sentido de tirar desforra, promover
reparação ou compensação por uma ofensa ou prejuízo sofrido. Ou então com o
sentido de florescer ou sobreviver, em geral aplicado a uma muda que, plantada,
“vingou”. Mas quando se tenta atribuir essas ideias à primeira frase do samba
“Figa de guiné”, de Reginaldo Bessa e Nei Lopes, algo fica fora de lugar:
Quem me vinga da mandinga é figa de guiné (...)
Afinal, o que quer dizer esta frase? Então, a figa de guiné (aquele amuleto
de madeira em forma de mão fechada com o polegar entre o indicador e o dedo médio)
me “vinga” da mandinga, da feitiçaria? Como assim?
Insatisfeito, você vai ao dicionário Michaelis, e a dúvida continua. No Houaiss,
nada (isso, pelo menos, nas versões que tenho, ambas com mais de 20 anos). Afinal, a luz vem
no Aurélio e no Caldas Aulete. Nesses dois dicionários aparece a solução. O verbo
“vingar” é cheio de significados, tais como vencer, resistir, sobreviver, prosperar
etc. etc. Entre eles também estão as acepções de “defender”, “livrar”, “eximir”,
“salvar”. Retorne à letra da música e troque “vingar” por “livrar” ou “salvar”.
Quem me livra da mandinga é figa de guiné (...)
Ah, agora, sim. Mas, obviamente, com essa substituição, o samba,
neste trecho, perderia boa parte
de sua ginga, expressa na rima vinga/mandinga e ainda na repetição dos sons “ing”
e “ig” em todo o verso. Portanto, parabéns aos ouvidos de Nei Lopes e Reginaldo
Bessa. Mas agora já sabemos: existe outra forma de “vingar”, no caso atribuída
ao pequeno patuá.
É verdade que o sujeito poético desse samba é cheio de segredos. Ele (ou ela) também
faz questão de esconder “o de fé” de seu axé. O que é isso? A pessoa garante que
tem a “cabeça feita no peji do candomblé”. Ou seja, é alguém de dentro dessa
religião afro-brasileira. Portanto, tem um orixá associado à sua vida — por exemplo,
Iansã, Xangô, Ogum, Iemanjá. Pode-se entender que a pessoa não revela qual é seu orixá
para manter o “corpo fechado”.
* * *
“Ai, palavras, ai, palavras, / que estranha potência, a vossa!”, como celebra Cecília
Meireles no Romanceiro da Inconfidência. De fato, as palavras estão sempre nos
surpreendendo.
Aliás, no samba “Figa de guiné”, também tomei conhecimento de outro substantivo,
possivelmente originário do iorubá: “opanijé”. Em dado momento, a letra diz:
“Quem não pode com mandinga / Não batuca opanijé”. Mais uma vez, pedi socorro
ao dicionário. Aí, foi mais fácil. Eis o que diz o Houaiss: “nos candomblés,
toque com que se invoca e homenageia o orixá Omolu”. Então, na letra, Nei Lopes
lembra que quem não é iniciado não deve se meter naquilo que não conhece. Ou,
recorrendo a um velho ditado popular: “quem não pode com o pote (ou o balaio)
não segura na rodilha”. A rodilha, para quem não sabe,
é um rolo ou almofada de pano que se coloca na cabeça para apoiar o pote
(cheio d’água) ou o balaio (carregado de produtos) e aliviar o esforço de
carregá-lo. Enfim, você não deve assumir um compromisso ou responsabilidade
se não tem condições de dar conta do recado. Axê, axé.
* * *
FIGA DE GUINÉ
(Reginaldo Bessa / Nei Lopes)
[Refrão]
Quem me vinga da mandinga é figa de Guiné
Mas o de fé do meu axé não vou dizer quem é
Quem me vinga da mandinga é figa de Guiné
Mas o de fé do meu axé não vou dizer quem é
Sou da fé, cabeça feita
Axê, axé
No peji do candomblé
Axê, axé
Tenho o meu corpo fechado
Axê, axé
Da cabeça até ao pé
[Refrão]
Vai com calma, te segura
Axê, axé
Quem avisa amigo é
Axê, axé
Quem não pode com a mandinga
Axê, axé
Não batuca opanijé
[Refrão]
Onda forte não derruba
Axê, axé
Nem machuca quem tem fé
Axê, axé
Vou nas águas do meu santo
Axê, axé
Na enchente da maré
[Refrão]
Da Bahia me mandaram
Axê, axé
Minha figa de Guiné
Axê, axé
Com as bênçãos de Caymmi
Axê, axé
Jorge Amado e Carybé
[Refrão]
* * *
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Outras Palavras
Carlos Machado,
2026
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* António Ramos Rosa, português in Animal Olhar (2005)
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