Número 73

São Paulo, quarta-feira, 16 de junho de 2004

«É no devaneio que somos livres.» (Gaston Bachelard)
 


Mario Quintana


Caros amigos,


O gaúcho Mario de Miranda Quintana (1906-1994) publicou seu primeiro livro de poesia, A Rua dos Cataventos, em 1940. Modernista da segunda geração, o poeta
manteve no homem maduro reservas inesgotáveis de infância e a capacidade de criar o nonsense, o bom-humor, o lirismo desconcertante.

Quintana tem o dom de revelar a poesia do cotidiano, da rua, das coisas mais singelas. Ele extrai surpresas das coisas mais simples e sem segredos.
Seus livros são líricos e intrigantes desde o título: A Rua dos Cataventos, Baú de Espantos, Apontamentos de História Sobrenatural.

Com excepcional capacidade de cativar leitores, Quintana era também admirado por poetas como Drummond, Vinícius e Cecília Meireles. Manuel Bandeira saudou-o num poema:

Meu Quintana, os teus cantares
Não são, Quintana, cantares:
São, Quintana, quintanares

Quinta essência de cantares...
Insólitos, singulares...
Cantares? Não! Quintanares!

Essa invenção de Bandeira, o termo "quintanares", acabou virando título de um livro de Quintana, publicado em 1976.

O poeta candidatou-se três vezes à Academia Brasileira de Letras. Nunca lhe deram a vaga. Depois da terceira recusa, ele ironizou os imortais com seu conhecido "Poeminha do Contra":

Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão...
eu passarinho!

Profético Quintana.

Um abraço,

Carlos Machado

 

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P.S.: Foto do poeta atualizada em 05/09/2012.

 

Baú de espantos

Mario Quintana

 

 

O VIAJANTE

Eu sempre que parti fiquei nas gares
Olhando, triste, para mim...


UMA CANÇÃO

Minha terra não tem palmeiras...
E em vez de um mero sabiá,
Cantam aves invisíveis
Nas palmeiras que não há.

Minha terra tem relógios,
Cada qual com sua hora
Nos mais diversos instantes...
Mas onde o instante de agora?

Mas onde a palavra "onde"?
Terra ingrata, ingrato filho,
Sob os céus da minha terra
Eu canto a Canção do Exílio!


BEM-AVENTURADOS

Bem-aventurados os pintores escorrendo luz
Que se expressam em verde
Azul
Ocre
Cinza
Zarcão!
Bem-aventurados os músicos...
E os bailarinos
E os mímicos
E os matemáticos...
Cada qual na sua expressão!

Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia...

A impura linguagem dos homens!


PROSÓDIA

As folhas enchem de ff as vogais do vento.
 

OS POEMAS

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...


XVII

Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha...
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha...

Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada...
Arde um toco de vela amarelada...
Como único bem que me ficou!

Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca,
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da Noite! Asas do Horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004

Mario Quintana
•  "O Viajante", "Uma Canção", "Prosódia",
   "Bem-aventurados", "XVII"
  
In Apontamentos de História 
   Sobrenatural
  
Círculo do Livro, São Paulo, s/d
•  "Os Poemas"
  
In Esconderijos do Tempo
  
LP&M, Porto Alegre, 1980