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Carlos Drummond de Andrade
100 anos: 1902-2002

Cronista durante cinco décadas a fio, Drummond
exibia uma capacidade privilegiada de observar pequenos fatos do cotidiano e
transformá-los em matéria para suas colunas de jornal.
Nesta crônica cheia de bom-humor, ele se diverte com uma mania que, de vez
em quando, reaparece: a de pessoas que vêem discos voadores, ETs, duendes e
afins.
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DRUMMOND CORROMPIDO
Atenção, drummondianos:
cuidado
com o
livro
Carlos Drummond de Andrade - Poesia,
volume 118
da
Coleção
Nossos
Clássicos,
da
Agir
Editora.
Esse
voluminho
didático excede a
cota de
erros
aceitáveis,
em
qualquer
critério
que se
queira
aplicar. Ao
folhear o
livro
pela
primeira
vez, dei
de
cara
com duas
adulterações
graves. No
conhecido
poema “O
Lutador”
(do livro José),
os
versos
iniciais
viraram: “Lutar
com
palavras /
é a
luta
mais
vã, /
Enquanto
lutamos/
mal rompe
a
manhã.”
Somente
aí,
dois
erros:
vírgula
em
lugar do
ponto (em
vã) e
"Entanto"
virou
"Enquanto".
Em
“Consideração
do
Poema” (de
A Rosa do Povo), o
verso “Poeta
do
finito e
da
matéria”
foi corrompido
para “Poeta
do
finito e
da
miséria”!
Depois
dessa
primeira
impressão
muito má
que o
livro
me causou,
procurei o
site da
Agir (www.agireditora.com.br)
e deixei para os editores (editorial@agireditora.com.br)
um e-mail expressando meu estranhamento. Uma mensagem, diga-se, educada, na
qual fiz constar meu nome, endereço e tudo mais, para que não parecesse uma
coisa de maluquinho que só deseja ver o circo pegar fogo. Vocês responderam?
Nem eles.
Então,
como
já
desconfiava
que
haveria
mais
erros,
passei a
ler o
volume,
agora
com
mais
atenção e
intenção.
Não deu
outra: o
livro traz
45
poemas
—
21 contêm
erros, em certos casos até cinco no mesmo texto. No
poema “Eterno” (de
Fazendeiro do Ar, reproduzido
aqui no
boletim n.
13), sumiram
com o
verso “é
tudo
que
passou,
porque
passou”.
Isso
mesmo: o
verso
desapareceu!
No
mais,
entortam a
pontuação, engolem os
esses dos
plurais,
trocam
palavras
e,
pior,
quebram
versos
onde
não existe
quebra
ou,
então,
juntam
versos
originalmente
separados. Há
também
um
total
desrespeito
à estrofação:
ora reúnem
grupos de
versos
que nas
obras
oficiais
estão separados,
ora
desmembram
linhas
que
formavam
um
bloco
único.
Esse
desleixo editorial é terrivelmente
lamentável,
em
especial
quando se
trata de
obra
didática. E os
erros se multiplicam,
pois o voluminho
já está na
3ª
reimpressão
da 2ª
edição.
Fiquem de olho.
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Amor,
estou triste porque
sou o único brasileiro vivo
que nunca viu um disco voador.
Na minha rua todos viram
e falaram com seus tripulantes
na língua misturada de carioca
e de sinais verdes luminescentes
que qualquer um entende, pois não?
Entraram a bordo (convidados)
voaram por aí
por ali, por além
sem necessidade de passaporte
e certidão negativa de IR,
sem dólares, amor, sem dólares.
Voltaram cheios de notícias
e de superioridade.
Olham-me com desprezo benévolo.
Sou o pária,
aquele que vê apenas caminhão
cartaz de cinema, buraco na rua
& outras evidências pedestres.
Um amigo que eu tenho
todas as semanas vai ver o seu disco
na praia de Itaipu.
Este não diz nada para mim,
de boca, mas o jeito,
os olhos! contam de prodígios
tornados simples de tão semanais
apenas secretos para quem não é
capaz de ouvir e de entender um disco.
Por que a mim, somente a mim
recusa-se o OVNI?
Talvez para que a sigla
de todo não se perca, pois enfim
nada existe de mais identificado
do que um disco voador hoje presente
em São Paulo, Bahia
Barra da Tijuca e Barra Mansa.
(Os pastores desta aldeia
já me fazem zombaria
pois procuro, em vão procuro
noite e dia
o zumbido, a forma, a cor
de um só disco voador.)
Bem sei que em toda parte
eles circulam: nas praias
no infinito céu hoje finito
até no sítio de um outro amigo em Teresópolis.
Bem sei e sofro
com a falta de confiança neste poeta
que muita coisa viu extraterrena
em sonhos e acordado
viu sereias, dragões
o Príncipe das Trevas
a aurora boreal encarnada em mulher
os sete arcanjos de Congonhas da Luz
e doces almas do outro mundo em procissão.
Mas o disco, o disco?
Ele me foge e ri
de minha busca.
Um passou bem perto (contam)
quase a me roçar. Não viu? Não vi.
Dele desceu (parece)
um sujeitinho furta-cor gentil
puxou-me pelo braço: Vamos (ou: plnx),
talvez...?
Isso me garantem meus vizinhos
e eu, chamado não chamado
insensível e cego sem ouvidos
deixei passar a minha vez.
Amor, estou tristinho, estou tristonho
por ser o só
que nunca viu um disco voador
hoje comum na Rua do Ouvidor.

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