Número 20

Quarta-feira, 21 de maio de 2003

"Amar é temer a si nas horas cruas" (Antonio Brasileiro)
 


Joaquim Cardozo


Caros,

O pernambucano Joaquim Cardozo (1897-1978) tinha a capacidade de promover a conciliação de pólos aparentemente contrários: era poeta e calculista de concreto.
Como engenheiro, especialista em cálculo estrutural, Cardozo, a convite de Oscar Niemeyer, tornou-se responsável por alguns dos prédios de maior destaque em Brasília, entre eles a Catedral.

Como escritor, publicou livros de poesia e de teatro. Os textos mostrados aqui foram extraídos do volume Poesias Completas (Civilização Brasileira, 1979). Os poemas "Recordações de Tramataia" e "Chuva de Caju" pertencem ao seu primeiro livro Poemas, publicado em 1947. A principal característica da poesia de Cardozo, nessa obra, é esse lirismo bonito, associado à gente e à terra pernambucanas. Embora o livro seja de 1947, os dois poemas são da década anterior.

Lamentavelmente, se você procurar nas livrarias, não vai encontrar, hoje, nenhum livro do poeta Joaquim Cardozo.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado

 




POESIA.NET NA WEB

— Qual é o endereço do site? Esta pergunta, quase infalível, é feita por quem toma contato com este boletim. Repetidamente, tive de explicar que o poesia.net circulava apenas via e-mail. Agora, não precisarei mais dessa explicação. O boletim passa a ter também um endereço na web. Todas as edições semanais estarão reunidas no endereço: www.algumapoesia.com.br. Visite.
 

Recordações de Tramataia

Joaquim Cardozo

 




RECORDAÇÕES DE TRAMATAIA

                      
  I

Eu vi nascer as luas fictícias
Que fazem surgir no espaço a curva das marés
Garças brancas voavam sobre os altos mangues
De Tramataia.
Bandos de jandaias passavam sobre os coqueiros
                                                     [ doidos
De Tramataia.
E havia um desejo de gente na casa de farinha e
                                   [ nos mocambos vazios
De Tramataia.
Todavia! Todavia!
Eu gostava de olhar as nuvens grandes, brancas
                                                    [e sólidas,
Eu tinha o encanto esportivo de nadar e de
                                                    [ dormir.

                      
  II

Se eu morresse agora,
Se eu morresse precisamente
Neste momento,
Duas boas lembranças levaria:
A visão do mar do alto da Misericórdia de Olinda
                                      [ ao nascer do verão.
E a saudade de Josefa,
A pequena namorada do meu amigo de
                                              [ Tramataia. 

                                                               1934
                       


                        •••o•••



CHUVA DE CAJU


Como te chamas, pequena chuva inconstante e
                                                       [ breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Tereza? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios
                                                   [ aromáticos.
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e
                                                   [ mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos
                                                   [ viveiros
E em noites de lua cheia passam rondando os
                                                   [ maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Tereza ou Maria.

                                                           1936


 

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Carlos Machado, 2003

•  Joaquim Cardozo
    Poesias Completas
   
Civilização Brasileira, 2a. ed., Rio, 1979