Número 40

Quarta-feira, 8 de outubro de 2003 

«Tudo o que me decifra/ me deserda.» (Iacyr Anderson Freitas)
 


Vera Lúcia de Oliveira


Olá
,

Se você entrar num site de busca, como o Google, e procurar por
"Vera Lúcia de Oliveira", vai encontrar, talvez, mais endereços italianos que brasileiros. Não é estranho. A poeta Vera Lúcia de Oliveira, nascida em Cândido Mota, São Paulo, é professora de literatura na Itália, onde reside.

Vera Lúcia incorporou o italiano. Seus versos nascem ora na língua de Dante, ora em bom português brasileiro. Fiel aos dois lados, ela depois traduz os versos para um ou outro idioma. Mas a intimidade com o vernáculo adotado se tornou tão grande que Vera Lúcia até já conquistou prêmios de poesia em italiano.

Neste boletim, escolhi quatro poemas da autora. "Rua de Comércio" e "Pedaços"  foram extraídos do volume Geografie d'Ombra/ Geografias de Sombra (1989); "Andorinhas" vem do livro Tempo de Doer/ Tempo di Soffrire (1998). O último texto, "A Poesia Dói Dentro de Mim" integra a coletânea A Porta Range no Fim do Corredor (1983), livro de estréia da poeta.

O que parece caracterizar a poética de Vera Lúcia de Oliveira é essa aguda observação dos estilhaços da vida: a hora que passa, as folhas que caem numa lembrança de infância, o velho tanque de guerra integrado pacificamente à paisagem italiana.

A poesia dessa paulista não é de esbravejar, fazer caretas, falar alto. São palavras sutis como o pássaro que pára para repousar. Ou como os sons dolorosos derramados pelos ramos da árvore podada.

Além de poeta, Vera Lúcia é ensaísta. Seu trabalho mais recente, publicado em italiano e em português, é Poesia, Mito e História no Modernismo Brasileiro (Editora da Unesp, 2001), no qual a autora faz uma análise de três livros centrais do modernismo: Pau-Brasil (1925), de Oswald de Andrade, Martim Cererê (1928), de Cassiano Ricardo, e Cobra Norato (1931), de Raul Bopp.

Para conhecer outros trabalhos de Vera Lúcia de Oliveira, clique aqui para visitar o site da autora.

Veja ainda traduções para o italiano, assinadas por Vera Lúcia, de dois poemas de Carlos Drummond de Andrade.
 

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



Veja mais poemas de Vera Lúcia de Oliveira no boletim poesia.net 235.



 

Estilhaços de poesia

Vera Lúcia de Oliveira

 



RUA DE COMÉRCIO

Sou poeta da cidade magra
da cidade que não
caminha
sou dessa planicidade
sou da violência das vidas
poeta da cidade que afunda casas
e pessoas
sou da puta da cidade que só tem
superfície

amanheço todo dia nua e estreita
como uma rua de comércio



PEDAÇOS

Estou estilhaçada
silêncios saem da boca
mansos
estava desenhando
palavras
perdi o jeito de amanhecer

tenho tantos pedaços
que sou quase infinita

 

ANDORINHAS

Estou de bem com o mundo até
um tanque de guerra se cansa
da guerra até um pássaro pára
para
repousar

e depois o céu hoje é de um
azul que faz mal aos olhos
agudo que a gente fica ali
barriga pro ar
admirando as andorinhas
    que volteiam
matutando no que pensam lá no alto
no que
sabem
se sabem que estou de bem com o mundo
que volteiam lá em cima também para mim



A POESIA DÓI DENTRO DE MIM

A poesia dói dentro de mim
como quando meu pai podava a parreira
eu ia vendo caírem
as folhas
eu ia vendo caírem
as folhas
e ninguém sabia
como os ramos derramavam os sons
dolorosos
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2003

Vera Lúcia de Oliveira
• 
"Rua de Comércio" e "Pedaços"
    In Geografie d'Ombra/Geografias de Sombra
    Fonèma, Veneza, 1989
• 
"Andorinhas"
    In
Tempo de Doer / Tempo di Soffrire
    Pellicani, Roma, 1998
• 
"A Poesia Dói Dentro de Mim"
    In A Porta Range no Fim do Corredor
    Scortecci, São Paulo, 1983