Número 183 - Ano 4

São Paulo, quarta-feira, 4 de outubro de 2006 

«O que esperais de um Deus? / Ele espera dos homens que O mantenham vivo.» (Hilda Hilst) *
 


Walt Whitman, nos anos 1860


Caros,

Em 1857, na França, Charles Baudelaire deu a público a primeira edição de seu revolucionário Flores do Mal, livro que lhe valeria o título de primeiro poeta moderno. Dois anos antes, no lado de cá do Atlântico, o jornalista americano Walt Whitman (1819-1892), lançara Folhas de Relva (Leaves of Grass), outro livro de poemas igualmente ousado e inovador.

Entre os franceses, o livro de Baudelaire causou alentado escândalo. As Flores do Mal brotavam na contramão do bom-gosto vigente, trazendo para a poesia temas proibidos, como o sexo, a morte e a decadência humana. Uma coletânea em que o primeiro poema chamava o leitor de hipócrita. Com as Folhas de Relva não foi muito diferente. Mas, em certos aspectos, o impacto pareceu ainda maior.

Em seu livro Baudelaire ainda manteve de pé as regras clássicas da métrica e da rima. Whitman dinamitou tudo isso e adotou um verso completamente selvagem, livre de todas as amarras tradicionais. Também seus temas são novos: o trabalho, a vida nas cidades, camaradagem, amor e sexo. Uma poética completamente nova, por dentro e por fora.

Do ponto de vista das idéias,

Folhas de Relva foi o único livro de poesia de Whitman. Ao longo da vida, ele reescreveu os poemas da primeira edição, acrescentou numerosos outros, mas o volume manteve sempre o título original. São tantas as mudanças de uma edição para outra que é prudente sempre indicar a versão com que se está trabalhando.

A própria estrutura do livro é diferente de tudo que se conhecia até então. Originalmente, eram doze poemas, sem título. Caudalosos, cada um deles continha vários poemas. Somente a "Canção de Mim Mesmo" (Song of Myself), como ficou conhecido o poema inicial, tem cerca de 1340 versos e pode ser dividida em mais de 50 partes independentes, embora não haja divisões explícitas.

Os trechos ao lado (todos da "Canção de Mim Mesmo") foram extraídos da edição publicada em 2005 pela Editora Iluminuras, com tradução de Rodrigo Garcia Lopes. Esse volume, bilíngüe, se mantém fiel à primeira edição. Antes já havia outras traduções, a exemplo de Folhas das Folhas de Relva, antologia vertida pelo poeta Geir Campos.

Também recentemente (2005) surgiu uma tradução de Luciano Alves Meira, dada a público pela Martin Claret. Esta última edição, somente em português, caracteriza-se por uma dicção elevada (“Eu vos escutei, solenes e doces tubos do órgão”), enquanto o texto de Rodrigo Garcia Lopes tende mais ao coloquialismo, conforme se pode constatar nos trechos ao lado. Outra diferença é que a tradução de Alves Meira inclui mais poemas, porque se baseia numa edição posterior.

Referência universal, a poesia de Whitman influenciou muitos poetas no Brasil, entre os quais modernistas de primeira grandeza como Jorge de Lima, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade e também figuras mais recentes como Paulo Leminski e Ana Cristina Cesar.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



 

Folhas de relva

Walt Whitman

 


CANÇÃO DE MIM MESMO

EU CELEBRO a mim mesmo,
E o que eu assumo você vai assumir,
Pois cada átomo que pertence a mim pertence a
                                    [ você.

Vadio e convido minha alma,
Me deito e vadio à vontade .... observando uma
                            [ lâmina de grama do verão.

Casas e quartos se enchem de perfumes .... as
        [ estantes estão entulhadas de perfumes,
Respiro o aroma eu mesmo, e gosto e o
        [ reconheço,
Sua destilação poderia me intoxicar também,
        [ mas não deixo.

A atmosfera não é nenhum perfume .... não tem
        [ gosto de destilação .... é inodoro,
É pra minha boca apenas e pra sempre .... estou
        [ apaixonado por ela,
Vou até a margem junto à mata sem disfarces e
        [ pelado,
Louco pra que ela faça contato comigo.

A fumaça de minha própria respiração,
Ecos, ondulações, zunzuns e sussurros .... raiz
[ de amaranto, fio de seda, forquilha e videira,
Minha respiração minha inspiração .... a batida
    [ do meu coração .... passagem de sangue e
    [ ar por meus pulmões,
O aroma das folhas verdes e das folhas secas,
    [ da praia e das rochas marinhas de cores
    [ escuras, e do feno na tulha,
O som das palavras bafejadas por minha voz ....
    [ palavras disparadas nos redemoinhos do
    [ vento,
Uns beijos de leve .... alguns agarros .... o
    [ afago dos braços,
Jogo de luz e sombra nas árvores enquanto
    [ oscilam seus galhos sutis,
Delícia de estar só ou no agito das ruas, ou pelos
    [ campos e encostas de colina,
Sensação de bem-estar .... apito do meio-dia
    [ .... a canção de mim mesmo se erguendo
    [ da cama e cruzando com o sol.

 



Uma criança disse, O que é a relva? trazendo um
     [ tufo em suas mãos;
O que dizer a ela ?.... sei tanto quanto ela o que
     [ é a relva.

Vai ver é a bandeira do meu estado de espírito,
  [ tecida de uma substância de esperança verde.
Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado
  [ por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e examinar, e dizer
      É seu ?

 

O blablablá das ruas .... rodas de carros e o
     [ baque das botas e papos dos pedestres,
O ônibus pesado, o cobrador de polegar
     [ interrogativo, o tinir das ferraduras dos
     [ cavalos no chão de granito.
O carnaval de trenós, o retinir de piadas
     [ berradas e guerras de bolas de neve ;
Os gritos de urra aos preferidos do povo ....
     [ o tumulto da multidão furiosa,
O ruflar das cortinas da liteira — dentro um
     [ doente a caminho do hospital,
O confronto de inimigos, súbito insulto,
     [ socos e quedas,
A multidão excitada — o policial e sua estrela
     [ apressado forçando passagem até o centro
     [ da multidão;
As pedras impassíveis levando e devolvendo
     [ tantos ecos,
As almas se movendo .... será que são invisíveis
     [ enquanto o mínimo átomo é visível ?
Que gemidos de glutões ou famintos que
     [ esmorecem e desmaiam de insolação
     [ ou de surtos,
Que gritos de grávidas pegas de surpresa,
     [ correndo pra casa pra parir,
Que fala sepulta e viva vibra sempre aqui....
     [ quantos uivos reprimidos pelo decoro, Prisões de criminosos, truques, propostas
     [ indecentes, consentimentos, rejeições de
     [ lábios convexos,
Estou atento a tudo e as suas ressonâncias ....
     [ estou sempre chegando.

 

 

Sou o poeta do corpo,
E sou o poeta da alma.

Os prazeres do céu estão comigo, os pesares do
     [ inferno estão comigo,
Aqueles, enxerto e faço crescer em mim mesmo
     [ .... estes, traduzo numa nova língua.

Sou o poeta da mulher tanto quanto do homem,
E digo que é tão bom ser mulher quanto ser
     [ homem,
E digo que não há nada maior que a mãe dos
     [ homens.

 

 

Vadio uma jornada perpétua,
Meus sinais são uma capa de chuva e sapatos
      [ confortáveis e um cajado arrancado
      [ do mato ;
Nenhum amigo fica confortável em minha
      [ cadeira,
Não tenho cátedra, igreja, nem filosofia;
Não conduzo ninguém à mesa de jantar ou à
      [ biblioteca ou à bolsa de valores,
Mas conduzo a uma colina cada homem e mulher
      [ entre vocês,
Minha mão esquerda enlaça sua cintura,
Minha mão direita aponta paisagens de
      [ continentes, e a estrada pública.

Nem eu nem ninguém vai percorrer essa estrada
      [ pra você,
Você tem que percorrê-la sozinho.

Não é tão longe assim .... está ao seu alcance,
Talvez você tenha andado nela a vida toda e não
      [ sabia,
Talvez a estrada esteja em toda parte sobre a
      [ água e sobre a terra.

Pegue sua bagagem, eu pego a minha, vamos em
      [ frente;
Toparemos com cidades maravilhosas e nações
      [ livres no caminho.

Se você se cansar, entrega os fardos, descansa a
      [ mão macia em meu quadril,
E quando for a hora você fará o mesmo por mim;
Pois depois de partir não vamos mais parar.




SONG OF MYSELF

I CELEBRATE myself;
And what I assume you shall assume;
For every atom belonging to me, as good belongs
       [ to you.

I loafe and invite my Soul;
I lean and loafe at my ease, observing a spear
      [ of summer grass.

Houses and rooms are full of perfumes—the
       [ shelves are crowded with perfumes;
I breathe the fragrance myself, and know it and
       [ like it;
The distillation would intoxicate me also, but I
       [ shall not let it.

The atmosphere is not a perfume—it has no taste
       [ of the distillation—it is odorless;
It is for my mouth forever—I am in love with it;
I will go to the bank by the wood, and become
       [ undisguised and naked;
I am mad for it to be in contact with me.

The smoke of my own breath;
Echoes, ripples, buzz’d whispers, love-root,
      [ silk-thread, crotch and vine;
My respiration and inspiration, the beating of my
      [ heart, the passing of blood and air through
      [ my lungs;
The sniff of green leaves and dry leaves, and of
      [ the shore, and dark-color’d sea-rocks,
      [ and of hay in the barn;
The sound of the belch’d words of my voice,
      [ words loos’d to the eddies of the wind;
A few light kisses, a few embraces, a reaching
      [ around of arms;
The play of shine and shade on the trees as the
      [ supple boughs wag;
The delight alone, or in the rush of the streets,
      [ or along the fields and hill-sides;
The feeling of health, the full-noon trill,
     [ the song of me rising from bed and
     [ meeting the sun.

 

 

A child said, What is the grass? fetching it to me
      [ with full hands;
How could I answer the child? I do not know
     [ what it is, any more than he.

I guess it must be the flag of my disposition,
      [ out of hopeful green stuff woven.

Or I guess it is the handkerchief of the Lord,
A scented gift and remembrancer, designedly
      [ dropt,
Bearing the owner’s name someway in the
      [ corners, that we may see and remark,
      [ and say,
           Whose?

 

 

The blab of the pave, the tires of carts, sluff of
    [ boot-soles, talk of the promenaders;
The heavy omnibus, the driver with his
    [ interrogating thumb, the clank of the shod
    [ horses on the granite floor;
The snow-sleighs, the clinking, shouted jokes,
    [ pelts of snowballs;
The hurrahs for popular favorites, the fury of
    [ rous’d mobs;
The flap of the curtain’d litter, a sick man
    [ inside, borne to the hospital;
The meeting of enemies, the sudden oath, the
    [ blows and fall;
The excited crowd, the policeman with his star,
    [ quickly working his passage to the centre of
    [ the crowd;
The impassive stones that receive and return so
    [ many echoes;
What groans of over-fed or half-starv’d who fall
    [ sun-struck, or in fits;
What exclamations of women taken suddenly,
    [ who hurry home and give birth to babes;
What living and buried speech is always vibrating
    [ here—what howls restrain’d by decorum;
Arrests of criminals, slights, adulterous offers
    [ made, acceptances, rejections with convex
    [ lips;
I mind them or the show or resonance of them —
    [ I come again and again.

 



I am the poet of the Body;
And I am the poet of the Soul.

The pleasures of heaven are with me, and the
     [ pains of hell are with me;
The first I graft and increase upon myself—the
     [ latter I translate into a new tongue.

I am the poet of the woman the same as the
     [ man;
And I say it is as great to be a woman as to be
     [ a man;
And I say there is nothing greater than the
      [ mother of men.

 



I tramp a perpetual journey,
My signs are a rain-proof coat, good shoes, and a
     [ staff cut from the woods; 1200
No friend of mine takes his ease in my chair;
I have no chair, no church, no philosophy;
I lead no man to a dinner-table, library, or
     [ exchange;
But each man and each woman of you I lead
     [ upon a knoll,
My left hand hooking you round the waist,
My right hand pointing to landscapes of
     [ continents, and a plain public road.

Not I—not any one else, can travel that road
     [ for you,
You must travel it for yourself.

It is not far—it is within reach;
Perhaps you have been on it since you were born,
     [ and did not know;
Perhaps it is every where on water and on land.

Shoulder your duds, dear son, and I will mine,
     [ and let us hasten forth,
Wonderful cities and free nations we shall fetch
     [ as we go.

If you tire, give me both burdens, and rest the
     [ chuff of your hand on my hip,
And in due time you shall repay the same service
     [ to me;
For after we start, we never lie by again.

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2006

Walt Whitman
•  "Canção de Mim Mesmo"
    In Folhas de Relva
    Edição bilíngüe, tradução e posfácio de
    Rodrigo Garcia Lopes
   
Ed. Iluminuras, São Paulo, 2005
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* Hilda Hilst, "Passeio",
in Exercícios, Ed. Globo, 2002