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Sônia Barros
Caros amigos,
Escritora experiente, com sete livros de ficção já publicados — todos na seara
infanto-juvenil —, a paulista Sônia Barros (Monte Mor, 1968) publica agora sua
primeira coletânea de poesia. Trata-se de Mezzo Vôo, que sai esta semana
pela editora Nankin.
A poesia que Sônia Barros oferece em seu Mezzo Vôo é algo doce, de um
lirismo delicado, e, ao mesmo tempo, inquieto, de uma consciência que não aceita
comodamente as minguadas ofertas do mundo. É o que ela mesma anuncia no poema
"Origens": "Persigo o sonho / do vôo / desde sempre, / desde antes / de nascer".
Esse vôo funciona como um fio condutor que perpassa todo o livro. Ele reaparece,
interrompido, em "Herança Paterna" e se manifesta, ainda, de diferentes
maneiras, em vários outros poemas.
Dois pontos me chamam a atenção na poesia de Sônia Barros. Um é a capacidade que
ela exibe de, com duas ou três palavras, delinear um quadro bem preciso. Um
exemplo está em "Origens", parte 2: "Quartinho / (penico, lamparina,
espiriteira)". Não é preciso mais nada para desenhar na mente do leitor o
ambiente que a autora deseja transmitir.
O outro ponto — que, pensando bem, talvez seja uma extensão do primeiro — é a
economia de meios com que a poeta consegue se expressar em determinados
momentos. Nesse caso, cito o enxutíssimo poema "Epifania":
"Ceva / e espera: / o vôo da voz virá". Aqui, além de tudo, há um excelente jogo
sonoro. Nos dois primeiros versos, a assonância entre "ceva" e "espera". No
último, a aliteração em V.
Que Sônia Barros seja bem-vinda à poesia. Nós, leitores e amantes da poesia,
ficamos aqui torcendo para que sua trajetória seja um ilimitado exercício de vôo
pleno.
Um abraço, e até a próxima.
Carlos Machado
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MEZZO VÔO
- LANÇAMENTO
Dica para os paulistanos: neste sábado, Sônia Barros está lançando seu Mezzo
Vôo. Anote aí:
Data: sábado, 5 de maio de 2007
Hora: a partir das 17h00
Local: Paralelo 12:27 Bar
Rua Joaquim Távora,
1227
Vila Mariana – São
Paulo
Tel. (11) 5579-1227
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O vôo da voz
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Sônia Barros |
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ORIGENS
para Maria Aparecida Rangel Murbach
1
Persigo o sonho
do vôo desde sempre, desde antes de nascer.
Sobrevoava abismos e subia
rumo às nuvens (bracinhos abertos)
no céu dos sonhos de minha mãe: mulher que não me gerou mas amparou-me
na queda e cultivou minhas asas.
Essa mulher da terra também aprendeu a alçar vôo.
2
Cidadezinha, pracinha, bibliotecazinha. Dentro delas, o castelo:
livro-asa livro-água nas mãos em concha da menina lagarta que sonhava borboletas cor-de-nuvem.
Quartinho (penico, lamparina, espiriteira). Dentro dele,
estrelas nasciam dos lábios cansados da mãe — de olhos fechados pelo peso da lida —
voavam e enchiam a boca sedenta de asas da menina sempre acordada.
HERANÇA PATERNA
Não nasci sem pai: ele esperou até que eu nascesse.
Depois, ao constatar o sexo frágil de sua quarta frágil-filha-mulher, ele, o homem forte, se foi.
Como herança, deixou-me esta aptidão para vôos interrompidos:
eterno fugir de onde nunca estivemos.
CAÇADA
para Donizete Galvão
Tiro certeiro
no cerne da coisa que se deseja comer viva.
Ave atingida no exato centro — âmago — de onde escorre
o lodo o turvo líquido o sangue
até que se chega ao fundo do límpido poço — coração — de onde jorra a água
que pode, enfim, ser engolida
avepalavra ainda viva.
EPIFANIA
Ceva e espera:
o vôo da voz virá.
SIMULACRO
A boca sorri como se tivesse asas e águas corressem: sorriso houvesse, ainda,
no leito, por dentro.
Não há mais
rio secou.
O que se vê do lado de fora:
miragem que aflora feito flor desenhada à força — pedaços de traços — em cacos.
(vôo amputado no ar
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