Número 96

São Paulo, quarta-feira, 24 de novembro de 2004

«Sou um poeta/ um grito unânime/ Sou um coágulo de sonhos» (Giuseppe Ungaretti)
 


Décio Pignatari


Caros amigos,


Nascido em 1927, o paulista Décio Pignatari é poeta, ensaísta, publicitário e teórico da comunicação. Ao lado dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, tornou-se um dos principais formuladores da poesia concreta, lançada em 1956.

Os dois primeiros poemas mostrados aqui, "beba coca cola" e "terra", são do final dos anos 50, portanto da fase heróica da poesia concreta. Em "beba coca cola", Pignatari parte de um slogan de propaganda e processa uma desconstrução e reconstrução das palavras, que vão desaguar em "cloaca".  A intenção é clara: fazer uma paródia crítica, uma espécie de anticomercial.

Em "terra" o poeta se aproxima do debate sobre a questão fundiária — um item obrigatório nos anos 50 e 60. Neste poema, ele
trabalha com uma série de palavras ou expressões sugeridas pela palavra nuclear, terra, e pelo contexto da discussão. Então, ali se encontram trechos como  ter a terra, arar a terra, rara terra, terra a terra. Visualmente, o poema se desenha como a representação aérea de um campo agricultado. Se quiser voar livremente, também se pode dizer que as letras T, de terra, na fonte escolhida pelo poeta, lembram cruzes — as mortes registradas (até hoje) na luta pela terra.

Em "Torre de Babel", Pignatari constrói uma torre de torres conhecidas na tradição arquitetônica ou religiosa, com direito a alguns ruídos bem-humorados (tour de force; torre a esmo: torresmo?). Na base da torre, o caos babeliano.

Por fim, vem o poema dedicado à página de janeiro/fevereiro num calendário concebido por Décio Pignatari para a empresa Philips, em 1980. Aqui confunde-se o trabalho do poeta com o do publicitário. Pignatari é sempre citado como o criador da marca "Lubrax", entre outros feitos no plano da propaganda comercial.

Naturalmente, essa indiferenciação entre poesia e publicidade é vista por alguns com restrições. Mas o calendário Philips não é a única peça do gênero incorporada à poesia de Pignatari. Ele também publicou entre seus trabalhos poéticos o anúncio que fez para um produto farmacêutico chamado "Disenfórmio" (1967). Vale dizer que cada poema do calendário é acompanhado da foto de uma atividade artesanal, à qual está ligado. O poema de janeiro/ fevereiro mostra uma mulher tecendo um tapete (ou algo similar) com algo que parece fibra vegetal. "É a língua têxtil", diz Pignatari. Texto sem palavras.

Vale lembrar que parte da obra de Décio Pignatari envereda pela semiótica pura. Não tem palavras, nem texto. São sinais
em alguns casos figuras geométricas ou desenhos articulados para criar uma semântica específica para o poema. Essas peças seria difícil reproduzir aqui.

Um abraço,

Carlos Machado



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JORNAL LITERÁRIO


O Suplemento Literário de Minas Gerais, jornal mensal publicado pela secretaria de cultura do Estado mineiro, é uma publicação tradicional no país. Fundado em 1969 pelo ficcionista Murilo Rubião (1916-1991), autor de obras como O Ex-Mágico e O Pirotécnico Zacarias, o Suplemento encontra-se agora em nova fase. Dirigido pelo poeta e ensaísta Fabrício Marques, o jornal, em formato tablóide, publica prosa e verso de autores novos e consagrados de todo o país.

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OFICINA DE POESIA

Esta é uma dica somente para quem está em Salvador, Bahia. A poeta Maria da Conceição Paranhos está orientando exercícios poéticos nos próximos dias 26/11, 03/12, 10/12 e 17/12, sextas-feiras, das 18:00 às 22:00 horas no Centro Empresarial Canela. Se você se aventura na escrita de poesia, confira. Detalhes pelo fone 235-6002.

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Texto com e sem palavras

Décio Pignatari

 



beba coca cola (1957)
 

 

l


terra (1956)
 


l


torre de babel (1960)
 

TORRE DE BABEL
TORRE DE BELÉM
TURRIS EBURNEA
TOUR EIFFEL
TOUR DE FORCE
TOWER OF LONDON
TOUR DE NESLE
TORRE DI PISA
TORRE A ESMO

ENEREATLRIE
TBOIOCRDEFO
EARREEDBTSF
RRUSIOSOEEO
OTEBEDTTALO
ULORBTEOAOF
ROOSLNRRETE
MNPDERFRRLM
ETDEUWEREIN
URUD

 

l


JANEIRO/FEVEREIRO
Calendário Philips 1980


Nem só a cav
idade da boca

Nem só a língua

Nem só os dentes
e os lábios

fazem a língua

Ouça
as mãos
tecendo a língua
e sua linguagem

É a língua
têxtil

O texto
que sai das
mãos
sem palavras
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2004

Décio Pignatari
In Poesia Pois É Poesia e Poetc.
Editora Brasiliense, São Paulo, 1986