Número 258 - Ano 6

São Paulo, quarta-feira, 12 de novembro de 2008 

«O tempo sou eu./ Cada um dos meus gestos / atirados na rampa / de lixo dos objetos.» (Francisco Carvalho) *
 


José Paulo Paes


Caros,

Em 9 de outubro passado, completaram-se dez anos do passamento do poeta paulista José Paulo Paes (1926-1998). Para assinalar a passagem desse decênio, amigos e admiradores do poeta promoveram encontros com leituras de seus poemas. Além disso, toda a sua obra — poesia, ensaios, traduções — está sendo reeditada. Vale destacar a reunião dos poemas de José Paulo Paes no volume Poesia Completa, que já está nas livrarias em edição da Companhia das Letras.

José Paulo Paes já apareceu aqui no poesia.net na edição n. 58, de março de 2004. Volta agora neste boletim que tenta ressaltar outra faceta do poeta. Uma das características centrais da obra desse paulista de Taquaritinga é a concisão de seus poemas, quase sempre apimentados por um toque de humor.

Neste boletim, no entanto, selecionei poemas de outro José Paulo Paes. De fato, na pequena amostra ao lado, há poemas de apenas dois de seus livros: Prosas Seguidas de Odes Mínimas, de 1992, e A Meu Esmo, de 1995. Nessas duas coletâneas, José Paulo Paes deixa de lado o humor e assume uma postura mais reflexiva. São poemas mais longos que o  habitual e foram escritos num período que alguém já chamou de "fase lírica" de José Paulo Paes.

Nesses textos, o poeta traça um arco existencial que une os dois extremos da vida, a infância e a velhice. O tom não chega a ser grave nem elegíaco, mas certamente é muito mais contido, e fica bem longe do espírito mordaz de peças como "Opção" ("quem tem boca vai a roma / ou a sodoma"), de A Poesia Está Morta, Mas Juro Que Não Fui Eu (1988).

O arco infânciavelhice perpassa os quatro poemas transcritos ao lado. Em "Revisitação", o poeta se sente perseguido por sua cidade natal e as recordações que tem de lá. Em outro poema, "A Casa", ele mergulha especificamente no ambiente doméstico, na casa de sua família, "cheia de fantasmas". Nesse poema desfilam personagens da infância — pai, mãe, avô e outros parentes — além do menino, que se supõe ser o próprio poeta.

Em "Outro Retrato", aparece mais um personagem do passado: uma jovem com laço de fita no cabelo. Por fim, vem um poema que assinala a extremidade final da trajetória do homem: "Escolha de Túmulo", uma das páginas mais cristalinas da obra de José Paulo Paes.

Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



                      •o•

 

LANÇAMENTOS

Novembro tem sido pródigo em lançamentos literários. Aqui, uma pequena amostra do que ainda está previsto para este mês em São Paulo e no Rio:



• Luiz Roberto Guedes
Meu Mestre de História Sobrenatural

O poeta Luiz Roberto Guedes traz a público mais uma de suas ficções juvenis. Desta vez são as narrativas de um professor de história sobrenatural. O livro sai pela Nankin.

Data: 13/11, quinta-feira
Hora: 19h30
Local: Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Tel. (11) 3814-5811
São Paulo – SP
 


• Annita Costa Malufe
Como se Caísse Devagar

• Reynaldo Damazio

Horas Perplexas

Os poetas Annita Costa Malufe e Reynaldo Damazio lançam, no mesmo evento, suas novas coletâneas de poemas: Como se Caísse Devagar (Annita) e Horas Perplexas (Damazio). Os dois livros saem pela Editora 34.

Data: 17/11, segunda-feira
Hora: 18h30
Local: Livraria Martins Fontes
Av. Paulista, 509 - Loja 17
Tel. (11) 2167-9990
São Paulo – SP

 

• Paula Glenadel
A Fábrica do Feminino

Com lançamentos em Niterói e no Rio de Janeiro, a poeta carioca Paula Glenadel apresenta seu novo trabalho, A Fábrica do Feminino, editado pela 7Letras.

Data (1): 21/11, sexta-feira
Hora: 19h00
Local: Bistrô Mac
Museu de Arte Contemporânea
Praia da Boa Viagem, s/n
NIterói – RJ

Data (2): 03/12, quarta-feira
Hora: 19h00
Local: Brechó A Coqueluche do Momento
Rua Alice, 217 - Laranjeiras
Rio de Janeiro – RJ
 


• Carlos Felipe Moisés
Noite Nula

• Fernando Fábio Fiorese Furtado
Um Dia, o Trem

• Gabriel Rath Kolyniak
Partilha

Outro lançamento múltiplo ocorre em São Paulo, reunindo os poetas Carlos Felipe Moisés, com o volume Noite Nula; Fernando Fábio Fiorese Furtado, com Um Dia, o Trem; e Gabriel Rath Kolynak, com A Partilha.

Data: 24/11, segunda-feira
Hora: A partir das 19h30
Local: Bar Balcão
Rua Dr. Melo Alves, 150
Tel. (11) 3063-6091
São Paulo – SP
 


• Izacyl Guimarães Ferreira
A Conversação


A Conversação é o novo trabalho do poeta Izacyl Guimarães Ferreira, também autor de Memória da Guerra (2002) e Discurso Urbano (2007).

Data: 26/11, quarta-feira
Hora: Das 18h30 às 21h00
Local: Livraria Asabeça
Rua Dep. Lacerda Franco, 187
Pinheiros
Tel. (11) 3031-3956
São Paulo – SP



JÁ LANÇADOS

Dois outros livros já lançados este mês:

• Pádua Fernandes
Cinco Lugares da Fúria


Seis anos após O Palco e o Mundo, coletânea de poemas publicada em Portugal, o poeta carioca Pádua Fernandes publica a coletânea Cinco Lugares da Fúria, que sai pela Editora Hedra.
 

• Eliane Brum
O Olho da Rua


A premiadíssima escritora gaúcha Eliane Brum mostra, mais uma vez, sua garra jornalística e texto primoroso em O Olho da Rua – 10 Grandes Reportagens e Seus Bastidores, publicado pela Editora Globo.
 

Cidade, por que me persegues?

José Paulo Paes

 



REVISITAÇÃO

Cidade, por que me persegues?

Com os dedos sangrando
já não cavei em teu chão
os sete palmos regulamentares
para enterrar meus mortos?
Não ficamos quites desde então?

Por que insistes
em acender toda noite
as luzes de tuas vitrinas
com as mercadorias do sonho
a tão bom preço?

Não é mais tempo de comprar.
Logo será tempo de viajar
para não se sabe onde.
Sabe-se apenas que é preciso ir
de mãos vazias.

Em vão alongas tuas ruas
como nos dias de infância,
com a feérica promessa
de uma aventura a cada esquina.
Já não as tive todas?

Em vão os conhecidos me saúdam
do outro lado do vidro,
desse umbral onde a voz
se detém interdita
entre o que é e o que foi.

Cidade, por que me persegues?
Ainda que eu pegasse
o mesmo velho trem,
ele não me levaria
a ti, que não és mais.

As cidades, sabemos,
são no tempo, não no espaço,
e delas nos perdemos
a cada longo esquecimento
de nós mesmos.

Se já não és e nem eu posso
ser mais em ti, então que ao menos
através do vidro
através do sonho
um menino e sua cidade saibam-se afinal

intemporais, absolutos.


          De A Meu Esmo (1995)



"Ainda que eu pegasse / o mesmo velho trem, / ele não me levaria / a ti, que não és mais." (José Paulo Paes) - Nona Podschlne - Train Station Goodbye
"Ainda que eu pegasse / o mesmo velho trem, / ele não me levaria / a ti, que
não és mais." (José Paulo Paes)  •  Nona Podschlne - Train Station Goodbye




A CASA

Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.

Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com
      corações de purpurina.

Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas
      de circo.

Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim
      dos tempos.

No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha.

Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu
      próprio caixão.

Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas
      da família.

Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do
      outro mundo.

No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai
      rachando lenha.

E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que
      está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos.

Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na
      depressa.

Antes que ele acorde e se descubra também morto.

 

OUTRO RETRATO

O laço de fita
que prende os cabelos
da moça no retrato
mais parece uma borboleta.

Um ventinho qualquer
e sai voando
rumo a outra vida
além do retrato.

Uma vida onde os maridos
nunca chegam tarde
com um gosto amargo
na boca.

Onde não há cozinhas
pratos por lavar
vigílias, fraldas sujas
coqueluches, sarampos.

Onde os filhos não vão
um dia estudar fora
e acabam se casando
e esquecem de escrever.

Onde não sobram contas
a pagar nem dentes
postiços nem cabelos
brancos nem muito menos rugas.

Um ventinho qualquer...
O laço de fita
prende sempre — coitada! —
os cabelos da moça.


"Onde os cavalos do sono / batem cascos matinais." (José Paulo Paes) - Marnie Vollenhals - Running Wild in Blue
"Onde os cavalos do sonho / batem cascos matinais"
Marnie Vollenhals - Running Wild in Blue

 

ESCOLHA DE TÚMULO

          Mais bien je veus qu'un arbre
          m'ombrage au lieu d'un marbre.
                Ronsard

Onde os cavalos do sono
batem cascos matinais.

Onde o mundo se entreabre
em casa, pomar e galo.

Onde ao espelho duplicam-se
as anêmonas do pranto.

Onde um lúcido menino
propõe uma nova infância.

Ali repousa o poeta.

Ali um vôo termina,
outro vôo se inicia.
 

          De Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992)
 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2008

José Paulo Paes
•  In Poesia Completa
    Companhia das Letras, São Paulo, 2008
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* Francisco Carvalho, "O Tempo", in Rosa dos Eventos (1982),
  republicado em Memórias do Espantalho (2004)