Número 34

Quarta-feira, 27 de agosto de 2003 

«Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida.» (Emílio Moura)
 


Dante Milano


Caros amigos,

Considerado por Drummond "um poeta de extraordinária qualidade", Dante Milano (1899-1991) é quase clandestino na literatura brasileira. Poucos o conhecem, pouco se escreve sobre ele. Mas, de certo modo, ele quis assim. Avesso ao "rumor de falsa glória", ele afirma que "só o silêncio é musical".

Embora freqüentasse as rodas literárias do Rio de Janeiro, onde nasceu e viveu, Dante Milano era completamente arredio à fama. Publicou seu primeiro e único livro, Poesias, aos 49 anos e, mesmo com a acolhida entusiástica da crítica, manteve-se distante. Convidado a candidatar-se à Academia Brasileira de Letras, jamais aceitou.

Na poesia de Milano não há expansões de lirismo. Há emoção, mas o sentimento parece refreado pela rédea do pensamento lógico. Devido, em parte, a essa contenção, os poemas dele parecem exalar sempre um ar sombrio, taciturno — aliás, duas palavras de seu agrado. Esse clima está, por exemplo, no pequeno poema "O Beco", transcrito ao lado. O poeta reforça, com o som das palavras, a atmosfera de desconfiança que deseja mostrar: noturno, muro, gatuno, soturno, escuro, taciturno, obscuro.

Um tema igualmente caro a Dante Milano é o da dificuldade de distinguir entre essência e aparência. Ele perpassa tanto "O Beco" como o "Poema do Falso Amor". Neste último, a grande questão é diferenciar entre o amor falso e o amor verdadeiro, já que ambos podem ter a mesma cara. O poeta trabalha com tercetos nos quais as palavras finais, repetidas, são o eixo do poema: verdadeiro, diferença, falso e amor.

Observem, por fim, a crueza baudelairiana com que ele descreve os horrores da guerra em "Vozes Abafadas". Definitivamente, não é um texto para corações delicados e sonhadores.

Talvez para fazer jus a sua aversão à glória, Dante Milano é mais um poeta do qual não consegui nenhuma fotografia.

Um abraço,


Carlos Machado


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NOTA EM 24/04/2005

A fotografia acima foi incluída nesta data, quase dois anos depois da circulação do boletim. Foi copiada do livro Obra Reunida, de Dante Milano, publicado em 2004 pela Academia Brasileira de Letras.


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Veja também sobre Dante Milano o boletim:
- poesia.net 241

Poema do falso amor

Dante Milano

 


O BECO
 

No beco escuro e noturno

Vem um gato rente ao muro.

Os passos são de gatuno.

Os olhos são de assassino.

 

Esgueirando-se, soturno,

Ele me fita no escuro.

Seus passos são de gatuno.

Seus olhos são de assassino.

 

Afasta-se, taciturno.

Espanta-o meu vulto obscuro.

Meus passos são de gatuno.

Meus olhos são de assassino.


 

 

POEMA DO FALSO AMOR

 

O falso amor imita o verdadeiro

Com tanta perfeição que a diferença

Existente entre o falso e o verdadeiro

 

É nula. O falso amor é verdadeiro

E o verdadeiro falso. A diferença

Onde está? Qual dos dois é o verdadeiro?

 

Se o verdadeiro amor pode ser falso

E o falso ser o verdadeiro amor,

Isto faz crer que todo amor é falso

 

Ou crer que é verdadeiro todo amor.

Ó verdadeiro Amor, pensam que és falso!

Pensam que és verdadeiro, ó falso Amor!
 



VOZES ABAFADAS

O ruído vem de longe e quase não se escuta.

Passa no ar ou ruge dentro de nossos ouvidos?

Vem do centro da terra ou do terror das
                                [ consciências?

 

São crianças chorando com medo da vida?

Soluços de mães que ignoram as causas?

Gritos alucinados de homens caídos sob as

                                [ rodas do carro terrível?

São os últimos brados das pátrias esfaceladas,

Os uivos do vento nas bandeiras das nações

                                [ vencidas,

Ou no ventre do caos os vagidos do
                                [ mundo futuro?

 

Cala, poesia,

A dor dos homens não se pode exprimir em

                     [ nenhuma língua.

Talvez a exprimisse o ai da cabeça separada do
                     [ corpo que rola ensangüentada,

Talvez a escrevesse a mão hirta que no último

                     [ gesto de horror largou a espada,

Talvez a dissesse o grito sufocado, o pranto que

          [ salta, o suor frio, o olhar esbugalhado...

Ante o ricto dos mortos compreendo que a dor

                     [ não se exprime

Em língua nenhuma e ainda que os homens

                     [ falassem todos uma só língua.

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2003

Dante Milano
•  In
Os Melhores Poemas
    Seleção de Ivan Junqueira
    Editora Global, São Paulo, 1998
    © Alda Milano, 1996