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Prisca Agustoni
Caros amigos,
A jovem suíço-italiana Prisca Agustoni é uma escritora de difícil classificação.
Primeiro, porque ela escreve, com igual desenvoltura, em italiano
—
sua
lingua mater
—, em português e em espanhol. Depois, porque pratica um
lirismo que também não se rende a catalogações automáticas. Nascida em Lugano,
na Suíça italiana, ela morou em Genebra, onde se formou em letras hispânicas e filosofia. Vive em Minas Gerais desde 2002, onde faz o doutorado em
letras pela PUC-MG.
Neste boletim, incluo trabalhos de dois livros da
poeta: Inventario di Voci/ Inventário de Vozes (2001) e Sorelle di Fieno / Irmãs
de Feno (2002), ambos escritos em italiano e em português, o segundo com
tradução do poeta juiz-forano Edimilson de Almeida Pereira. Prisca Agustoni tem ainda outro
livro, Días Emigrantes e Outros Poemas (2004), mas neste os textos estão apenas em espanhol.
"Minha palavra / é explosão de argila" diz Prisca no poema "Vozes". De fato,
sua poesia parece combinar essa consciência do barro e dos "homens que caçam a
origem". Silêncios, esperas, distâncias. Há uma certa nostalgia plasmada em versos
limpos, onde "cada palavra tem seu espaço".
Prisca elimina a separação entre o prosaico e o
poético; entre o chão do dia-a-dia e a esfera do sonho. Tudo se junta na carne
suave desses poemas. Para a professora Maria José Somerlate
Barbosa, os poemas de Inventário "apresentam, de uma forma ou de outra, uma
cartografia de desejos representada por objetos, emoções e impressões
cuidadosamente escolhidos".
Em Irmãs de Feno, a poeta toma como ponto de partida
um movimento de migração interna na Suíça. São moças do cantão italiano (Ticino)
que no início do século XX passam para o lado alemão do país. Vão trabalhar como
tecelãs em internatos dirigidos por freiras. É a passagem do mundo rural para o
industrial e
— num processo mais simbólico
— da língua italiana para o alemão. Com seus
filtros poéticos, Prisca Agustoni dá voz a essas meninas do passado. Vejam ao
lado dois poemas de Irmãs do Feno, "Fiar a Voz" e "Réquiem".
Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado
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HÍDRIAS, NOVO LIVRO DE
DORA FERREIRA DA SILVA
A poeta Dora Ferreira da Silva (poesia.net
n. 76) lançou nesta terça-feira em São Paulo uma nova coletânea de poemas, Hídrias.
Segundo a apresentação do livro, cada poema evoca um mito grego. Hídrias,
esclarece o texto, "são recipientes que contêm água, elemento sagrado de pureza
e purificação".
A obra sai pela Editora Odysseus: tel. (11) 3816-0835; site
www.odysseus.com.br.
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LITERATURA EM JEQUIÉ-BA
Esta dica é para quem mora na Bahia ou vai estar por lá na região de
Jequié, na semana de 6 a 11 de março. A grande pedida literária do período é o
Encontro Nacional de Leitura e Literatura Infanto-Juvenil da UESB (Universidade
do Sudoeste da Bahia). O evento vai ter de tudo: palestras, exibição de filmes,
mesas-redondas, oficinas, minicursos, lançamentos de livros, shows e
apresentações culturais. Estão confirmadas as presenças de dois poetas baianos
já enfocados aqui no poesia.net:
Myriam Fraga e
Ruy Espinheira Filho. Outros pontos altos vão ser os shows dos
cantores Elomar e Geraldo Azevedo. Mais informações sobre o encontro pelo telefone (73) 526-8619, ou pelos e-mails
estale@uesb.br e
estacaoleitura@yahoo.com.br.
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60 ANOS SEM MÁRIO
Na última sexta-feira, 25 de fevereiro, completaram-se 60 anos da morte do
poeta, romancista, músico, crítico de arte, ensaísta, musicólogo e agitador
cultural modernista
Mário de Andrade (1893-1945). Não bastasse tudo isso, foi também um dedicado professor, um homem imbuído de missão civilizatória. Os
milhares de cartas que trocou com intelectuais de todo o Brasil mostram bem esse
lado do Mário civilizador. Nesta pequena nota fica registrada toda a nossa
admiração pela enorme figura de Mário de Andrade. Sobre ele Drummond escreveu:
O meu amigo era tão
de tal modo extraordinário,
cabia numa só carta,
esperava-me na esquina,
e já um poste depois
ia descendo o Amazonas,
tinha coletes de música,
entre cantares de amigo
pairava na renda fina
dos Sete Saltos (...)
(Carlos Drummond de Andrade, "Mário de Andrade Desce aos Infernos", in A Rosa
do Povo, 1945)
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Explosão de argila
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Prisca Agustoni |
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FESTA
Cada palavra tem seu espaço.
Mesmo o silêncio
tem espessura de homem.
Os tambores escutam
em surdina
a entrega do corpo.
Eis o cenário
onde a palavra se renova
pesando eternidade.
FESTA
Ogni parola ha il suo spazio.
Anche il silenzio
ha spessore d'uomo.
I tamburi ascoltano
in sordina
la resa del corpo.
È lo scenario
dove la parola si rinnova
pesando eternità.
RETORNO
Dessas distâncias
eu falo.
Digo céus digo homens
que caçam a origem.
Não voltarei
dessa plena distância.
Tenho a consistência do silêncio
primeiro.
Pois espero a floração das chegadas.
Parti para sempre,
com as histórias
órfãs de todos os invernos.
RITORNO
Da questa lontananza
io parlo.
Parlo cieli parlo uomini
che cacciano l'inizio.
Non ritornerò
da questa colma distanza.
Ho la consistenza del silenzio
primigenio.
Quindi aspetto la fioritura degli arrivi.
Sono partita per sempre,
assieme alle storie
dimentiche di tutti gli inverni.
VOZES
Tempo e espaço
não me limitam.
A procura
me avizinha ao mundo.
A moça espera
quem nunca partiu,
depois abraça
o que nunca chegou.
Minha palavra
é explosão de argila.
VOCI
Tempo e spazio
non mi limitano.
Il cercare
mi avvicina al mondo.
La ragazza aspetta
chi non è mai partito,
poi abbraccia
colui che non è mai arrivato.
La mia parola
à esplosione d'argilla.
De Inventário di Voci / Inventário de Vozes (2001)
FIAR A VOZ
Elvezia gosta de cantar.
Mas aqui não vale
a prataria lírica:
as papoulas são altas
e as persianas
continuam
herméticas
FILARE LA VOCE
A Elvezia piace cantare.
Ma qui non vale
l'argenteria lirica:
i papaveri sono alti
e le persiane
continuano
ermetiche.
RÉQUIEM
Os botões são a minha paixão.
No convento
perfumam ambíguos como as rosas.
Quando posso escondo
alguns
para remendar
uma canção de ninar,
ou contar os dias
que faltam
para sair daqui.
REQUIEM
I bottoni sono la mia passione.
Nel convento
profumano ambigui come le rose.
Quando posso ne nascondo
alcuni
per rammendare
uma ninnananna,
o contare i giorni
che rimangono
per uscire da qui.
De Sorelle di Fieno/Irmãs de Feno (2002)
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