Número 423 - Ano 17

São Paulo, quarta-feira, 22 de maio de 2019

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«Mesmo sem naus e sem rumos, / mesmo sem vagas e areias, / há sempre um copo de mar / para um homem navegar.» (Jorge de Lima) *

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William Carlos Williams
William Carlos Williams
e Adam Ford



Amigas e amigos,

No boletim n. 335 (julho de 2015), sob o título “‘Traduções’ modernistas”, apresentei poemas antigos que Manuel Bandeira, como diversão, ocupou-se de “traduzir para moderno”. São textos de Bocage, Joaquim Manuel de Macedo e Castro Alves.

Agora, após a edição n. 417, dedicada ao poeta americano William Carlos Williams, encontrei um texto que faz algo similar com um poema desse autor. Na verdade, conforme vamos verificar, a semelhança está apenas no ponto de partida.

Bandeira reescreve as páginas originais, modernizando-as. Neste outro caso, o desconhecido poeta australiano Adam Ford produz uma “resposta” ao poema “This is just to say / Isto é só para dizer”, de Williams, usando — também por brincadeira — a mesma estrutura do texto de referência.

•o•

O poema “This is just to say / Isto é só para dizer” foi transcrito aqui, com tradução do poeta carioca Antonio Cicero, na citada edição n. 417. Ao lado de “The Red Wheelbarrow / O Carrinho de Mão Vermelho”, é a página mais conhecida e citada de WCW. O texto tem o jeito de um recado colado à porta da geladeira doméstica. Consoante com os padrões de coloquialidade propostos por Williams, esse poema eleva um bilhete trivial à condição de poema.

Vale observar que o texto original é completamente neutro em relação ao gênero do autor ou autora do bilhete. Ali, nenhuma palavra traz, ou trai, qualquer informação sobre isso. De todo modo — talvez pelo fato de o poeta ser um homem —, tende-se a entender que há no contexto um casal e que o homem come as ameixas guardadas pela mulher e deixa a mensagem meio irônica fixada à porta da geladeira.

Contudo, isso é só impressão. À luz do texto, pode ser o inverso, e também nada impede que as duas pessoas sejam um casal qualquer — incluindo homem-homem, mulher-mulher —, ou mesmo um não casal: duas amigas, dois amigos, dois irmãos, pai ou mãe e filho ou filha. Enfim, uma dupla de seres humanos convivendo na mesma casa.

Mas é exatamente pela brecha dos relacionamentos domésticos que entra o poema de Adam Ford. O poeta australiano supõe que as duas pessoas sejam um casal. E no poema-resposta fica patente a existência de rusgas anteriores, que agora explodem. O estopim são as frutas do desjejum, e o mal-estar envolve até ameaças de separação.

•o•

Ao traduzir o poema de Adam Ford, encontrei uma sutil dificuldade nos últimos versos. Na primeira versão, fixei: “vou / abandonar você, / seu estúpido / egoísta”. Esta solução, no entanto, fere a neutralidade de gênero no texto paródico, que também não revela se quem escreve a resposta é homem ou mulher.

Afinal, encontrei uma saída. Em vez dos versos “seu estúpido / egoísta” (“seu” e “estúpido” no masculino), optei por “desprezível / egoísta”, duas palavras de gênero indefinido. Perde-se um pouco do tom coloquial, mas respeita-se a neutralidade genérica do texto-fonte.


Um abraço, e até a próxima,
Carlos Machado




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Isto é só para dizer


• William Carlos Williams  • Adam Ford


              



Andrey Remnev - Expulsion from paradise
Andrey Remnev, pintor russo, Expulsão do paraíso


• William Carlos Williams


ISTO É SÓ PARA DIZER

Eu comi
as ameixas
que estavam
na geladeira

as quais
você decerto
guardara
para o desjejum

Desculpe-me
estavam deliciosas
tão doces
e tão frias

  Tradução: Antonio Cicero, no blog Acontecimentos



THIS IS JUST TO SAY

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold

  De The Collected Poems v.1, New York: A New Directions Book, 1986



Andrey Remnev - Siesta-2008
Andrey Remnev, Siesta (2008)


• Adam Ford


ISTO É SÓ PARA DIZER

    (Em resposta a “Isto é só para dizer”, de William Carlos Williams)

Cansei de ver
você comer meu
café da manhã.

Semana passada
foram as peras.
Na retrasada,
os damascos.
E hoje,
as ameixas.

Não pense que
deixar um
poeminha atraente
na geladeira
vai livrar
sua cara.

Se não parar
de comer minha
comida, vou
abandonar você,
desprezível
egoísta.

  Tradução: Carlos Machado



THIS IS JUST TO SAY

    (In response to William Carlos Williams’ “This is just to say”)

I’m getting tired
of you taking
my breakfast.

Last week it was
the pears.
The week before,
the apricots.
And today,
the plums.

Don’t think that
leaving a cute
little poem
in the icebox
will get you
off the hook.

If you don’t stop
eating my food
I'm going to
leave you,
you selfish
prick.

  De Not Quite The Man For The Job, 1998






poesia.​net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2019



• William Carlos Williams
      - “Isto é só para dizer”
      in Blog Acontecimentos, trad. Antonio Cicero
      Original em inglês: in The Collected Poems v.1,
      New York: A New Directions Book, 1986
• Adam Ford
      - “Isto é só para dizer” (a resposta)
      Tradução de Carlos Machado
      Original em inglês: in Not Quite The Man For The Job
      Allen & Unwin, Sydney-Austrália, 1998
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* Jorge de Lima (1893-1953), "Canto Primeiro - Fundação da Ilha",
  in Invenção de Orfeu (1952)
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* Imagens: obras de Andrey Remnev (1962-), pintor russo.