Número 267 - Ano 7

São Paulo, quarta-feira, 17 de junho de 2009 

«Súbito, de aço, um dia infinito estilhaçou-se.» (Bernardo Soares) *
 

Cecília Meireles, Sônia Barros; Ruy Proença, José Paulo Paes
Em sentido horário: Cecília Meireles, Sônia Barros,
José Paulo Paes e Ruy Proença


Caros,


Entre os poetas, não são muitos os que se dedicam a escrever para crianças. E entre os que o fazem, poucos são aqueles que alcançam a graça, a leveza e a criatividade que representam o passaporte obrigatório para se comunicar com o mundo infantil. Durante o século XX, dois dos poetas que mais se destacaram nessa tarefa, no Brasil, foram Cecília Meireles (1901-1964) e José Paulo Paes (1926-1998).

Tanto a carioca Cecília como o paulista Paes exercitaram-se com muita felicidade na difícil tarefa de escrever para infantes. Os riscos mais comuns desse exercício são, de um lado, produzir poemas numa linguagem tatibitateante, que na prática trata os pequenos como bobocas.

No outro extremo dessa mesma linha, a casca de banana consiste em tentar atrair as crianças com poemas de rasa elaboração, achando — mais uma vez — que só adultos são capazes perceber sutilezas e astúcias criativas. Outro perigo, ainda, é achar que o poema infantil é o lugar adequado para aplicar lições de moral.

Os trabalhos de Cecília Meireles e José Paulo Paes conseguem escapar de todas essas armadilhas. Lançado originalmente em 1964, o livro Ou Isto ou Aquilo reúne os poemas infantis de Cecília. Esses poemas já embalaram várias gerações de leitores miúdos que tiveram a sorte de ser apresentados a eles por pais, parentes, professores ou amigos. Quem é capaz de esquecer o ritmo gracioso de "A Bailarina"?

Esta menina / tão pequenina / quer ser bailarina. // Não conhece nem dó nem ré / mas sabe ficar na ponta do pé. (...)

Do mesmo modo, em seus últimos 15 anos de vida, José Paulo Paes publicou uma dezena de volumes voltados especificamente para leitores infantis. O primeiro foi É Isso Ali, que saiu em 1984. Curiosamente, talvez ainda inseguro em sua estréia infantil, Paes indicou como subtítulo do livro: Poemas Adulto-Infanto-Juvenis. Ora, de fato são textos capazes de encantar pessoas de qualquer idade. Querem um exemplo? O poeminha "Portuguesa":

— Manuel, quando é agora?

— Ora, pois pois:
depois de antes ou antes de depois!



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Neste boletim, reuni uma pequena amostra de poemas infantis de Cecília e Paes. Ao mesmo tempo, para não deixar a idéia de que o trabalho desses dois poetas ficou sem continuidade, acrescento textos de outros dois poetas de gerações mais recentes, ambos já enfocados aqui no poesia.net: Sônia Barros e Ruy Proença.

O paulistano Proença, depois de vários livros de poemas adultos e traduções, envereda pela primeira vez na poesia infanto-juvenil com o voluminho Coisas Daqui (2007). Sônia Barros, paulista de Monte Mor, já publicou uma dúzia de livros de ficção para menores e estreou em  2007 na área de poesia para adultos, com Mezzo Vôo. No ano seguinte, marcou nova estréia, com Coisa Boa, coletânea de poemas para infantes.


Alguns dos traços comuns entre os melhores poemas infantis são a brincadeira com palavras, o nonsense, o trocadilho, rimas bem cantantes — e, obviamente, ritmo.


Um abraço, e até a próxima.

Carlos Machado



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José Paulo Paes em
canções para crianças


O cantor paulista Madan exibe especial afeição pela poesia. Ele compôs dezenas de canções baseadas em textos poéticos, formando parcerias com escritores como Haroldo e Augusto de Campos, Adélia Prado e Olga Savary. Madan também musicou vários poemas de José Paulo Paes, inclusive dois citados aqui: "Raridade" e "Gato da China".




MADAN NEVES (1961-2014)

O cantor e compositor Madan Neves faleceu em setembro de 2014. Alterei agora (outubro, 2014) este boletim para incluir, ao lado, um clipe do YouTube com a gravação dele de "Raridade" (Madan/José Paulo Paes). Faço este registro como uma homenagem a Madan, amante da boa poesia.

 

                      •o•


LANÇAMENTOS

Um livro de contos e outro de poesia britânica traduzida, ambos em São Paulo.


Richard Price
Cartas de Ontem

O poeta britânico Richard Price dá a público o volume Cartas de Ontem, uma coletânea de poemas que versam sobre a temática amorosa. Nascido na Escócia em 1966, Price estará presente ao lançamento. O livro foi traduzido pela poeta Virna Teixeira e publicado pela Lumme Editor.

Data: 19/6, quinta-feira
Hora: 19h30
Local: Sala Cultura Inglesa do Centro Brasileiro Britânico
Rua Tucambira, 163 – Pinheiros.
São Paulo – SP



Gregório Bacic
Olhares Plausíveis


Gregório Bacic - Olhares PlausíveisO jornalista e cineasta Gregório Bacic lança seu segundo livro de contos, Olhares Plausíveis. Bacic é um dos criadores e diretor do programa "Provocações", da TV Cultura de São Paulo.

Data: 25/6, quinta-feira
Hora: 19h00 às 22h00
Local: Livraria da Vila
Rua Fradique Coutinho, 915
Vila Madalena
São Paulo – SP, tel. (11)
3814-5811

 

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Age de Carvalho fala
sobre Max Martins


A propósito do boletim n. 266, sobre o poeta paraense Max Martins, o também paraense e poeta Age de Carvalho faz algumas considerações que acrescentei ao boletim na internet. Convido vocês a conferir essas observações, clicando no link acima.

Hora de brincar

Cecília Meireles, José Paulo Paes,
Ruy Proença e Sônia Barros

 



l José Paulo Paes
 


O cantor e compositor paulista Madan Neves (1961-2014)
musicou e gravou "Raridade", poema de José Paulo Paes




RARIDADE

A arara
é uma ave rara
pois o homem não pára
de ir ao mato caçá-la
para a pôr na sala
em cima de um poleiro
onde ela fica o dia inteiro
fazendo escarcéu
porque já não pode
voar pelo céu.

E se o homem não pára
de caçar arara,
hoje uma ave rara,
ou a arara some
ou então muda seu nome
para arrara.

               De Olha o Bicho (1989)




GATO DA CHINA

Gato branco e preto

Era uma vez
Um gato chinês

Que morava em Xangai
Sem mãe e sem pai

Que sorria amarelo
Para o Rio Amarelo

Com seus olhos puxados
Um pra cada lado

Era um gato mais preto
Que tinta nanquim

De bigodes compridos
Feito um mandarim

Que quando espirrava
Só fazia “chin!”

Era um gato esquisito
Comia com palitos

E quando tinha fome
Miava “ming-au!”

Mas lambia o mingauGato preto
Com sua língua de pau

Não era um bicho mau
Esse gato chinês

Era até legal
Quer que eu conte outra vez?

               Do CD Brincando com Palavras (2005)
 


S

O sapo saltou na sopaSapo
de um sujeito que, sem mais papo,
deu-lhe um sopapo e gritou:
Opa!
Não tomo sopa de sapo!

               De Uma Letra Puxa a Outra (1992)





VALSINHA

É tão fácil
dançar
uma valsa,
rapaz.

Pezinho
pra frente,
pezinho
pra trás.

Pra dançar
uma valsa
é preciso
só dois.

O sol
com a lua.
Feijão
com arroz.




Bem-te-vi
CORREÇÃO

Como dizia
aquele bem-te-vi que ficou míope:
“bem te via... bem te via...”


               De É Isso Ali (1984)

 




 

l Cecília Meireles


Ilustração: Vânia Medeiros
Ilustração: Vânia Medeiros


OU ISTO OU AQUILO

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
Quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo dinheiro e não compro doce,
ou compro doce e não guardo dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo

 



A lua é do Raul

A LUA É DO RAUL

Raio de lua.
Luar.
Lua do ar
azul.

Roda da lua.
Aro da roda
na tua
rua,
Raul!

Roda o luar
na rua
toda
azul.

Roda o aro da lua.

Raul,
a lua é tua,
a lua da tua rua!

A lua do aro azul.


 

COLAR DE CAROLINA

Com seu colar de coral,
Carolina
corre por entre as colunas
da colina.

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
põe coroas de coral
nas colunas da colina.




O ECO

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: “Onde? Onde?”

O menino também lhe pede:
“Eco, vem passear comigo!”
Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.
Pois só lhe ouve dizer “Migo”.


               De Ou Isto ou Aquilo (1964)





l Ruy Proença


Sino



CRIME EM SÃO JOÃO DEL REY

Consta dos autos
de um processo:
um sino que é réu
inconfesso.
Ora vejam só
a história:
badalando o sino
o sineiro
morreu
atingido
pelo sino.
Acusação:
sino assassino.

 


Peixe

 

FLORES MÓVEIS

Os peixes
aprenderam
com as borboletas
todas as cores
da paleta.




COISAS DAQUIBruxa

                 Para Maíra

bruxa
em dia de chuva
não usa vassoura

voa de rodo


               De Coisas Daqui (2007)



 

l Sônia Barros


Arraia, bandeira, cafifa, morcego, pandorga, papagaio, periquito, pipa, quadrado, raia, tapioca...



COISA BOA



Coisa boa
é empinar pipa no pasto.

Para não se perder no infinito,
o olhar se prende no rastro colorido
que o rabo da pipa pinta no céu.

A pipa é só um pontinho
lá longe
em cima da linha do horizonte.




Coisa boa
é a hora do banho
pra eu me fazer de marinheiro
e transformar em mar
a água do chuveiro.

Rodo vira remo,
tapete vira barco,
e o banheiro...
fica um charco!




Galinha-d'angola 

  Coisa boa
 
é correr atrás
  de uma galinha-d’angola.

  Ela diz que está fraca,
  mas dá uma baita canseira.
  Parece que joguei bola
  a manhã inteira!



 


Coisa boa
é descansar num tapete macio
de folhas e grama.

Mastigar um talo de cana,
ouvindo o uivo do vento
e o burburinho do rio.

 

poesia.net
www.algumapoesia.com.br
Carlos Machado, 2008

Cecília Meireles
•  Cecília Meireles
    In Ou Isto ou Aquilo, Civilização Brasileira, 3ª. ed.,
    Rio de Janeiro, 1979
•  José Paulo Paes
   
"Raridade", in Olha o Bicho - Ática, 11ª ed., 12ª reimpr.,
        São Paulo, 1989
   
"Gato da China", in CD Brincando com Palavras Poemas de
        musicados e gravados pelo compositor Madan
        Gravadora Lua Music, São Paulo, 2005
   
"S", in Uma Letra Puxa a Outra, Cia. das Letrinhas, 18ª
         reimpr., São Paulo, 2008
   
"Valsinha", "Correção", in É Isso Ali, Salamandra, 13ª imp.,
         Rio de Janeiro, 1993
•  Ruy Proença
    In Coisas Daqui
   
Comboio de Corda, São Paulo, 2007
•  Sônia Barros
    In Coisa Boa
   
Editora Moderna, São Paulo, 2008
______________
* Bernardo Soares, heterônimo de Fernando Pessoa,
   in O
Livro do Desassossego